'Proposta tapa o sol com a peneira'

Para médicos portugueses, ainda falta estrutura

Jamil Chade / Genebra, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2013 | 02h07

A oferta feita pelo governo brasileiro aos médicos portugueses não atrairá uma quantidade significativa de profissionais e representa um esforço de Brasília para "tapar o sol com a peneira". O alerta é do presidente da Ordem dos Médicos de Portugal, José Manuel Silva.

Ontem, a entidade teve reuniões em Lisboa com representantes do governo brasileiro, que foram à capital portuguesa apresentar o projeto aos médicos locais. Silva afirma que seus técnicos não saíram entusiasmados com o que foi oferecido pelo País no encontro.

"Vamos recomendar a cada médico português que queira ir ao Brasil nessas condições que primeiro faça uma visita aos locais que o governo brasileiro quer levá-los. Só depois de ver como é o hospital e como irão trabalhar é que um contrato deve ser assinado", disse Silva ao Estado por telefone.

A proposta do governo é que médicos estrangeiros possam trabalhar no Brasil sem passar pela revalidação do diploma. Mas, antes, precisam se comprometer que vão apenas para as áreas designadas pelo governo e não poderão atuar em áreas ricas de grandes centros urbanos, como São Paulo ou Rio. A estratégia teria como meta garantir que regiões mais afastadas também sejam atendidas por médicos.

Para Silva, porém, a ausência de médicos em uma região não será resolvida apenas colocando um estrangeiro ali para trabalhar. "Nessas condições, duvidamos que o Brasil consiga atrair um número importante de profissionais de Portugal, O que queremos saber é se há estrutura nesses locais para trabalhar e, aparentemente, não há."

"Dificilmente um profissional que estudou Medicina com padrões europeus de infraestrutura terá condições de se adaptar a um local onde faltam recursos", ressaltou o médico.

'Dignidade'. Logo depois que a proposta começou a ser aventada no Brasil, em maio, a Ordem dos Médicos de Portugal já havia levantado dúvidas sobre o plano. E o próprio Silva chegou a dizer que os médicos não seriam tratados com "dignidade". Mas resolveu esperar até que o governo brasileiro apresentasse a estratégia, para se pronunciar oficialmente ontem.

"O que percebemos é que, se essas são as condições, os médicos portugueses que queiram sair do país buscarão ofertas na Europa e em outros países, e não em um lugar sem estrutura", disse Silva. "O Brasil pode ser uma alternativa à crise que se vive em Portugal, com salários bons. Mas não na situação que o Brasil está oferecendo."

Para Silva, os esforços do governo em lidar com a saúde só terão resultados se maiores investimentos forem feitos. "Nesse caso sim vale trazer profissionais de fora para preencher posições. Mas se não há ninguém no Brasil que quer trabalhar nesses locais, por algo será. O que parece que acontece é que se quer tapar o sol com a peneira."

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.