Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Propaganda do Metrô diz que lotação é boa para 'xavecar mulherada'

Peça foi veiculada na Transamérica, que diz ter tido o conteúdo aprovado pela estatal; Metrô nega e informa que vai processar rádio

Bruno Ribeiro e Caio do Valle, O Estado de S. Paulo

25 Março 2014 | 16h05

Atualizado às 22h49

SÃO PAULO - Uma inserção publicitária sobre o Metrô de São Paulo na Rádio Transamérica causou polêmica nas redes sociais nesta terça-feira, 25. Na peça, o locutor afirma que "trem lotado é bom para xavecar a mulherada". Desde o começo do ano, 23 pessoas foram presas por abuso sexual no metrô e nos trens da CPTM. A Transamérica atribui a peça à estatal. A companhia nega e diz que processará a rádio por uso indevido e sem aprovação de seu nome.

O texto é lido pelo personagem Gavião, do programa humorístico Papo de Craque como se estivesse confidenciando sua própria história ao ouvinte. Começa com o locutor destacando as obras em execução na rede. Propositalmente, ele comete sete erros de concordância como "os trem" e "as estação" ao dizer que a superlotação do sistema sobre trilhos é "normal".  Ouça a propaganda aqui.

"Nos horários de pico, é normal trem e metrô ficar lotado. É assim também nas grandes metrópole espalhada pelo mundo. Pra falar a verdade, até gosto do trem lotado, é bom pra xavecar a mulherada, né, mano? Foi assim que eu conheci a Giscreuza. Muito já foi feito, e o governo sabe que ainda tem muito pra fazer. Governo do Estado de São Paulo (sic)", diz o locutor.

O spot levou passageiros inconformados com o material a questionar o Metrô pelo Twitter. Em sua conta oficial no microblog, a empresa, que é controlada pelo governo estadual, informou que, "assim que tomou conhecimento do referido comercial, totalmente inapropriado, o Metrô consultou a agência responsável pela publicidade e foi informado de que seu conteúdo não só estava em desacordo com o briefing (resumo) passado como também não fora aprovado - nem pela agência tampouco pelo Metrô".

Segundo a companhia, a Rádio Transamérica FM, cuja "produção desse infeliz comercial é de sua inteira responsabilidade", foi advertida e retirou o comercial do ar.

Repercussão. A bancada do PT na Assembleia Legislativa encaminhou nesta segunda-feira, 24, uma representação contra o secretário da Casa Civil, Edson Aparecido, o presidente da CPTM, Mário Bandeira, e o presidente do Metrô, Luiz Antonio Carvalho Pacheco, pedindo abertura de um inquérito civil sobre o caso no Ministério Público.

"A cultura do assédio que não respeita a mulher e seu corpo no espaço público e que aceita a ‘cantada’ e o ‘xaveco’ como algo natural, independentemente da vontade da mulher, é uma cultura opressora que envergonha, constrange a mulher e limita seu direito de ir e vir livremente", diz trecho da representação, assinada pelos petistas Luiz Claudio Marcolino e Alencar Santana Braga.

Resposta. O Metrô nega a autorização para veiculação da mensagem publicitária. Em uma segunda nota enviada ao Estado, a empresa disse que "o briefing transmitido à rádio era (para) mostrar a modernidade do Metrô de São Paulo e explicar que a lotação nos horários de pico acontece em todas as grandes cidades do mundo. Além disso, deveriam ser anunciadas as obras de expansão em andamento".

No começo da tarde, a Assessoria de Imprensa da Rádio Transamérica FM informou, por telefone, que "toda propaganda que a rádio veicula é aprovada pelo contratante". A empresa disse que a inserção não é feita desde o último dia 20.

Mais tarde, a emissora divulgou nota, na qual afirmou que o texto não incentiva comportamentos lascivos nem faz qualquer alusão à violência ou ao abuso sexual.

"O personagem, ao empregar o termo ‘xavecar a mulherada’, se refere única e exclusivamente à paquera, sinônimo da antiga conhecida cantada, que pode persuadir ou aproximar pessoas, formando ou não casais, conduta lícita que acontece na vida cotidiana em qualquer lugar com grande circulação de pessoas", afirmou a nota. A rádio condenou abusos sexuais no transporte público.

O texto da rádio disse também que a Transamérica estava "mesmo certa da inexistência de ligação entre o testemunhal feito pelo (locutor) personagem Gavião e as ocorrências de atentados ao pudor ocorridas nas linhas de transporte púbico".

Ação. O Metrô chegou a retransmitir a nota publicada pela Rádio Transamérica. No entanto, no começo da noite, a companhia divulgou uma terceira nota sobre o caso.

"O Metrô informa que vai processar a Rádio Transamérica FM pelo uso indevido e sem aprovação de seu nome em inserção testemunhal veiculada em programa da emissora. Nem o Metrô nem a agência Nova SB, à qual a Companhia encomendou campanha sobre obras de expansão da rede metroviária, foram informados de que tal conteúdo seria veiculado pela Rádio Transamérica. O Metrô reitera que repudia o conteúdo veiculado pela Rádio Transamérica", diz o texto.

A Assessoria de Imprensa da Transamérica foi procurada mais uma vez, mas não respondeu à reportagem.

Mais conteúdo sobre:
Metrô de São Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.