Promotor põe casal na cena do crime

Promotor põe casal na cena do crime

O promotor Francisco Cembranelli tentou demonstrar nos debates que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá estavam na cena do crime. Para isso, usou o que os laudos do Instituto de Criminalística (IC) trouxeram de mais "simples": a cronologia dos fatos, desde a chegada da família Nardoni ao London na noite de 29 de março de 2008, até as manobras de reanimação dos bombeiros em Isabella.

BRUNO TAVARES e MARCELO GODOY, O Estadao de S.Paulo

27 Março 2010 | 00h00

Diante do olhar atento de Nardoni, Cembranelli logo disparou: "No momento em que Isabella foi defenestrada do 6.º andar estes dois (apontando para o casal) estavam dentro do apartamento". A linha do tempo usada pela acusação foi montada pela perícia com base em dados técnicos, fornecidos pelas operadoras de telefonia, pelo GPS instalado no carro do casal e pelos registros de chamadas recebidas pela central de operações da PM.

Enquanto falava da reação de dois moradores do London ao saberem que uma criança havia despencado, ligando desesperadas para o 190, Cembranelli se exaltou pela primeira vez: "Eles fizeram o que qualquer um de nós faria, menos o próprio pai", afirmou. "Se eu visse meu filho caído, eu pularia pela janela, desceria pelas escadas e não ficaria esperando o elevador chegar."

O promotor também jogou com a emoção dos jurados quando narrava o exato momento em que os bombeiros constataram a parada cardiorrespiratória da vítima. "O coração de Isabella parou de bater depois que a mãe chegou, como se ela a tivesse esperando para morrer."

Bate-boca. Uma das preocupações de Cembranelli foi tentar transmitir aos jurados que os peritos e policiais que atuaram no caso não teriam interesse em incriminar dois inocentes. E o primeiro bate-boca entre defesa e acusação começou ao enaltecer o trabalho da perícia.

O criminalista Roberto Podval quis saber se o promotor falava sobre "a perita das ossadas", referindo-se ao caso do Cemitério de Perus, usado durante a ditadura militar para sepultar os "inimigos" do regime. Uma perita do IC é alvo de ação do Ministério Público Federal por suposto desleixo na identificação das ossadas. "O senhor não conhece o processo", reagiu Cembranelli. E ressaltou que ao longo de dois anos a defesa do casal não obteve nenhum voto favorável nos tribunais superiores. E pediu aos jurados: "Lembrem-se disso ao votar."

Estressada. Cembranelli usou os depoimentos de ex-vizinhos do casal Nardoni para traçar o perfil psicológico de Anna Jatobá. Lembrou das discussões corriqueiras nos apartamentos em que moraram, do ciúme em relação a Ana Carolina de Oliveira, da busca por tratamento psiquiátrico e do histórico de violência doméstica. "A madrasta era dependente da família Nardoni. Até a marca do papel higiênico que usava lhe era imposta."

Cembranelli afastou de vez a presença de uma terceira pessoa na cena do crime. Destacou que a versão contada pelo casal foi encenada pelos peritos durante a reconstituição e verificou-se que, se tivesse mesmo ocorrido, o casal chegaria ao local onde Isabella estava caída depois da meia-noite, quando o resgate já prestava os primeiros socorros.

Comparação. Podval fez um último aparte pouco antes do prazo de 2h30 reservado à acusação se esgotar. "Onde estão as provas?", questionou, no momento em que Cembranelli atribuía a Anna Jatobá as marcas de esganadura encontradas no pescoço de Isabella. "Acabei de mostrar. Se não foi ela, foi ele", respondeu o promotor.

Na réplica, após a exposição da defesa, Cembranelli comparou mãe e madrasta de Isabella, dizendo que uma estava "cursando faculdade, trabalhando em um banco e tinha um anjinho". "Do outro lado, havia uma mulher frustrada, que só pensava em frustrar a outra", referindo-se a Anna Jatobá. Povdal fez um aparte, cobrando provas do promotor. "Se não foram eles, quem foi? Os filhos mais novos? Foi ela, uma mulher que esmurrava vidraças, que espancava os filhos", disse. E completou, dizendo que Jatobá é "um barril de pólvora prestes a explodir".

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