Cadu Maya/Estadão
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Projeto une aulas de autodefesa com acolhimento para mulheres e pessoas LGBTI+ em São Paulo

Piranhas Team foi criado há seis anos no Rio e oferece suas oficinas com aulas gratuitas pela primeira vez na região central da capital paulista

João Ker, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2022 | 10h00

Misturando aulas de autodefesa com acolhimento para mulheres e pessoas LGBTI+, o Piranhas Team desembarcou para sua primeira oficina em São Paulo no fim do mês passado, onde tem ficado por seis fins de semana consecutivos no Shàoshèng, em Santa Cecília. Criado há seis anos no Rio, o projeto já treinou mais de 300 alunos com base nas artes marciais e na filosofia de se preparar física e emocionalmente contra ataques de ódio.

O projeto surgiu a partir de um grupo de amigos LGBTI+ que, à época, trabalhavam em parceria com o PreparaNem, um cursinho preparatório para o Enem voltado para travestis e transexuais em vulnerabilidade social. Conversa vai, conversa vem, eles começaram a reparar em histórias parecidas de entre todos ali.

“Era muito comum alguém do nosso grupo passar por situações na rua de ofensa, agressão, ameaça etc., e aí tivemos o estalo de fazer alguma coisa que pudesse ajudar as pessoas a andarem na rua mais seguras, com mais confiança para reagir a esse tipo de situação”, explica o advogado Hal Paes, de 44 anos, fundador do Piranhas Team.

As aulas oferecidas pelo grupo são baseadas em artes marciais como o jiu jitsu e o kung fu, este último usado como ponto de partida para as oficinas em São Paulo. Mas além de golpes, o Piranhas Team ensina também a escutar, acolher e construir um senso de comunidade entre si, algo que às vezes se torna o motivo principal para alguns alunos.

Na primeira oficina, uma lição importante foi identificar também quando não engajar em confrontos físicos, contra si ou terceiros. Saber quando você pode evitar uma situação violenta ou fazer com que ela aumente de proporção é fundamental, e há casos em que o envolvimento de armas brancas ou de fogo torna impossível uma reação, por menor que ela seja.   

“Temos turmas com finalidades diferentes e atingimos um público muito diverso, mas sempre focando em mulheres e pessoas LGBTI+. Muitos vêm porque aqui é o lugar onde conseguem fazer amigos. Temos casos de pessoas trans em que o único lugar onde teve outros amigos trans foi treinando com a gente”, explica Hal.

Gabriel Guarino, o instrutor de 29 anos responsável por guiar a primeira turma paulista do Piranhas Team, explica que a diferença dessas oficinas para uma aula de arte marcial comum é que além de treinar, eles também trabalham a “escuta ativa”. “É também criar uma comunidade, viver a vida junto e lidar com os problemões que acontecem com a gente. Aqui, estruturamos para poder falar de violência, ouvir histórias e a partir disso criar uma habilidade corporal para lidar com a violência do cotidiano.”

No primeiro encontro do grupo, o principal exercício físico ensinado foi o de reagir a uma abordagem hostil na rua: como posicionar o corpo, identificar agressões potenciais, ficar a uma distância ideal do interlocutor e manter o estado de alerta. Durante a roda de conversa, os alunos contaram histórias de assédio sexual, agressões físicas e discriminações por gênero e/ou orientação sexual, alguns ainda emocionados ao reviverem aqueles traumas.

Juno Cipolla, homem trans de 30 anos e editor de livros infantis, foi um dos participantes que dividiram um episódio de violência com a turma. No caso dele, a agressão veio de um vizinho, quando morava na Vila Sônia e foi surpreendido com a guarda baixa. “Quando eu virei pra sair, ele pulou o muro, me puxou por trás, me jogou no chão e chutou a minha cara”, lembra.

“Acho que, realmente, eu poderia ter falado qualquer coisa ali que ele viria pra cima de mim. Mas agora, já com esse primeiro encontro, eu sei que não deveria ter virado de costas pra ele e que se eu tivesse ficado de frente, provavelmente ele não teria feito nada, porque foi muito covarde de me atacar assim”, conta. “Eu sempre me considerei uma pessoa forte, nunca soube usar a própria força. Sempre quis aprender a me defender porque já fui alvo de várias violências, então fico nervoso de não saber o que fazer.”

A turma de aproximadamente 20 alunos tinha histórias e motivações que, de uma forma ou de outra, se assemelhavam tanto pela surpresa da violência quanto pela falta de saber como reagir. “Eu sou uma travesti vivendo no Brasil, então acho que tecnicamente em todas as situações, por 24 horas do dia (posso ser agredida). Uma das coisas que eu falo em nome de muitas pessoas é que evitamos sair de casa por causa do medo constante que a gente tem”, conta a publicitária Júlia Jesus, de 29 anos.

“A gente é bombardeada o tempo inteiro com essas notícias de violência contra a nossa comunidade. O ideal seria que não tivesse esse medo, mas a gente sabe que ela existe então que tenhamos alguma forma de se defender e de pelo menos evitar também”, diz. No ano passado, o Brasil se manteve como o País campeão de assassinatos das travestis e transexuais em todo o mundo, com 140 vítimas notificadas.

A terapeuta Yve Oliveira, de 26 anos, explica que seu objetivo ao frequentar as oficinas do Piranhas Team é não só aprender a se defender, mas também passar esses conhecimentos adiante. “Sinto que a parte mais psicológica de eu conseguir reagir melhor a uma situação de medo ou violência fui adquirindo por questões de vivências mesmo. No dia a dia a gente vive muitas situações”, pontua.

“Sempre falo que o corpo das meninas e mulheres é o primeiro território de luta, que a gente já tem de se defender desde muito nova. Imagino que para os LGBTs é essa mesma situação: o tempo todo estar com a guarda alta e estar preparado para uma situação que vai vir”, explica a advogada Georgina Mocelin, de 48 anos.

Também artista marcial, ela diz que resolveu participar das aulas pela “troca de experiência, a parte do acolhimento e do empoderamento”, mesmo sendo heterossexual e cisgênera (que se identifica com o gênero atribuído ao nascimento). “No primeiro momento, fiquei me questionando se seria um espaço pra mim. Mas acho importante e a nossa troca foi bem profunda. É preciso ter essa empatia pelo que outro passa. Tenho certeza que todo mundo vai sair daqui com outra atitude até ao andar na rua, com um alerta.”

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