Projeto social vai reformular escadão de Paraisópolis em SP

Com aval da Prefeitura, ideia é ocupar terreno baldio com salas, anfiteatro, quadra e horta comunitária

Naiana Oscar, do Jornal da Tarde,

18 Maio 2009 | 10h03

Paraisópolis quer chegar mais perto do Morumbi. A estreita escadaria que liga a favela ao bairro nobre da zona sul de São Paulo vai expandir suas dimensões com a ocupação do terreno baldio que beira parte dos 187 degraus. Ali deve ser erguido o ousado projeto da sede da União dos Moradores de Paraisópolis, idealizado pelo arquiteto Franklin Lee.

Com salas, quadra esportiva, anfiteatro e até horta comunitária, a ideia já tem o aval da Secretaria Municipal de Habitação. No início deste mês, a superintendente municipal de Habitação Popular, Elizabete França, garantiu aos moradores que a área, hoje particular, será desapropriada pelo Município para a obra se tornar realidade.

A captação de recursos ficará a cargo da comunidade. A associação de moradores estima um custo de R$ 2 milhões, que seria bancado por empresas parceiras. "Queremos ter o dinheiro até o fim do ano para, em dezembro, iniciar as obras", disse Gilson Rodrigues, presidente da entidade.

A nova sede pretende reunir todos os projetos sociais desenvolvidos pela associação, como biblioteca, capacitação profissional, alfabetização de adultos e cursos pré-vestibular. Esses serviços são prestados pela União dos Moradores desde que ela foi criada, há 25 anos, mas em locais diferentes. "É para aglutinar tudo e criar um espaço de encontro da comunidade. E, como tem o escadão, fazer com que os moradores vizinhos venham participar com a gente", disse Rodrigues.

No projeto, uma das mais emblemáticas tentativas de integração são as hortas comunitárias, que ficarão dispostas no terreno, como a plantação de arroz do sudeste asiático, caracterizada pelo cultivo em terra alta. "Os moradores vão produzir juntos, consumir e aprender", disse Lee.

Foi ele que fez a vontade da comunidade tomar forma num programa de computador. Alunos estrangeiros do arquiteto brasileiro que leciona em Londres visitaram Paraisópolis por três anos, ouviram lideranças comunitárias, estudaram as estatísticas e o contraste entre os bairros pobre e rico. "Pensamos no modelo do Sesc, sempre com a ideia de um centro cultural social que pudesse integrar quem mora dos dois lados."

Reconhecimento

No ano passado, o projeto da União dos Moradores de Paraisópolis ficou entre os 12 finalistas do Deutsche Bank Urban Age Award, uma premiação que, naquele ano, selecionou trabalhos que apresentaram soluções criativas para problemas de São Paulo. A sede da associação foi escolhida entre 133 projetos. Mas quem ganhou o prêmio de U$ 100 mil foi o programa de revitalização de um cortiço do centro da capital.

"Ser finalista foi o impulso que precisávamos para lutar pela concretização da sede de Paraisópolis", disse Rodrigues. "Ao contrário das outras ações feitas aqui sem nosso aval, esse partiu da gente." Durante o evento, Lee recebeu elogios do urbanista Jaime Lerner.

Mas, para Lee, o trabalho é muito mais do que um desafio profissional. Projetar uma obra no solo de Paraisópolis é fazer parte de uma história que já lhe pertenceu. Os pais de Lee eram proprietários de terrenos na região que foi ocupada pela favela. Perderam as áreas para os imigrantes nordestinos que se instalaram nas proximidades do Morumbi. "Não tinha mais como tirá-los dali. Agora isso já é passado."

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