Projeto propõe encerrar velório às 23h

Câmara Municipal desarquivou proposta de lei nesta semana; muitas famílias já preferem sair à noite e voltar apenas na manhã seguinte

Valéria França, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

O medo de ser assaltado está levando muitas famílias de São Paulo a abandonar o velório à noite. Acompanhando a tendência, a Câmara Municipal desarquivou nesta semana projeto de lei de 1999, do vereador Toninho Paiva (PP), que prevê o fechamento dos velórios entre 23 e 6 horas.

A família da advogada Veridiana Fernandes Petri, de 28 anos, passou por essa sensação de insegurança no Velório do Araçá, na zona oeste de São Paulo, há uma semana, quando morreu a avó, Elza Fernandes, de 93 anos. Às 22 horas, todos se retiraram. O mesmo aconteceu com a família do morto da sala ao lado. As duas portas de vidro foram encostadas, deixando os caixões no escuro, rodeados por velas acesas.

Na porta principal, que dá para a Avenida Doutor Arnaldo, não havia nenhum segurança. Na administração, a poucos metros da entrada, se via só um funcionário, que dormia. "Não dá para ficar aqui. É muito perigoso", diz Veridiana. Nos últimos dois anos, porém, houve registro de apenas uma ocorrência na capital ? há uma semana, no Crematório da Vila Alpina, zona leste.

Mas os baixos índices não são suficientes para aplacar o medo. "Sempre me perguntam se já fomos assaltados", diz José Donizeti, administrador do velório do Cemitério da Vila Mariana, zona sul. "Eu digo que não. Daí me perguntam se eu garanto a segurança. Respondo novamente que não. Como posso garantir?" Sem essa segurança, as famílias deixam o velório. "Este local é muito isolado, dá medo mesmo", justifica o arquiteto Carlos Henrique Maia, de 54 anos, que perdeu o pai no mês passado. "Ficar aqui é um risco. Não tem nem muros."

São Paulo conta com 40 cemitérios, 18 particulares. Os 22 municipais contam com o apoio da Guarda Civil Metropolitana (GCM), que trabalha com um contingente de 60 policiais, que fazem rondas 24 horas por dia. "Eles passam por aqui a cada 40 minutos. Mas o foco é o cemitério, não o velório", explica Donizeti. O local onde ele trabalha fica num terreno anexo do cemitério, rodeado por árvores e ruas residenciais.

Autor do projeto que fecha os velórios às 23 horas, Toninho Paiva defende o apoio da GCM nos velórios. "Se a família quisesse, o corpo ficaria sob custódia da Guarda", explicou. "Eu moro há 68 anos no Tatuapé e vou há três velórios por semana. Todo mundo reclama (da violência).''

Seguranças. No Cemitério Getsêmani, no Morumbi, depois de certo horário, os portões principais são fechados e as famílias que querem podem ficar dentro das salas. Mas, segundo um segurança que não quis ser identificado, muitas optam por ir embora à noite. O mesmo ocorre, nessa região, no Cemitério da Paz. Ambos têm vigias particulares.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.