Nilton Fukuda/Estadão
Boulevard circunda o megacomplexo Cidade Matarazzo. Nilton Fukuda/Estadão

Acordo prevê túnel, boulevard e feira orgânica na região da Paulista

'Boulevard da Diversidade' terá quadra na Rua São Carlos do Pinhal exclusiva para pedestres, com mobiliário dos irmãos Campana, até 2022; termo de cooperação será assinado nesta quarta, 25, por Covas e empresário francês

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 10h58

SÃO PAULO - Um túnel na parte inferior e um boulevard verde na superfície, com pergolados e bancos assinados pelos irmãos Campana. Tudo a poucos metros da Avenida Paulista. A descrição é do projeto Boulevard Paulista,  idealizado pelo mesmo grupo do megacomplexo de luxo Cidade Matarazzo. Com entrega prevista até 2022, ele terá o termo de cooperação assinado nesta quarta-feira, 25, em evento com o prefeito Bruno Covas (PSDB).

Também chamado de Boulevard da Diversidade, o projeto inclui também uma feira com quiosques de produtos orgânicos, nova iluminação, atividades culturais, piso drenante, paisagismo, sanitários públicos, wi-fi gratuito e enterramento das redes de energia e comunicação. Além de restringir um trecho da Rua São Carlos do Pinhal para pedestres, o boulevard também abrange a Alameda das Flores (que já é fechada para carros) e a calçada e o espaço das vagas de estacionamento de uma quadra da Alameda Rio Claro. Ao todo, abrange 9.850 metros quadrados, que serão mantidos pela iniciativa privada por 30 anos.

O boulevard é idealizado por uma entidade sem fins lucrativos presidida pelo empresário francês Alexandre Allard, idealizador da Cidade Matarazzo, megacomplexo de luxo em construção na área do antigo Hospital Umberto I, na Bela Vista, que reunirá lojas, restaurantes, centro cultural, capela, serviços de saúde, hotel seis estrelas e escritórios. Além das edificações tombadas, o empreendimento inclui novos edifícios e tem um “soft opening” previsto para maio de 2020.

Segundo a gestão Covas, a proposta do boulevard passou por “intensa e transparente análise de todos os órgãos competentes”, que constaram o “interesse público”. “Foi tomada a decisão de implementação do projeto por meio de acordo de cooperação”, explica em nota, que informa o valor estimado de R$ 130 milhões, inteiramente de responsabilidade dos proponentes. Ainda é necessária a emissão de algumas licenças, como a ambiental, de trânsito e de ocupação do solo.

“É uma utopia urbana”, define Allard, que chama o projeto inteiro, desenvolvido ao longo de 13 anos, de “Movimento Matarazzo”. “É uma peça da vida, proporcional ao tamanho do desafio. Não tem nada comparável, com a nossa ambição do ponto de vista simbólico”, explica.

O objetivo é que tudo esteja pronto em 2022, quando será realizado um grande evento em celebração ao centenário da Semana de Arte Moderna. “O boulevard vai celebrar a diversidade da cultura brasileira, da biodiversidade, da diversidade social, de religião.”

A parte urbanística foi elaborada pela Levisky Arquitetos, responsável pelo projeto de remodelação da Praça Victor Civita, na zona oeste. “É um projeto complexo, que lida com uma série de adequações de infraestruturas, que precisou ser olhado, adequado, complementado por uma série de demandas do poder público”, explica a urbanista Adriana Levisky.

Adriana diz que ainda não é possível precisar o início da obra, pois isso depende de aprovações na esfera pública. A estimativa apresentada à Prefeitura é de 21 meses para a construção do túnel e de 10 meses para a implantação do boulevard. “Foi pensado de uma forma a não interromper o trânsito da São Carlos do Pinhal.”

A urbanista explica que o boulevard funcionará como uma “extensão das calçadas”. Ela diz que o projeto tem em comum a ideia de “qualificar um espaço anteriormente degradado” e cita, como exemplos, intervenções recentes na orla de Tel Aviv, em Puerto Madero (Buenos Aires), e no Porto Maravilha (Rio). “Será um espaço onde se terá condições de estar, de contemplar.”

Boulevard terá feira orgânica seis dias por semana

Um dos destaques do projeto são os pergolados desenhados pelo irmãos Campana, que cobrirão parte do eixo peatonal com material metálico, bambu, plantas trepadeiras e lâmpadas LED. Os designers também são responsáveis pelos bancos, mesas e cadeiras, além dos quiosques (de 30 a 60 unidades) e carrinhos da feirinha de orgânicos.

A ideia é que a feira funcione seis dias por semana, prioritariamente com alimentos sem agrotóxicos e, também, com artesanato brasileiro. Parte desse mobiliário e do calçamento não seguem a padronização municipal, mas foram “expressamente aprovados” pela Comissão de Proteção à Paisagem Urbana, do Município. 

Segundo a Prefeitura, as atividades no local, mesmo que envolvam comércio, não poderão ter “finalidade lucrativa”. “Assim, os recursos obtidos com a venda dos produtos não serão distribuídos entre os sócios ou associados, conselheiros, diretores, empregados, doadores da proponente ou terceiros, mas serão aplicados integralmente na consecução do objeto da parceria, nos termos permitidos pela legislação.”

O projeto também engloba a realização de ao menos seis oficinas e atividades culturais anualmente, que obrigatoriamente deverão ser gratuitas e “sem qualquer restrição”, de acordo com a gestão municipal. Além disso, está autorizada a remoção de árvores no eixo do túnel e dos exemplares considerados “não saudáveis”, embora o projeto amplie a cobertura vegetal.

“Para isso, pretende-se criar uma zona de convergência entre os bairros tradicionais dos Jardins e os inovadores da Bela Vista, valorizando ao mesmo tempo o passado e a tradição de São Paulo e seu espírito empreendedor e inovador”, define um plano de trabalho da Prefeitura que o Estado teve acesso.

Diálogo dos idealizadores com moradores da região é criticado

Moradora da região, a empresária e advogada Raphaela Galleti considera que o projeto está sendo pouco divulgado. “O Cidade Matarazzo é indiscutível, longe de mim estar colocando essa questão. É um projeto de primeiro mundo, a questão é a falta de discussão pública do boulevard, da apresentação de dados essenciais, como impacto ambiental, no viário, na vizinhança”, afirma.

Raphaela, ligada à Associação de Moradores e Amigos do Bairro da Consolação e Adjacências (Amacon), chegou a participar de uma apresentação do projeto no Masp, em julho, mas discorda que o evento foi uma “audiência pública” (como define a Prefeitura). “Não foi aberto ao diálogo, foi ‘olha que lindos os meus slides, vai ser assim'”. 

A advogada defende a realização de novas audiências e consultas públicas com moradores e empresários do entorno. “Os problemas não foram abordados, só o brilhantismo do desenho arquitetônico, que é lindo, mas é bom para região? Ou só serve para a Cidade Matarazzo? Essa é a pergunta.”

Em nota, a gestão municipal disse que o projeto está seguindo “rigorosamente a lei e as boas práticas de transparência”. Já a Associação São Paulo Capital da Diversidade, responsável pelo boulevard, diz ter realizado sete reuniões com representantes de edifícios da região, do Conseg e da Amacon, além de programar ao menos mais dois encontros.

Túnel na São Carlos do Pinhal divide opiniões entre especialistas

O boulevard começa na esquina da Paulista, que recebe diariamente 700 mil pessoas, número que chega a ultrapassar um milhão nos domingos. A localização faz “todo o sentido”, segundo o urbanista Valter Caldana, professor da Mackenzie. Ele aponta que o projeto se difere da maioria dos empreendimentos em São Paulo, que não tem integração com a área urbana e continuam com ideias do "século passado". “É difícil mudar essa mentalidade tanto no poder público quanto nos agentes privados e na sociedade.”

“Ele traz um aspecto fundamental, da compreensão que o agente privado pode e deve dialogar com a cidade e incluir a cidade na elaboração do seu projeto. O custo disso (do boulevard) para o projeto (Cidade Matarazzo) é mínimo, mas o ganho para a sociedade é incomensurável.”

O urbanista comenta ainda que o túnel é uma solução técnica “passável” em comparação ao que considera o custo-benefício do boulevard. Já o engenheiro Luiz Vicente de Mello Filho, especialista em trânsito e tráfego, considera a passagem em desnível uma solução desatualizada por ser voltada para o transporte automotor.

“Particularmente não sou favorável a túneis. O mundo já está buscando outras alternativas. Quando se faz um túnel, também se cria outros problemas urbanísticos, é colocar a sujeira para baixo do tapete”, diz. “Túnel não é algo que se constrói e se desconstrói em velocidade grande. Vai ficar aí por anos, décadas, até séculos.”

Para Mello Filho, o projeto precisa apresentar um plano de mobilidade para integrar os outros modais da região, como bicicleta e patinete. Além disso, ele comenta que esse tipo de construção também pode trazer outros tipos de demandas sociais, por costumeiramente atrair uma população em situação de rua. “É bonito da parte de cima, mas um desafio muito grande para a parte de baixo.”

Outro ponto abordado pelo professor é que, por mais que o projeto elimine dois semáforos da região, isso não significa que necessariamente vai melhorar a fluidez. “Pode gerar congestionamento até dentro do túnel, como temos na Rebouças e na Faria Lima. O fluxo de veículos já é muito alto nessa região.”

 

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SP: Megacomplexo de luxo em antigo hospital será aberto em maio na Bela Vista

Orçado em R$ 2 bilhões, Cidade Matarazzo reunirá 34 restaurantes, lojas de mais de 70 grifes exclusivas, espaço cultural e hotel seis estrelas no centro expandido de São Paulo

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 10h53

SÃO PAULO - Inaugurado em 1904, o Hospital Umberto I, popularmente conhecido como Hospital Matarazzo, na Bela Vista, está passando por uma transformação para dar lugar a um megaempreendimento, o Cidade Matarazzocom abertura parcial prevista para maio de 2020 e entrega completa no segundo semestre do ano seguinte. O projeto inclui ainda, um boulevard, um túnel e uma feira de orgânicos na região da Avenida Paulista.

O empreendimento dará novo uso a edificações históricas, como a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo (de 1943) transformada em hotel seis estrelas, cuja estrutura também inclui o primeiro edifício do premiado arquiteto francês Jean Nouvel no País. O custo estimado é de R$ 2 bilhões, a maior parte de recursos estrangeiros, em uma área construída que chega a 135 mil metros quadrados.

Após o fechamento do hospital na década de 90, o terreno foi alvo de projetos que não saíram do papel até ser comprado pela Boulevard Matarazzo Empreendimentos (liderada pelo Grupo Allard) em 2011. Dois anos depois, foi modificado o tombamento do hospital (de 1986, na esfera estadual) para liberar a demolição da antiga clínica pediátrica, do necrotério e de uma obra de 1970, que ficavam no lote em que são erguidos parte do hotel e um prédio de escritórios.

O idealizador do projeto, o empresário francês Alexandre Allard, diz que o espaço reunirá tudo o que há de mais representativo da cultura brasileira, desde grafites de nomes conhecidos até artesanato de povos indígenas. Ele garante que andar pela Cidade Matarazzo será uma experiência mais completa do que “ler 10 livros de urbanismo”.

O complexo reunirá lojas de mais de 300 marcas de luxo, das quais cerca de 70 serão exclusivas, 34 restaurantes de gastronomias distintas, estacionamento com 1,5 mil vagas e 272 quartos de hotel. Chamado de Torre Mata Atlântica, um dos prédios do hotel terá 25 pavimentos e árvores plantadas nas varandas. Terá ainda um centro cultural com exposições, teatro e sala de concerto e um cinema para eventos premium, além de reabrir a antiga Capela de Santa Luzia, que voltará a receber missas e casamentos. 

A meta é receber 15 mil visitantes ao ano. Apesar de reunir grifes de luxo, Allard garante que o espaço será aberto a todos os públicos, com opções gastronômicas também a preços mais acessíveis.  “É feito para todo mundo, não será um lugar elitista”, conta. “O objetivo não é fazer um projeto para São Paulo, mas para o mundo, temos uma ambição mundial.”

Durante a obra, uma das imagens que mais chamou a atenção da vizinhança foi a técnica utilizada para manter a Capela Santa Luzia. A antiga construção foi sustentada de pé a 31 metros enquanto o subsolo recebeu as obras de oito pavimentos subterrâneos, entre estacionamento, cinema e bicicletário.

 

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