Projeto põe ônibus e bicicleta na mesma faixa

Proposta de ciclofaixa de Moema está em análise e prevê menos espaço para carros

Márcio Pinho,Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

O projeto de ciclofaixas em Moema, na zona sul de São Paulo, em estudo pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), prevê pistas compartilhadas entre ciclistas e ônibus. O modelo, comum em países europeus, é inédito no Brasil. Se for adotado, uma das pistas de carros terá de ser reservada para o corredor e as outras, estreitadas.

O projeto prevê a criação de uma rede completa de ciclofaixas no bairro, no lugar das vagas de Zona Azul, retiradas pela Prefeitura no início do ano, totalizando cerca de 15 km. Onde não passa ônibus, as ciclofaixas ficariam nas extremidades, obedecendo ao sentido de circulação.

O plano foi feito pela consultoria TC Urbes e pelo Instituto CicloBR, com participação da CET. O traçado definitivo ainda não está definido e dependerá dos estudos de impacto e viabilidade da companhia. Moradores deverão ser consultados.

Segundo os técnicos responsáveis, as pistas compartilhadas entre bicicletas e ônibus vão dar prioridade tanto ao transporte não motorizado quanto ao público. A solução pode ser adotada em vias com fluxo de ônibus, como a Alameda dos Maracatins ou a Avenida dos Eucaliptos, por onde passam algumas linhas de ônibus. Questões como a velocidade dos ônibus e o embarque de passageiros também foram consideradas.

Para diminuir os atritos entre ciclistas e motoristas, estão previstas palestras e treinamento dos condutores de ônibus. As faixas exclusivas deverão ter 4 metros de largura - corredores de ônibus normais são menores, com pistas que variam entre 2,75 metros e 3,30 metros.

A diferença seria retirada das pistas dos carros, que, além de perderem em número, também ficariam mais estreitas. "Esse tamanho permitiria a ultrapassagem entre ônibus e bicicleta sem perigo para o ciclista e sem perda de eficiência para o transporte coletivo", disse o arquiteto Ricardo Corrêa, da TC Urbes.

Divisões. Apesar de as pistas compartilhadas entre bicicletas e ônibus ainda estarem em estudos, já se sabe que a maioria das ruas contempladas pelo projeto deverá ganhar faixas exclusivas para ciclistas do lado direito. Quando houver vagas de estacionamento desse lado da via, a ciclofaixa ficaria entre a calçada e os carros estacionados.

De acordo com o diretor-geral do Instituto CicloBR, André Pasqualini, o bairro de Moema foi escolhido por causa da perda de 3.850 vagas e porque já é rota usada por quem vai ao Parque do Ibirapuera - a ciclofaixa de lazer funciona aos domingos também no bairro.

"Moema poderá ser a vitrine para que o projeto seja replicado em outros bairros. É uma iniciativa inédita no Brasil", afirmou Pasqualini.

Lygia Horta, da Associação de Moradores de Moema, porém, adianta ser contrária ao projeto. "Não sou contra a bicicleta. Mas aqui em Moema não tem tanta bicicleta assim. Aqui o pessoal usa mais carro. E as ruas não têm uma largura tão grande. Não concordo em priorizar bicicleta, sinceramente."

Boa parte dos moradores do bairro ainda se queixa da perda das vagas de Zona Azul.

Pasqualini admite que o projeto poderá sofrer resistência em razão da cultura do automóvel, mas diz acreditar na sua aprovação. "Tentamos recuperar um pouco o espaço dado ao carro e oferecê-lo aos outros meios."

A previsão é que, após os estudos e um aval definitivo da CET, o projeto executivo e a implementação demorem seis meses, segundo autores do projeto.

Veja também:

linkCríticos citam falta de segurança para os ciclistas

LÁ TEM...

Paris, França

Embora inéditas no País, faixas compartilhadas entre bicicletas e ônibus são comuns na França - Paris e Bordeaux têm, respectivamente, 118 km e 40 km.

Londres, Inglaterra

Em Londres, bicicletas e motos podem usar todas as faixas de ônibus da cidade há três anos. Um estudo mostrou que, nas três vias onde houve a primeira experiência, em 2006, acidentes com ciclistas e motos caíram 44%.

Alemanha

Estudo do governo alemão de 2004 recomendou que as bicicletas fossem liberadas em todos os corredores de ônibus. Segundo a pesquisa, o modelo diminui riscos para ciclistas e não afeta a velocidade do transporte público.

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