'Programa é eleitoreiro'

Recém-formado que começou a trabalhar em Caxias critica o Mais Médicos

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2013 | 02h06

RIO - Aos 26 anos, formado há apenas oito meses, Wendel José Itigy de Paiva nunca sonhou ser médico de família. Prefere a adrenalina das emergências e centros de terapia intensiva, e agora estuda para ser anestesista. O salário de R$ 10 mil e a oportunidade de ganhar experiência o levaram ao Mais Médicos. Mas o jovem, lotado numa Unidade de Saúde da Família de Parada Angélica, área pobre de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, não defende a iniciativa federal. Pelo contrário: "Não concordo com o programa, é eleitoreiro. Vim porque, se não viesse, outro viria".

Diferentemente de boa parte de seus pares, que evita entrevistas por temer que suas declarações sejam mal interpretadas, Paiva falou ao Estado ontem sem medir palavras. "O programa não vai resolver a saúde no Brasil. Você pode levar o médico, mas como mantê-lo? Uma amiga foi pelo Programa de Valorização da Atenção Básica para um posto onde não tinha luz nem banheiro. Claro que foi embora. O clamor da população nas ruas é por saúde, não por mais médicos. Não adianta ter médico sem estrutura."

Ele já vislumbra as dificuldades pelas quais passará: "Você quer fazer o seu trabalho, mas não necessariamente consegue. Veio um paciente com diabete avançada, com risco de ficar cego, e pedi um exame de fundoscopia (que avalia o fundo do olho), mas será que vão marcar para daqui a um ano? Não sei." Natural de Guaíra, cidade do interior paulista de 37 mil habitantes, ele mora em Caxias desde que começou a cursar Medicina na universidade local, Unigranrio, para desgosto do pai, que o queria por perto. Tentou faculdades na sua região e na capital, mas não passou nos vestibulares.

Em Caxias, viu favela e esgoto a céu aberto pela primeira vez. Foi também seu contato inaugural com a atenção básica. Participava de um mutirão da saúde, levado por uma professora, numa área tão miserável que as casas eram de papelão e lona. Era no antigo lixão de Gramacho. "As pessoas tiravam comida do lixo. As crianças tinham verme, sarna."

Em Parada Angélica, começou na semana passada. Sua equipe, que há cinco anos não tem um médico da família (com dedicação integral, 40 horas por semana), é responsável por acompanhar 1.900 moradores. Ontem era dia de puericultura e seis mães com bebês o aguardavam já às 10 horas. "Não pensei que fosse gostar tanto de trabalhar aqui. Fui muito bem recebido por todos."

O colega Douglas Levandoski, de 28 anos, que chegou ao posto pelo Provab (programa de valorização à atenção básica), se sentia sobrecarregado, pois precisava atender mais pacientes. Ele também não pretende seguir na área de saúde da família. "Não é meu sonho, quero ser radiologista. Mas o trabalho aqui é gratificante."

Tráfico. O posto foi inaugurado há um mês. O antigo ficava numa área dominada por traficantes, que chegaram a apontar armas para médicos e enfermeiros.

Caxias pediu 32 profissionais ao Mais Médicos, mas só conseguiu 13. Onze são brasileiros, dos quais 7 desistiram. Dois estrangeiros ainda vão chegar. Outros municípios da Baixada também enfrentam problemas: em Mesquita, Japeri, Guapimirim e São João de Meriti, os desistentes alegaram distância (mesmo morando em municípios vizinhos) e falta de disponibilidade para trabalhar 40 horas por semana.

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