Professora é morta na porta de escola

Assassinada com três tiros, Joyce Chaddad de Moraes Domingues, de 36 anos, era admirada por alunos de Embu, na Grande São Paulo

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

01 Março 2011 | 00h00

Ainda no café da manhã, a professora comentou com o marido que não queria ir trabalhar ontem. Sem dar muitos detalhes, reclamou apenas que o clima na escola não estava muito bom. O marido ainda sugeriu que a mulher faltasse ao trabalho, mas ela tinha voltado de licença-maternidade havia apenas 15 dias, não queria criar caso. Na porta da Escola Municipal Paulo Freire, em Embu, Grande São Paulo, às 6h40, Joyce Chaddad de Moraes Domingues, de 36 anos, descia do carro para dar aulas de Educação Física quando foi atingida por três tiros - dois no peito e um na nuca. Levada ao pronto-socorro, não resistiu.

Quem conta a cena de Joyce com o marido Evandro é o primo dele, o arquiteto Marcelo Motta. Na frente do Instituto Médico-Legal de Taboão da Serra, eles aguardavam a liberação do corpo da professora e coordenadora pedagógica para o velório.

Evandro é chefe dos fiscais da prefeitura de Itapecerica da Serra. "Eu ocupei esse cargo por muito tempo. Evandro é tranquilo, não enfrenta grandes interesses. Acreditamos que quem atirou seja relacionado com ela, alguma coisa da escola", afirma Motta. Evandro não quis falar com a imprensa.

Execução. O caso foi encaminhado para o 1.º Distrito Policial de Embu. O delegado Higino Grigio trabalha agora somente com a hipótese de execução, já que nada de Joyce foi roubado e o criminoso foi diretamente a ela e atirou, como se a conhecesse. "Não sabemos ainda a motivação, estamos ouvindo as testemunhas", afirma Grigio.

Ao longo do dia, diferentes versões do crime foram surgindo e, com os depoimentos, o delegado descartou algumas delas. A Polícia Militar, por exemplo, havia registrado que eram dois criminosos e que, depois que um atirou em Joyce, ambos teriam fugido em um carro. "Agora já sabemos que era apenas um rapaz, entre 25 e 30 anos, e que ele chegou e foi embora a pé."

A versão de que o bandido teria chamado a professora pelo nome antes de atirar também já foi desmentida pela polícia. O que se sabe é que o assassino a aguardava na porta da escola. Grigio admitiu que Joyce foi ameaçada por um ex-aluno.

"Mas isso foi há muito tempo, não achamos que tenha relação", afirmou o delegado. Um retrato falado seria feito com base no depoimento das testemunhas e divulgado hoje.

Festas. No começo da tarde, dois garotos se aproximaram do estacionamento da escola e, com seus telefones celulares, fizeram fotos do sangue de Joyce que ainda marcava o chão. Não era mera curiosidade ou desrespeito. Jonatas Novaes Pereira, de 14 anos, foi aluno de Joyce por três anos. Ele já mudou de escola, mas voltava sempre para conversar com ela, bater papo. "Ela era excelente. A melhor. Na hora da bronca, ela dava a bronca, sim. Mas só quando era necessário", diz, emocionado.

Ao lado de Jonatas, Wesley Araújo, de 13 anos, que ainda era aluno de Joyce, apenas balançava a cabeça. "O melhor é que ela sempre tratava todo mundo igual."

Jonatas diz, então, que voltava para ver a antiga professora de Educação Física e natação e orientadora porque ela o entendia e motivava. Conta que os alunos organizavam festas de aniversário para ela. "A professora Joyce era tão querida que quando eu me formei, no ano passado, as classes brigaram para ver quem a homenagearia."

O ato de disciplina mais "duro" de que Jonatas e Wesley lembram era que Joyce não permitia bonés na sala de aula. "Ela vai ser minha professora eternamente. Mesmo se eu parar de estudar um dia, ela vai ser minha professora", disse Jonatas.

Aulas suspensas. Joyce lecionava na Escola Municipal Paulo Freire desde 2007, para alunos do 6.º ao 9.º ano. Em 2009, foi promovida a coordenadora pedagógica. Casada há 11 anos com Evandro, esperou dez para engravidar. Deu à luz um menino há cerca de sete meses.

"Ela era uma pessoa superafável", lembra Motta, primo do marido. As aulas na escola estão suspensas hoje. O enterro deve ocorrer pela manhã, em Itapecerica da Serra.

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