Professora é arrastada ao tentar salvar carro

É a segunda vítima deste ano das enchentes no M'Boi Mirim; só sobrou lixo e lama na rua

Diego Zanchetta e Cristiane Bomfim, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2010 | 00h00

As águas do Córrego Ponte Baixa, na zona sul da capital, subiram rápido. Em menos de duas horas, destruíram muros e invadiram casas. Arrastaram e mataram, na madrugada de ontem, a professora Michele Borges, de 28 anos. Ela é a segunda vítima das enchentes no local, na região de M"Boi Mirim, em menos de um ano. Em 23 de janeiro, a aposentada Beatriz Pires da Silva, de 69, afogou-se ao ter sua casa varrida pela chuva.

"Aqui sempre enche, mas a Prefeitura só aparece para limpar quando todos já perderam as coisas ou teve morte", lamenta a promotora de vendas Ivone Maria Ventura, de 27 anos. Ela perdeu tudo com a enchente.

A chuva começou por volta das 21h30. Ficou forte e antes da meia-noite já havia invadido a Rua Tomás do Vale, que margeia o córrego, e as Travessas Guilherme Valente, Lourenço Varela, Antônio Vaz, João da Veiga e Amaro Velho. Nos muros, a marca da água ultrapassa 1,60 metro.

A professora de Artes Michele viu pela janela do apartamento a água invadir o estacionamento do Condomínio Jardim das Américas. Desceu com pressa os seis andares do prédio, em que morava havia 20 anos com a mãe. Queria salvar o carro. "A mãe dela tentou impedir. Pediu para que ficasse e deixasse o carro porque a chuva estava forte. Mas não adiantou", conta a amiga Ilka Maria Ferreira, de 41 anos.

Enquanto tentava entrar no carro, um dos muros do condomínio cedeu, por causa da força das águas do córrego, que passa nos fundos. A água chegou com força e Michele não conseguiu se segurar. Foi levada pelas águas barrentas. "Um vizinho tentou ajudar, mas não conseguiu. O mais perto que ele chegou foi a 2 metros", diz a amiga.

Michele dava aulas para estudantes do ensino fundamental da rede estadual de ensino. Havia passado em um concurso para lecionar para o ensino médio. O carro tinha sido comprado este ano. "Hoje (ontem) era o último dia de aula. Faríamos uma festinha de confraternização na escola", lamenta Ilka que conheceu Michele na faculdade. "Era uma pessoa divertida e muito preocupada com a mãe e com o irmão. Fazia tudo por eles." O velório ocorreu na tarde de ontem no Cemitério de Santo Amaro, também na zona sul.

Fogo no que sobrou. Durante todo o dia de ontem, sobrava lama e lixo nas ruas e calçadas do M"Boi. Moradores atearam fogo ao que sobrou. "A Prefeitura não limpa (o córrego) e a população joga lixo. Todo ano é a mesma coisa e o nosso Natal acabou", disse a moradora Carla Alcântara Machado, de 30 anos.

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