Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Professor sobe em árvore para impedir poda

Enquanto alguns moradores defendem a área verde, outros dizem que praça atrai assaltantes

JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2012 | 03h05

O historiador e professor da USP Henrique Carneiro, de 52 anos, acordou ontem com o som de motosserras podando árvores da Praça Laerte Garcia da Rosa, perto da sua casa, no Jardim Rizzo, Butantã, zona oeste. Preocupado com os fícus, seringueiras e amoreiras, que, segundo ele, já haviam sido podados indiscriminadamente na sexta-feira, Carneiro saiu correndo, mas era tarde. Uma das árvores tinha perdido três partes do tronco e funcionários da empresa contratada para o serviço seguiam na direção de outra. Como seus argumentos pareciam não convencê-los, o professor subiu na árvore e se recusou a sair até desistirem de cortá-la.

"Alguns riram de mim, outros até concordaram. As árvores estavam saudáveis, não atrapalhavam a rede elétrica e a ordem era de poda generalizada. Esse tipo de ação é irreparável. Depois de cortadas, nada poderia ser feito", afirma. "A herança brasileira é de destruição do verde, a começar pela Mata Atlântica. Há uma cultura 'antiárvore', as pessoas parecem ter horror ao verde. O que houve aqui foi crime, atentado ao espaço verde e lúdico."

Segundo a Subprefeitura do Butantã, um pedido de poda foi feito ao Conselho de Segurança do bairro. A poda, no entanto, seria de uma única seringueira e não das 15 árvores podadas pelas motosserras. A justificativa seria garantir a segurança do local com mais luminosidade - argumento compartilhado por alguns moradores.

"Essa praça é uma escuridão só. Ficamos preocupados com assalto. Concordo com a poda", disse a aposentada Claudette Franco, de 66 anos, vizinha de Carneiro e da praça. "Precisamos de ar, verde, mas tudo que é exagerado deve ser questionado", afirmou a também aposentada Marlene Marcondes, de 77.

Para o artista plástico Ivan Pereira, de 72 anos, a segurança é uma preocupação, mas outra solução poderia ter sido encontrada. "Precisamos de iluminação, mas o que fizeram aqui não foi poda, foi estupidez. Tenho uma foto do meu filho brincando naquela árvore quando ainda era uma criança. Cortaram 30 anos de história."

A subprefeitura garante que, antes da execução dos serviços, agrônomos fazem vistoria e elaboram laudo técnico sobre a condição das árvores. Ainda segundo o órgão, podas são feitas quando as árvores apresentam más condições, estão prestes a cair ou interferem na fiação elétrica.

Durante todo o dia, Carneiro e sua mulher, Sílvia Miskulin, de 41anos, também historiadora e professora universitária, ficaram de prontidão para evitar a poda. Eles procuraram vizinhos para pedir apoio e enviaram denúncia ao Ministério Público. O professor diz que, caso a empresa volte, subirá de novo nas árvores contra o corte. Segundo a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, o serviço será feito ainda nesta semana.

Tudo o que sabemos sobre:
urbanismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.