Professor precisa aprender a ensinar

Programas de supervisão tentam complementar formação de profissionais que saem das universidades sem conhecimento prático

O Estado de S.Paulo

07 Junho 2015 | 02h07

Em 2011, Goiás ocupava a quinta posição no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que combina taxa de aprovação e média de desempenho em provas de Português e Matemática. Naquele ano, foi introduzido na rede estadual, em convênio com a Fundação Itaú Social, um programa de tutoria pedagógica, pelo qual um profissional experiente, com pós-graduação, aprovado em processo seletivo da Secretaria da Educação, supervisiona o trabalho de coordenadores e diretores. No ano passado, o ensino médio subiu para o primeiro lugar no Ideb, e o fundamental, para o terceiro.

Prevista no Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio, do Ministério da Educação (MEC), a tutoria tem sido introduzida também em São Paulo, Ceará e Pará, além de algumas redes municipais. Em Manaus, cerca de cem novos professores - de um total de 2 mil - que estão entrando na rede municipal neste ano também terão supervisores na sala de aula, durante seu estágio probatório, que dura três anos.

A tutoria pedagógica parte de uma constatação simples: os formandos de Pedagogia saem com algum conhecimento teórico sobre educação, e os dos cursos de licenciatura, sobre o conteúdo de suas disciplinas, mas não sabem ensinar. O mesmo acontece com gestores de escolas - professores que sobem na carreira e assumem cargos de diretores e coordenadores sem experiência nem treinamento.

Longe da escola. Quando se fala em reciclagem ou em capacitação de professores e gestores, no Brasil, pensa-se em cursos teóricos distantes da realidade da sala de aula. "Temos tradição muito grande de formação continuada em cursos fora da escola, em reuniões e oficinas, cursos online", diz Patrícia Guedes, gerente de Educação da Fundação Itaú Social. "O profissional pode até ganhar informação, mas há dificuldade de como desdobrar na prática."

Patrícia conta que, em pesquisa conduzida pelo Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, os professores disseram coisas do tipo: "Passo por um curso fantástico sobre como estimular leitura. Depois, volto para minhas turmas e tenho dificuldades para planejar minhas aulas. Quem me ajuda a me olhar, a me dar feedback sobre como estou fazendo, a lidar com dificuldades?" Segundo a especialista, isso vale também para o diretor da escola. "Se não tem ajuda para pôr em prática na escola, ele desiste."

"Professor é profissão, precisa de formação profissional", explica o físico Luís Carlos Menezes, consultor da Unesco e membro do Conselho Estadual de Educação (CEE) e do Conselho Técnico Científico da Capes/MEC para Educação Básica.

Outra analogia frequente é com a formação do médico, que coloca seus conhecimentos em prática, sob supervisão, nas residências dos hospitais, antes de obter a licença para trabalhar. Guiomar Namo de Mello, também integrante do CEE e consultora da Fundação Lemann, observa que esse tipo de residência, já adotado na Europa, está sendo introduzido também nos Estados Unidos.

Menezes propõe que, assim como os hospitais universitários, ligados aos cursos de Medicina, sejam credenciadas escolas de referência, onde os estudantes de Pedagogia e licenciatura ensinem sob supervisão de professores experientes e reconhecidos por sua capacidade. Tanto os supervisores quanto os estagiários seriam remunerados. "Os formadores transmitiriam sua experiência e seriam multiplicadores. Isso criaria uma carreira, premiando os melhores", diz o especialista. "Melhorariam seu salário sem ter necessariamente de se tornar gestores."

De acordo com Guiomar, o CEE está impondo que os estágios dos professores na rede estadual de São Paulo incluam a "regência", ou seja, eles devem dar aulas, em vez de ficar apenas assistindo. O MEC criou há dois anos o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), que concede 70 mil bolsas no valor de R$ 350 aos alunos de licenciatura.

Os especialistas elogiam a iniciativa, mas acham que a prática supervisionada deveria ser obrigatória. "No concurso público, tampouco há uma prova didática", critica Claudia Costin, diretora de Educação Global do Banco Mundial. "Para ser professor em universidade, tem prova didática. Para dar aula para criança, que é extremamente difícil, não tem. Fazem perguntas sobre teóricos e sobre a Lei de Diretrizes e Bases."

Resistência. "A Finlândia enfrentou esse problema há cerca de 50 anos", lembra Claudia. "Um dos componentes importantes da reforma foi dar um caráter mais profissionalizante à formação dos professores na universidade. Tiveram de enfrentar briga feia na universidade, que se sentiu desqualificada, e aumentar o rigor na seleção dos professores. Temia-se que não houvesse candidatos suficientes a professor para cada sala de aula. Ao contrário, a profissão passou a ser socialmente mais valorizada."

No Brasil também as universidades públicas resistem a mudanças na formação dos professores. "Para a universidade, dá trabalho e não dá camisa", explica Menezes, professor da Universidade de São Paulo (USP). "O que dá camisa é pesquisa e pós-graduação, é publicar em revistas referenciadas. Graduação pesa pouco e formação de professor é sub, subprioridade. O MEC precisaria pensar a universidade pública como espaço de formação de excelência de professor, mas ela não é avaliada por isso."

"As faculdades de formação inicial estão muito distantes da rede pública", diz Maria Helena Guimarães de Castro, diretora executiva da Fundação Seade e ex-secretária executiva do MEC. "Meu sonho de consumo é o sistema canadense. Em algumas províncias, é preciso ter ao menos cinco anos de experiência na rede pública para se candidatar a professor de universidade", afirma.

As faculdades particulares também não têm ligação com as escolas - e a maioria sofre de má qualidade. "Não existe mecanismo que impossibilite uma faculdade que está se saindo mal de formar professores", critica Rose Neubauer, ex-secretária da Educação de São Paulo. "O País se denomina 'Pátria educadora' e não tem um projeto decente realmente impactante de formação de professores. Não adianta deixar a criança na escola oito horas em vez de cinco, se não tem professor bem formado." / LOURIVAL SANT'ANNA, MARÍLIA ASSUNÇÃO e BRUNO TADEU, ESPECIAL PARA O ESTADO

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