Professor de paquera dá aula aos 'sem-jeito'

Ensinamentos vão de teorias clichês sobre a mente da mulher a simulações na prática

Filipe Vilicic, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 00h00

Prática. Madeira leva os alunos à balada e os orienta no xaveco: ‘Chega e fala que é de outra cidade e quer dicas daqui’

 

O professor de xaveco (ele prefere "personal paquera") Daniel Carvalhana Madeira diz atuar como um "porta-aviões". "Direciono meus alunos para as garotas, feito um general que libera caças", explica, com ar de "macho alfa", antes de mandar um deles falar com uma loira magérrima na casa noturna chique Cafe de la Musique. "Dou o xaveco que eles devem usar, as mentirinhas que podem contar."

Madeira é uma espécie de treinador de garanhões. Ensina, na prática (em bares, shoppings e até supermercados), a arte da sedução para homens que são um zero à esquerda com a mulherada. E promete transformá-los em Don Juans.

Já viu aquele filme Hitch (2005), com o ator Will Smith? Então, ele atua como o conquistador fictício. Não? Explico. O curso de xaveco começa com uma aula teórica de cinco horas. É, existem fórmulas para o approach. Depois, o "mestre" leva os aprendizes para uma balada, onde eles aplicam as técnicas em "missões" passadas pelo "general" - "conversar com uma feinha", "levar um papo de dez minutos com uma bonitona". No dia seguinte, a turma faz o mesmo em shoppings e mercados.

Aprendizes. O repórter do Estado acompanhou um curso de Madeira na última quinta-feira. Havia dois alunos na "luta".

Um, que chamaremos de Bochecha, tem 25 anos, é recepcionista de um hotel, estava de tênis, jeans, jaqueta colada que salientava a barriguinha e polo listrada. O outro, o Amigo Nerd, tem 31 anos, é engenheiro de uma grande empresa e tem pinta de playboy (ou, melhor, filhinho da mamãe): de polo Ralph Lauren, jeans, sapatênis, relógio grande e muito gel no cabelo.

Ambos, porém, fazem o tipo que Madeira define como "sedutor nível D": "nunca chegam em uma mulher"; "raramente vão para a cama com alguém". São tímidos, ficam nervosos quando uma bonitona passa na frente, gaguejam na hora de falar com alguém do sexo oposto.

"Sempre tive dificuldade com mulheres", confessa Nerd. Ele conta que é adepto de cantadas como "Você vem sempre aqui?" E fica arrasado quando toma um fora, o que "costuma ocorrer nas raras vezes em que chego em alguém." Ainda lembra, triste, que suas namoradas o dispensaram por ser "bonzinho demais".

Bê-a-bá. Madeira dispõe de dois auxiliares para sua aula. Um é o ex-aluno Marcus Vinicius Calado, de 32 anos, que fez o curso com 30 anos. "Nunca tinha namorado antes das aulas." O outro, na verdade, é outra: a namorada do mestre do xaveco, a consultora de imagem Patrícia Alves, de 24 anos.

Para começar, lições básicas - e clichês. "Elas gostam de homens poderosos, com dinheiro, altura e beleza." "As garotas procuram alguém que garanta sua sobrevivência e dê uma boa prole. Por isso, nas cavernas, os fortes prevaleciam. Agora, são os ricos", filosofa Madeira.

Aí, vêm as dicas de beleza. "Bochecha, você não deve usar camisas com listras, que destacam a barriga", comenta Patrícia. "Sabe, sou consultora de imagem e sei do que estou falando."

Por último, fazem um teatro. Os alunos têm de simular um xaveco na consultora. "Estou suando de nervoso", diz Bochecha.

Balada. Depois da teoria, é hora da prática. Por sugestão do repórter do Estado, o professor levou seus alunos ao Cafe de La Musique - point badalado.

A noite começa mal. Primeiro, Nerd aborda uma menina dizendo, a mando do mestre: "Estou perdido. Qual é o seu endereço?" O xaveco até pega, mas não dura. Logo, a morena (uma baiana uns 30 centímetros mais alta que ele) o dispensa.

Enquanto isso, Bochecha se dá bem. Ou quase. Engata um papo de uns 20 minutos com uma loira que ele diz que é "a mais linda que já viu". Orientado pelo general, lê a mão da menina, faz ela dar uma voltinha. E ganha um copo de champanhe. Volta alegre: "Ela me deu uma bebida." Mas não o beijo.

Quatro abordagens depois (uma virou a cara, ele roubou a bebida de outra), Nerd progride. O engenheiro aborda uma garota e, enfim, consegue um beijo. O porém: ela estava tão bêbada que chegou a falar "estou caindo e não entendo o que você diz".

Bochecha virou amigo de várias. Uma até apertou suas faces e comentou "é fofinho." Só que foram quase dez abordagens sem chegar nos "finalmentes". "Mas consegui um telefone."

Já Vinicius, o braço-direito, garantiu: "darei o exemplo". Ele "malhou o morto" (expressão que o professor adora) com quatro meninas. Tomou três foras. Mas conseguiu uma bitoquinha da última. Depois de uma hora no ouvido dela.

Ensinamentos

l"Chega na garota e pergunta: "Você trabalha com moda?" Explica que achou isso porque ela se veste muito bem e tal"

l"Finja que sabe ler mentes. Aí fala que vai provar e pede para ela pensar em um número até 5. Se acertar, inventa uma teoria. Se errar, uma desculpa"

l"Fala que é de outra cidade e pede dicas. Onde é legal ir para comer, por exemplo?"

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