Professor de inglês reclama que sua casa foi revirada

Ele também reclama do sumiço de dinheiro e vibradores; polícia diz que residência foi aberta após cães farejarem maconha

FELIPE WERNECK , ALFREDO JUNQUEIRA / RIO, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2011 | 03h04

Morador há dois anos do Morro do Vidigal, o professor de inglês DeJuan Williams, de 64 anos, envolveu-se ontem em uma ocorrência inusitada com policiais do Batalhão de Choque que ocupam a favela desde a madrugada de domingo. Ele voltou para casa pela primeira vez após o início da Operação Choque de Paz e encontrou a porta arrombada e tudo revirado.

Segundo Williams, levaram todos os seus equipamentos (laptop com placa 3G, tocador de mp3, máquina fotográfica e dois vibradores), além de uma mochila em que, afirma, estavam R$ 400 e US$ 300. Acompanhado do amigo brasileiro Bakari Santos, de 60, que vive na Califórnia e aluga para ele o apartamento no Vidigal, onde costuma ficar quando vem ao Rio, Williams relatou o problema ao capitão Érico Cardoso, que supervisionava a operação. O policial disse que naquele endereço havia ocorrido uma apreensão na véspera. "Nossos cães farejaram o local. Eles dão o alerta, mas não a quantidade. Fomos verificar. Encontramos seis baseados (cigarros de maconha). Como a casa ficaria aberta, recolhemos o material de valor e levamos para a delegacia", disse o capitão. "Dinheiro não foi visto nem vibradores."

Santos reclamou. "Se não tem ninguém, a polícia não pode entrar. Quebraram minha porta e ainda vou ter que responder pelos baseados. De vez em quando, dou um tapinha para relaxar. Na Califórnia é legalizado." O capitão disse que Santos será identificado como usuário.

Depois, Santos e Williams prestaram depoimento na delegacia. "O dinheiro é o X da questão. Como estava malocado no fundo da mochila, ainda pode estar lá, mas todo o material seguiu para perícia e ainda não foi liberado. Também declaramos os vibradores, que desapareceram."

O anúncio do sumiço provocou risadas entre policiais. Professor voluntário em uma escola do Vidigal, Williams contou que em dois anos nunca teve problemas no morro, antes dominado por traficantes.

Segundo o capitão do Choque, a receptividade dos moradores foi "excepcional". "O clima é excelente, ofereceram até café da manhã."

No banco. Moradora da área do Valão, na Rocinha, a dona de casa M., de 24, disse que depositou no banco o dinheiro que guardava em casa na véspera da ocupação. Ela temia que ocorresse na Rocinha o mesmo que houve no Complexo do Alemão, quando policiais invadiram e saquearam casas de moradores. "Tinha R$ 2 mil em casa de uma rescisão recente. Fui com uma amiga levar esse dinheiro para uma agência, pois fiquei com medo que a polícia roubasse." Segundo ela, uma vizinha também levou R$ 5 mil para o banco. O marido deixou o trabalho e o casal pretende usar o dinheiro para voltar ao Ceará.

Lixo. A prefeitura retomou os serviços de limpeza nas ruas das três favelas. Só ontem, cerca de 135 toneladas de lixo foram recolhidas, em uma operação com 157 homens. Amanhã, força-tarefa será formada para cuidar da limpeza urbana, que inclui uso de garis alpinistas para recolher o lixo da encosta dos morros.

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