Procurador que investigou caos aéreo diz que crise pode piorar

Para Fábio Fernandes, que investigou caso por um ano, a piora no setor atinge todos os níveis

Pedro Henrique França, da AE

01 de novembro de 2007 | 21h19

A tranqüilidade no setor aéreo era aparente e a crise só tende a piorar, segunda afirmou o procurador do Ministério Público do Trabalho de São Paulo (2ª Região), Fabio Fernandes, que ficou quase um ano investigando o caos aéreo, após o acidente da Gol, em setembro de 2006. Fernandes disse que a piora no setor atinge todos os níveis, desde as condições de trabalho dos profissionais aéreos até a própria segurança dos passageiros trafegam pelo espaço aéreo do País. De acordo com o procurador, muitos casos que comprovam falhas na comunicação ou deficiências estruturais não chegam ao conhecimento da sociedade. "Tenho depoimentos de controladores que me relatam situações de problemas técnicos e de comunicação em que, segundo eles, só contando com a ajuda de Deus", disse. Fernandes informou que, durante o período em que esteve na investigação, teve conhecimento de casos de divergências de comunicação entre radar e controlador. A prospecção de melhora para o setor ainda é praticamente inexistente, opinou ele. Mesmo com a renúncia do presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Milton Zuanazzi, com uma nova administração na pasta da Defesa, capitaneada pelo ministro Nelson Jobim, e com a diminuição recente de atrasos e cancelamentos nos aeroportos brasileiros, Fernandes ressaltou que a situação só tende a piorar. E destacou ainda que a crise pode voltar a ter novo capítulo já neste feriado em razão da operação-padrão adotada pelos aeroviários, que envolvem os controladores. Fernandes disse que a Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero) deslocou investimentos, que, para ele, deveriam ser prioritários em segurança, para as reformas estéticas, como o estacionamento do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, "e não investe na formação e no treinamento dos controladores". O procurador disse que para obter as informações necessárias durante o processo de investigação, começou inscrevendo-se em grupos eletrônicos de discussão dos controladores até adquirir confiança para coletar informações - tudo anonimamente. As dificuldades se prolongam no próprio setor, onde, segundo Fernandes, os controladores são coagidos a não relatar problemas. "Nos Estados Unidos e na Europa os controladores são incentivados a denunciar as falhas e problemas e há garantia de confidencialidade, com garantia de não-punição. Aqui, ocorre exatamente o contrário. Ou seja, não temos capacidade de aprender com nossos próprios erros", afirmou o procurador. Fernandes chegou a propor uma força-tarefa para ampliar a investigação, mas que não foi adiante. "Ela foi considerada desnecessária", afirmou. O procurador criticou ainda a militarização do setor e disse que muitos entraves se mantêm por essa situação. "A Aeronáutica confunde-se em seu discurso, misturando defesa aérea com tráfego aéreo, o que não condiz com a realidade", disse. "A Aeronáutica sequer assume que temos problemas", afirmou. Na visão do procurador, as mudanças promovidas até o momento pelo atual ministro da Defesa ainda não surtiram o devido efeito. Ele apontou o acionamento do Conselho Nacional de Aviação Civil (Conac), mas disse ter ficado decepcionado com o resultado que projetara. "Fiquei esperançoso quando vi as reuniões do Conac, pois pensei que fossem convidar representantes civis, o que não ocorreu", afirmou. Entre as razões que culminaram neste cenário. o procurador mencionou, como uma das principais, os "interesses econômicos (por parte das companhias) e políticos (na esfera do poder)" e atribuiu grande parte do arrastamento da crise aérea a esse "conflito de interesses". Questionado sobre a CPI do Apagão Aéreo do Senado, Fernandes criticou o não enfrentamento dos reais problemas do setor e disse que a disputa entre a base aliada do governo e a oposição está equivocada.

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