Epitacio Pessoa/AE
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Procura por cuidador de idoso dobra na capital

Aumento reflete envelhecimento; terceira idade passou de 9% para 12% da população

Márcio Pinho, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2011 | 00h00

Janaína Araújo tem 30 anos e costumava ser babá até os 28, quando recebeu um convite para cuidar da aposentada Maria Cecília de Mello, moradora de 88 anos de Higienópolis, e não deixou mais a profissão de cuidadora de idosos. Ela é uma das representantes dessa categoria que desponta nas agências de emprego paulistanas, influenciada pelo envelhecimento da população.

Na capital há 1,3 milhão de idosos, o que significa 11,8% do total de 11,2 milhões de habitantes, de acordo com o Censo do IBGE de 2010. É mais do que o verificado no levantamento de 2000, quando as pessoas com mais de 60 anos representavam 9,3% dos habitantes.

No Parque Buenos Aires, no coração de Higienópolis, um dos bairros com mais idosos da cidade, os mais velhos são acompanhados de cuidadores de todo tipo: ex-babás, ex-domésticas, simples acompanhantes, empregadas incumbidas de medicar e levar o idoso para passear e profissionais de enfermagem, que assistem os mais doentes.

Segundo a agência de empregos Veritas, do Brooklin Novo, que tem como uma das especialidades profissionais domésticos, foram 84 pedidos por cuidadores em 2010, mais do que o dobro de 2008 - 40 pedidos.

A empresa Home Angels, especializada em oferecer cuidadores de idosos, abriu 22 franquias na cidade de São Paulo desde 2009. Neste ano já fez 210 contratos com famílias que buscam cuidadores, enquanto no ano passado inteiro foram 30.

No Alto do Ipiranga, a agência Dona do Lar recebeu 25 pedidos em 2010, ante 12 de 2009. Segundo a proprietária, Vanessa Aguiar, o fenômeno está diretamente ligado ao envelhecimento da população e ao fato de as famílias preferirem um cuidador a um asilo.

A procura, porém, ainda é menor do que a por domésticas e babás, profissionais cada vez mais escassas para as necessidades da capital.

A cuidadora Janaína Araújo tira da própria experiência as explicações para o crescimento dessa profissão. "Nem todo mundo aguenta cuidar de criança. Tem umas que correm, caem."

Ela ainda comemora a relação de parceria que se cria com o idoso, no caso a aposentada Maria Cecília, que retribui o carinho. "Ela é como da família e nos damos bem. Vamos todos os dias ao parque, fazemos ginástica, passeamos", diz Maria Cecília, que já atuou como atriz.

Ganhos. Outro atrativo é o salário. Segundo o Sindidoméstica, enquanto uma doméstica que não dorme no emprego ganha em média de R$ 700 a R$ 800, o cuidador recebe entre R$ 1 mil e R$ 1,2 mil. Perde só para as babás que dormem no trabalho, que ganham de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil.

Apesar do salário mais alto, Marciana Castro Rodrigues, de 28 anos, também decidiu deixar a profissão de babá e virar cuidadora. A migrante cearense justifica a opção afirmando que assim teve a oportunidade de trabalhar registrada e ganhar cerca de R$ 1,3 mil. A formalidade, contudo, não é uma regra no setor.

Marciana diz ter prazer com a rotina do trabalho e admite que a cuidadora muitas vezes é uma doméstica que acaba ganhando mais uma função. A pior dificuldade para ela, porém, é o momento da morte de idosos. "Você passa o dia com ele durante meses, anos, e fica apegada", afirma.

Outra adversidade é o fato de a profissão ainda não existir no papel. Um projeto tramita na Câmara para criá-la oficialmente. A organização da categoria é escassa. A reportagem encontrou apenas uma sociedade profissional, a Associação de Cuidadores de Idosos de Minas Gerais.

Políticas. Há, porém, algumas políticas públicas que dão os primeiros passos para colocar a função no mapa. A principal é do Ministério da Saúde, que lançou em 2009 cursos em todo o País para a formação. Depois disso, cerca de 6 mil profissionais já se formaram em 36 escolas. Cursos particulares também pipocam nos Estados, e os diplomas já são usados como diferencial no mercado pelos cuidadores.

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