'Procissão do crack' migra para a Nova Luz

Aglomerações continuam, dois meses após início de operação do Estado e da Prefeitura

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

05 Março 2012 | 03h01

Um garoto de cerca de 14 anos empurra um carrinho de supermercado, com uma mulher que aparenta ser sua mãe desacordada dentro dele. No meio da rua, na esquina da Conselheiro Nébias com a General Osório, no centro de São Paulo, um homem sem camisa com um cachimbo de crack na mão beija o capô de um carro que não é dele e fala sozinho. Ao seu lado, outro jovem observa se viaturas da Polícia Militar se aproximam, exercendo a função de olheiro para pequenos traficantes locais.

São 22 horas de sábado e entre 150 e 200 pessoas se aglomeram para fumar e vender crack no meio da rua, em um ritual que se repete há mais de 20 anos. Agora, os consumidores vagam entre os quarteirões das Ruas Santa Ifigênia, Guaianases, Timbiras, Vitória, Conselheiro Nébias, Gusmões, General Osório, do Triunfo e Avenida Duque de Caxias. Conforme se aproximam viaturas da Polícia Militar ou seguranças privados com cassetetes, pagos pelos comerciantes da região, eles mudam de lugar e se aglomeram em outro ponto.

Dois meses depois de iniciada a Operação Centro Legal na cracolândia, o consumo e a venda de crack resistem na região, apesar da presença ostensiva da PM e da grande quantidade de prisões. As aglomerações e "procissões do crack", agora, migraram para o coração do futuro projeto Nova Luz, a poucos metros da região da Rua Helvétia, Alameda Dino Bueno e Barão de Piracicaba, onde os consumidores ficavam quando Estado e Prefeitura deflagraram a operação - e que agora está sem viciados.

Os últimos números divulgados nos balanços da Prefeitura e do governo do Estado, em 1.º de março, mostram um volume impressionante de intervenções. Foram presas 377 pessoas só na região - 293 eram acusadas de tráfico. As outras são condenados recapturados pelos homens das Polícias Militar, Civil e Guarda Civil Metropolitana.

Na área da Saúde, segundo os dados do governo do Estado, a atuação também foi intensa. Foram 299 internações. Isso significa que, em dois meses, foram retiradas das redondezas 676 pessoas. Quando a Operação Centro Legal começou, a PM afirmava que existiam cerca de 400 pessoas na região, o que demonstra como as próprias autoridades desconheciam a dimensão do problema com o qual lidavam.

Abordagens. Na noite de sábado, nas quatro horas em que a reportagem acompanhou a movimentação nas ruas da cracolândia, a cena que se viu foi a mesma de meses e anos anteriores. PMs até que tentavam abordar os usuários. O Estado acompanhou duas abordagens. Em uma delas, com quatro viaturas - uma da Força Tática -, cerca de 20 pessoas foram enquadradas na Rua Guaianases.

Cachimbos de crack eram recolhidos e os nomes das pessoas abordadas eram repassados para a Central de Operações da PM, para saber se eram ou não procurados pela Justiça.

A poucos metros dali, seis crianças jogavam futebol na rua, como se lidassem com uma cena corriqueira. Um usuário sai reclamando: "Eles invadem a nossa casa e roubam o nosso cachimbo", em relação aos PMs. Em seguida, abordagem semelhante ocorreu na Rua Apa, dessa vez com cerca de 30 usuários. A reportagem, que acompanhava o trabalho da PM, também acabou tendo de colocar a mão na parede para ser revistada.

Em dois meses, foram 23 mil abordagens da PM, o que significa perto de 400 por dia. Mas os usuários não se intimidam e preferem se arriscar para viver o cotidiano intenso da cracolândia.

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