''Problema passa de pai para filho. Para quebrar padrão, só tratando''

Segundo psicóloga, cada vez que alguém sobe o vidro na cara de uma criança, aumenta seu sentimento de exclusão

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2010 | 00h00

A pesquisa da Unifesp mostra que o problema já começa dentro de casa: de 79 mães analisadas, 40 (50%) apresentam problemas emocionais. "O problema fica na genealogia da família, passa de pai para filho. Para quebrar o padrão, só tratando e acompanhando", disse a psicóloga Dirce Melbach, do Instituto Rukha, parceiro do estudo.

Por três gerações, isso aconteceu com uma família do Grajaú, na zona sul da capital. Foram 15 anos de trabalho em cruzamentos da região do Parque do Ibirapuera, que vieram acompanhados de problemas emocionais.

Começou com Rosana da Silva, em 1995. Depois de quase uma década nos semáforos com a filha Sandra, então com 9 anos, Rosana teve depressão e surtos de agressividade. Ela toma remédios, procurou psicólogos, mas nunca concluiu tratamento. Hoje aos 27 anos, Sandra, por sua vez, também tem problemas. Após passar a infância vendendo balas na rua, virou "ressabiada e agressiva". "A gente vê coisas que não esquece."

A trajetória termina com a filha Micaela, de 9 anos, sete vividos nas ruas. Dois anos depois de abandonar essa rotina, Micaela é descrita como uma criança "assustada". "Vive se escondendo", afirma Sandra.

"Quando alguém sobe o vidro em sua cara, a criança se sente excluída, sente que ninguém a enxerga. Dá a ela a impressão que não faz parte desse mundo", explica a psicóloga Dirce.

DUAS PERGUNTAS PARA...

Floriano Pesaro

VEREADOR E EX-SECRETÁRIO, PROPÔS LEI CONTRA O TRABALHO INFANTIL

1. O problema das crianças que trabalham na rua pode ser resolvido com lei?

A lei é o amadurecimento de um processo.

2. Por que nunca houve ações integradas?

A Saúde sempre teve as próprias prioridades. E sempre foram o pronto-socorro e o pronto atendimento. Já o tratamento químico e de saúde mental sempre ficaram de lado. Mas, nos últimos anos, está havendo uma reversão disso, inclusive na atenção à criança. Com a nova lei, usamos essa tendência a favor da erradicação do trabalho infantil em SP.

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