Felipe Rau/Estadão
Região da Cracolândia, no centro de São Paulo, em julho de 2021 Felipe Rau/Estadão

Prisão de influencer da Cracolândia expõe novo 'carrossel’ da droga na região

Investigação identificou nova dinâmica do tráfico no centro de São Paulo. Feira de entorpecentes ocorre em movimento contínuo e chega a movimentar R$ 200 milhões por ano. Lorraine Cutier Bauer Romeiro, de 19 anos, era parte dessa engrenagem

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 15h00
Atualizado 29 de julho de 2021 | 16h52

SÃO PAULO - Investigação da Polícia Civil identificou uma nova dinâmica de venda de drogas na Cracolândia. Com o território dominado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e faturamento do tráfico estimado em mais de R$ 200 milhões por ano, a feira de entorpecentes a céu aberto passou a se manter em movimento contínuo, girando entre a Estação Julio Prestes e a Rua Helvétia, em uma espécie de “carrossel do crack”.

As cerca de 30 tendas itinerantes são uma resposta do crime organizado à tentativa da Prefeitura de ocupar o território a partir da realização de ao menos três faxinas por dia. As adaptações do tráfico são alvo de inquérito do 77.º Distrito Policial (Santa Cecília) que em seis meses resultou em duas fases da Operação Caronte e na prisão de 15 pessoas. Entre elas, está Lorraine Cutier Bauer Romeiro, de 19 anos, que tinha milhares de seguidores em redes sociais.

Segundo a investigação, as barracas (ou “lojas”) passaram a ser agrupadas em três blocos separados, que se deslocam em grupo à medida que a varrição avança.  “Para as ações de limpeza ocorrerem, há no ‘fluxo’ um indivíduo nominado ‘salveiro’, que dá o ‘salve’ e assim começa uma desmontagem da estrutura do tráfico”, aponta relatório de inteligência da polícia, obtido pelo Estadão. “O ‘fluxo’ sai da Praça do Cachimbo, entra na Rua Helvétia e se fixa nesta.”

Por remeter a um trem em movimento, a nova estrutura foi nomeada pelos investigadores de “vagão”. “Cada um dos vagões reunia de dez a 15 mesas para os traficantes”, descreve o delegado Roberto Monteiro, titular da Seccional Centro.

Barraqueiros lucram até R$ 6 mil por dia, diz polícia

Apesar de a dinâmica do “carrossel do crack” ser nova, o modelo de negócios é muito parecido com o que se via na Cracolândia antes da megaoperação policial de 2017. As tendas são arrendadas pelo PCC que cobra, em média, R$ 1 mil por semana aos traficantes “franqueados”. Pelo esquema, os barraqueiros ficam obrigados a comprar a droga da facção e, em troca, são protegidos no território.

A polícia estima que o lucro diário de cada barraca varie entre R$ 5 mil e R$ 6 mil – valor que é dividido entre os “arrendatários”. Normalmente, são três por tenda. Com um casal, que foi preso tentando fugir durante a operação, os agentes chegaram a encontrar R$ 67,7 mil em espécie.

A rentabilidade do negócio atrai criminosos de diferentes regiões. Boa parte dos barraqueiros detidos vivia, na verdade, em cidades da Grande São Paulo, como Barueri, Carapicuíba e Itapecerica da Serra.

Moradora de uma casa comum em Barueri, Lorraine aparece nos relatórios de inteligência da polícia com o codinome de Lo Bauer e é acusada de atuar em uma das barracas. Em imagens colhidas pela investigação, ela foi flagrada em meio à feira de drogas, usando jaqueta, capuz e máscara preta. Na mesa à sua frente, havia calhamaços de dinheiro.

Os barraqueiros mais abastados são chamados de “VIPs” e pagam quantias maiores por regalias, como descansar durante o dia ou pernoitar em quartos de hotéis e invasões nas proximidades do fluxo. Esses imóveis são usados ainda para armazenar armas de fogo e entorpecentes, segundo a polícia destaca nos relatórios. Nesta quinta-feira, 29, a Prefeitura interditou um desses hotéis da região. 

"A investigação constatou que o Hotel Avaré destina-se, primordialmente, ao recebimento em suas dependências de traficantes que buscam esconderijo e descanso, assim como de usuários de drogas, que querem permanecer fora do fluxo e protegidos pelas paredes do decadente prédio, que se encontra em situação física precária, sem nenhuma condição de funcionamento como estabelecimento hoteleiro", disse a Prefeitura.

Também aconteceriam reuniões e “Tribunais do crime” nesses locais. “Muitos  prédios já foram lacrados pela Prefeitura de São Paulo, porém foram novamente invadidos e seguem sendo utilizados para finalidades criminosas, inclusive para prostituição, com a exploração de menores”, afirma um dos documentos.

Na hora do transporte de barracas, os usuários de drogas ficam responsáveis por fazer o desmonte e a remontagem das estruturas em outro lugar. São os chamados “travessias”. Eles que também vão buscar mais entorpecentes nos imóveis para abastecer as tendas ao longo do dia. De acordo com a investigação, a estratégia é adotada para que os dependentes sirvam de escudo, evitando que traficantes acabem incriminados.

Em paralelo ao tráfico, o PCC mantém no local uma feira de produtos furtados – com venda ilícita de celular, bicicleta, roupa, fio de cobre e até documentos para ser usados em golpes. “Essa feira estrategicamente situada serve como blindagem a qualquer intervenção dos órgãos de segurança no local, dando tempo de fuga e causando distúrbio quando há possível ameaça ao ‘fluxo’”, diz um relatório.

‘Uber da droga’ é alternativa para abastecer Cracolândia

Na quarta-feira, 28, policiais civis do 77.º DP cumpriram mandado contra o motorista de aplicativo Augusto de Oliveira Brasil Neto. A prisão mais recente pode ajudar a polícia a desvendar o atual esquema do PCC para abastecer a Cracolândia e movimentar o dinheiro do tráfico.

Segundo investigadores, Brasil Neto é suspeito de participar de esquema para transportar drogas para o território. Além da entrada contínua de pequenas porções (modalidade conhecida como “formiguinha”), a polícia acredita que parte dos produtos é  entregue por motoristas – chamados de “Uber” pelos traficantes.

Outra função do grupo seria recolher a quantia arrecadada com as tendas, normalmente em espécie,  mais fácil de ser apreendido pela polícia, e fazer a distribuição entre lideranças da facção. Há suspeita de que a movimentação tenha passado a ser realizada por PIX, através de contas frias. Nesse esquema, o motorista ficaria com um porcentual do valor total.

A Operação Caronte ainda é considerada em andamento e deve se desdobrar em novas fases nas próximas semanas. “Todos os lojistas, seguranças e travessias fazem parte da estrutura do crime organizado que está lá há 30 anos”, diz o delegado Severino Pereira de Vasconcelos, titular do 77.º DP. “Com as operações, nós temos conseguido desidratar o tráfico de drogas.”

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Influenciadora da Cracolândia atuava em barraca de venda de drogas

Policiais suspeitam que Lo Bauer tenha se associado ao PCC e começado a atuar na Cracolândia entre seis meses e um ano atrás. Ela teve prisão preventiva decretada pela Justiça na sexta-feira passada

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 15h00

Nas redes sociais, Lorraine Cutier Bauer Romeiro, de 19 anos, aparentava uma vida confortável. Antes de ser presa duas vezes por tráfico de drogas em menos de um mês, a jovem branca e loira era seguida por 36 mil pessoas no Instagram e postava fotos em locais paradisíacos, com praias ou cachoeiras ao fundo. Quase sempre aparecia em poses sensuais e trajes mínimos. Hoje, os seus seguidores saltaram para 58,8 mil.

Para a investigação da Operação Caronte, Lo Bauer (alcunha que consta em relatório de inteligência da Polícia Civil) era responsável por atuar em uma das cerca de 30 barracas que alimentam a feira de drogas a céu aberto na Cracolândia, no centro de São Paulo. As tendas são arrendadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que controla o território, cobra aluguel e fatura ao menos R$ 200 milhões por ano. Na hierarquia do tráfico, um barraqueiro está acima de dependentes químicos e frequentadores do fluxo, mas abaixo de lideranças da facção. 

Órfã do pai e mãe de uma bebê que tem menos de 10 meses, a investigada morava até então com a filha, a mãe e o irmão em uma casa comum de Barueri, na Grande São Paulo. Após ter a prisão preventiva decretada pela Justiça na sexta-feira passada, 23, ela está na carceragem do 89º Distrito Policial (Portal do Morumbi).

Policiais suspeitam que Lo Bauer tenha se associado à facção e começado a atuar na Cracolândia entre seis meses e um ano atrás. “Não era rica, mas também não precisava. Foi uma forma que ela encontrou para conseguir ostentar e pagar passeios de barco em Angra (RJ)”, diz Luiz Carlos Zaparoli, chefe de Investigações da Seccional do Centro.

Segundo policiais, o envolvimento com o tráfico teria começado a partir do relacionamento com André Luis Santos Almeida, o MC Tatu China, o primeiro líder da tenda. Na Cracolândia, o casal ainda tinha um ajudante. Com a prisão do namorado no mês passado, Lo Bauer teria assumido a gerência do ponto, mas o seu comando na barraca durou apenas 22 dias.

Diante da repercussão do caso, o irmão da investigada chegou a publicar vídeo responsabilizando Lo Bauer. “Infelizmente ela se envolveu com pessoas erradas. Sempre teve vida boa, uma família boa, que apoiou e deu conselhos. Mas ela se envolveu com pessoas erradas nesses últimos tempos e acabou tomando escolhas erradas”, afirmou. “Agora ela vai pagar pelo que fez. A gente, a família dela de maneira alguma vai passar a mão na cabeça.”

A família já havia enfrentado a primeira tragédia em 2014. O empresário Ricardo Bauer Romeiro, o pai dela, foi baleado e morreu em uma tentativa de assalto em Barueri, de acordo com a polícia. “Sem dúvida, é um drama familiar”, afirma o delegado Severino Pereira de Vasconcelos, titular do 77.º Distrito Policial (Santa Cecília), responsável por liderar as investigações contra o tráfico na Cracolândia.

Apesar de Romeiro aparecer em dois registros policiais, os investigadores descartam que o pai de Lo Bauer tivesse um perfil perigoso ou envolvimento com crime. Segundo afirmam, os antecedentes seriam de lesão corporal, por causa de um acidente de trânsito, e posse de droga. 

O advogado criminalista José Almir foi contratado pelos parentes para defender Lo Bauer. Procurado, ele afirmou que só iria encontrar a investigada nesta quinta-feira, 28, motivo pelo qual não poderia se posicionar sobre o caso.

‘Em liberdade, já demonstrou que continuará a delinquir’

Por volta das 13h30 do dia 30 de junho, equipes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) se preparam para mais uma rodada de faxina na Cracolândia. Nessa hora, dependentes químicos, chamados de “travessias”, são usados pelos traficantes para desmontar as barracas, recolher mesas e arrastá-las até uma rua próxima para que a feira de drogas continue. Daquela vez, no entanto, os GCMs formaram uma espécie de cordão de isolamento para revistar os frequentadores do fluxo.

Uma patrulha da Polícia Militar notou uma moça loira, de blusa vermelha e calça jeans, que tentou evitar a revista dos guardas e começou a se movimentar no sentido contrário. Esse seria o primeiro flagrante de Lo Bauer.

Os agentes relatam que, após acelerar o passo e mudar de direção bruscamente, ela foi abordada na Rua Helvétia, já depois da Praça Princesa Isabel, e levada para a base da PM no local. Na revista, uma policial encontrou 9,9 gramas de maconha, 9 de cocaína e 15 pedras de crack, escondidos no sutiã e na calcinha dela. No bolso, a detida trazia um aparelho celular avaliado em mais de R$ 6 mil.

Na audiência de custódia, Lo Bauer negou ser traficante, alegou que era usuária e afirmou que ainda estava amamentando a filha, então com oito meses. Na ocasião, o Tribunal de Justiça (TJ-SP) converteu o flagrante em prisão domiciliar: “Só podendo a investigada deixar o local comprovado nos autos como sendo sua residência para consultas médicas, exames e procedimentos relativos a tratamento de saúde próprio e da filha”.

A segunda prisão aconteceria no mês seguinte, no dia 22, já no âmbito da Operação Caronte. No relatório de inteligência, a Polícia Civil chegou a incluir print do Instagram de Lo Bauer. Em um story capturado pelos agentes, ela publica uma imagem de palhaço, símbolo associado ao PCC. Em outro, há desenhos de carpas e do yang-yin, também simbolicamente ligados à ascensão em facções criminosas. “Duas carpas vivem em nossos corações, o amor e o ódio. Sobrevive aquele que for mais alimentado”, dizia a mensagem.

Em vez da própria residência, Lo Bauer foi encontrada às 7 horas na casa do namorado, também em Barueri. Autuado por descumprimento de prisão domiciliar, ela teria admitido envolvimento no tráfico e apontado que sua droga estaria em uma mochila, guardada em um prédio invadido na Rua Helvétia.

No local, a polícia relata ter encontrado 295 porções de cocaína, 97 de lança-perfume,  85 de maconha, 16 de ecstasy e oito de crack. Também foram apreendidos R$ 750 em dinheiro, uma balança de precisão, um machado, uma faca e um celular. Já na delegacia, ela ficou em silêncio. “Ela demonstrou que é capaz de controlar as emoções”, descreve o delegado Vasconcelos.

Em nova audiência, o TJ-SP decretou a prisão preventiva. Na decisão, a juíza Celina Maria Macedo Stern ponderou que Lo Bauer não tem emprego comprovado e estava com quantidade e diversidade de droga que indica “finalidade de mercância”.

Ao mandá-la para a carceragem, a magistrada também escreveu: “A conversão do flagrante em prisão preventiva se faz necessária a fim de se evitar a reiteração delitiva, eis que em liberdade e, até mesmo, em prisão domiciliar, frise-se, (Lo Bauer) já demonstrou concretamente que continuará a delinquir”.

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Prefeitura dobra efetivo da GCM e diz não admitir barraca de venda de crack

O prefeito Ricardo Nunes declarou que espera nos próximos meses ter uma “situação diferente” no local; 'Uma coisa importante é separar a Cracolândia e o traficante. O traficante é inimigo da Prefeitura', disse

Marianna Gualter, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 15h00

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), disse nesta quarta-feira, 28, que dobrou o efetivo da Guarda Civil Metropolitana (GCM) na região da Cracolândia, no centro. Nunes disse que barracas de venda de crack não serão admitidas e destacou a operação da Polícia Civil na região. 

“Chamei minha equipe, mostrei para as pessoas (as filmagens da polícia) e colocamos aqui uma determinação: não vai ter na cidade de São Paulo barraca de crack. Houve mais de 10 prisões nos últimos dias”, destacou Nunes em entrevista à Rádio Eldorado. “Barraca de venda de crack, isso não tem mais e não vai ter. A cidade de São Paulo não vai admitir e não vai ter. Você pode ir lá hoje, pode ir amanhã”, completou. 

O prefeito disse que a gestão tem feito um ação de acompanhamento “muito forte” na área da Cracolândia. “Eu dobrei o número do efetivo da Guarda Civil metropolitana na cracolândia. Era 80, hoje nós temos 160. Dobramos o número de viaturas. Hoje temos 32 viaturas constantes lá e colocamos mais 12 motos fazendo o trabalho ali no foco do traficante.”

Nunes declarou que espera nos próximos meses ter uma “situação diferente” no local. “Uma coisa importante é separar a Cracolândia e o traficante. O traficante é inimigo da Prefeitura”, disse. “Já houve uma melhora. No começo do ano, mais de 860 pessoas viviam ali. Já na nossa última contagem, ontem, eram 420. O número quase caiu pela metade”, afirmou.

No que diz respeito aos usuários, o prefeito declarou que o objetivo da gestão municipal é encaminhá-los ao Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica (SIAT). Segundo Nunes, além dos programas atuais de redução de danos, a Prefeitura pretende iniciar em breve iniciativas de comunidades terapêuticas. “O usuário é vítima, nós temos que acolher.  Tudo aquilo que eu puder fazer para tirar as pessoas dessa situação, eu irei fazer. Estamos muito focados nisso, vamos ampliar nosso atendimento, estamos mais próximos das pessoas com nossa secretaria de direitos humanos”, disse.

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