TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

‘Principal preocupação do cidadão não é prefeito ser de esquerda ou de direita’, diz Bruno Covas

Ele quer marca para disputar reeleição em 2020; sem margem para grandes investimentos, aposta é em ações locais

Entrevista com

Bruno Covas, prefeito de São Paulo

Bruno Ribeiro e Paloma Cotes, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - O prefeito Bruno Covas (PSDB) se vê com dois anos para deixar uma marca própria e disputar a reeleição, em 2020. Após a reforma do secretariado que afastou os últimos indicados de seu antecessor, João Doria (PSDB), ele ainda enfrenta uma demanda que não esperava: restaurar pontes e viadutos, após um desabamento na Marginal do Pinheiros, em novembro, e uma interdição na Marginal do Tietê nesta semana. A missão deve sugar recursos, que poderiam viabilizar outros grande projetos.

Por isso, a aposta tem sido em ações locais, de bairro em bairro, além de falar diretamente com a população pelas redes sociais. A expectativa é de que o ato de “prefeitar”, como diz ele próprio, garanta sua permanência no Edifício Matarazzo. “O cidadão não está preocupado se o prefeito é de direita ou esquerda.” Covas recebeu o Estado por ocasião do aniversário da cidade hoje. Leia trechos da entrevista: 

A Prefeitura não tem ainda um custo estimado para as reformas nos viadutos. Haverá dinheiro?

Até agora, a questão orçamentária não está restringindo (ações). A gente tem recurso, contingenciamos R$ 6 bilhões, 10% do orçamento, então, a gente tem recurso. E tenho certeza de que o governador Doria ou presidente Jair Bolsonaro não vão negar ajuda se for o caso. Mas a questão agora é muito mais a contratação e a realização dos laudos (técnicos sobre as condições dos viadutos) do que a questão financeira.

 

Esse contingenciamento inclui obras em andamento?

Inclui praticamente todas as obras que, este ano, precisavam de novo empenho. Tudo é contingenciado para a gente analisar, caso a caso, o que a gente vai liberar e o que deve ser parado.

E o que deve ser parado?

Parada, nenhuma (obra). Todas estão dentro de contratos com recurso já garantido. Eventualmente, você tem uma segunda fase de alguma obra que não vai começar, dependendo do contingenciamento.

 

O senhor citou o presidente Bolsonaro. Qual é sua expectativa em relação ao governo federal? 

A expectativa é de ter a mesma relação que eu tinha com governo (Michel) Temer. Não sou do partido do Temer (o MDB), não o apoiei. E ainda assim a gente teve uma relação institucional. O que temos com governo Bolsonaro é exatamente isso: uma relação institucional da principal cidade do País com governo federal. É uma relação necessária. E que as pessoas esperam que não seja contaminada com a relação político-partidária.

Há alguma demanda com ele?

Tem duas questões nevrálgicas: o (aeroporto) Campo de Marte (cuja desativação é pleiteada pela Prefeitura há vários mandatos) e a Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, cuja transferência de local também é negociada pelo Município). O destino dessas duas áreas depende muito de uma discussão que envolve governo federal, governo estadual e o governo Municipal.

 

Doria buscou secretários no governo Temer. O senhor fez escolhas mais variadas, incluindo nomes como Alê Youssef (novo secretário municipal de Cultura). Como avalia as escolhas do governador?

Tanto ele quanto eu fomos buscar nomes de gente com capacidade, com seriedade. Não adianta ser do partido A, ter feito parte do governo não sei o quê. São pessoas comprometidas com programa de governo. Você pega o Alê Youssef: se tiver qualquer coisa para levantar do ponto de vista da competência, da interlocução com setor artístico, eu discuto. Agora, discutir porque ele foi filiado ao PT, a Soninha (Francine) também foi e era secretário do Doria (da pasta de Assistência Social). O Daniel Annenberg (secretário de Inovação e Tecnologia, que já foi do PT) também. Wilson Poit participou do governo do PT e do Doria (foi titular da pasta de Desestatizações nesta gestão e também integrou a equipe do petista Fernando Haddad).

 

Sua reforma trouxe nomes para compor sua marca. Qual é ela? 

(Os nomes novos) são da minha confiança. A gente tem um governo com um plano de metas. Claro que a gente deve ter metas, que agora vão ser rediscutidas com a Câmara, é natural. Mas a preocupação principal do cidadão – muito mais do que se o prefeito é de esquerda ou de direita – é se o prefeito ‘prefeita’. A população está preocupada se a visão de mundo que o prefeito tem é mais para liberalismo ou mais para socialismo? Ela está preocupada com o seguinte: tem remédio no posto de saúde? Vai diminuir a fila em creche? Vão diminuir os buracos na rua?

Mas ‘prefeitar’ tem entraves. Por exemplo: a licitação de ônibus (atrasada há cinco anos e suspensa pela Justiça esta semana) e da varrição (que também teve problemas judiciais) não saem. Como resolver isso?

Se fosse fácil... (risos). Quando você tem ação na Justiça, não é algo que está na nossa mão. O que está (na nossa mão) é fazer a defesa, buscar cassar a liminar. Em um sistema (de ônibus) que custa R$ 8 bilhões por ano, é claro que você tem inúmeros interesses econômicos por trás. Da mesma forma, a varrição, o lixo. Você tem de saber que tem interesses com os quais você tem de estar preparado para jogar juridicamente. Tenho certeza de que nossa equipe jurídica está preparada para derrubar mais essa liminar. Não foi a primeira e talvez não seja a última.

 

E o carnaval? O chamamento público para contratar a organização dos blocos não teve interessados. A festa corre risco?

Neste ano, resolvemos alterar (a licitação) nos moldes que o Ministério Público entendia que deveria ser feito. E aí a licitação deu deserta. Estamos agora adaptando, verificando se dividiremos em vários lotes, de que forma conseguiremos resolver isso dentro desse mês que temos até o início do carnaval. E, se for o caso, vamos utilizar recurso público.

 

Mas como não apareceu nenhum interessado num carnaval como esse, que está crescendo?

Olha, o prefeito não chama aqui as empresas e combina quem participa e quem não participa. O que a gente sabe é que, com o tamanho que tem o carnaval da cidade de São Paulo, certamente deve ter muito patrocinador querendo aparecer. Se tinha no ano passado, tem nesse ano. Se foi a forma que foi licitado, não sei. É uma suspeita.

 

Antes do carnaval, há uma greve de servidores marcada para fevereiro contra a  reforma da previdência municipal (aprovada em dezembro, a mudança prevê aumento da alíquota paga pelos servidores). O que a cidade deve esperar?

Primeiro, reconhecer aqui o direito legítimo à greve. Agora, se o pleito é revogar a reforma da Previdência, essa greve vai durar meses, porque nós não vamos revogar. A reforma da Previdência é uma conquista da cidade de São Paulo. O que a gente está fazendo é se preparando para, se for o caso, tomar medidas judiciais, para cortar o ponto de quem faltar, se for o caso ter de repor com novas contratações, e a disposição para o diálogo. Em nenhum momento,  a gente se negou a escutar posições distintas e a debater. Não vamos nos negar a fazer isso agora. Mas não vamos propor a revogação da reforma.

 

A Câmara lista a revisão do Plano Diretor, a anistia imobiliária e o novo projeto urbanístico de Jurubatuba como as prioridades do ano. Há outras?

Tem inúmeros. Até o projeto que permite à Prefeitura solicitar aos prestadores de serviço que possam reservar parte das vagas para mulheres vítimas de violência. Desses, o Jurubatuba é uma questão importantíssima. A gente resolveu colocar a discussão na frente da discussão da privatização de Interlagos. Porque primeiro a gente quer estabelecer qual é a regra do jogo. O que pode ser construído e o que não pode. E depois a gente avança na privatização. Até porque há uma discussão: privatiza? Concessiona? Precisa ser público? Pode ser privado?  O projeto da revisão e da anistia são essenciais. Em especial, o da anistia. São Paulo é a cidade da ilegalidade. Essa quantidade imensa que temos de estabelecimentos comerciais, residências, que não conseguem o alvará, que acabam abrindo facilidades que você sabe muito bem (quais) com o fiscal, é algo inaceitável.

 

Há agora notícia de avanço no projeto do aeroporto de Parelheiros...

O que aconteceu foi que o empreendedor solicitou à Prefeitura que emitisse (documento dizendo) quais as regras de ocupação daquele espaço e quais documentos o empreendedor deveria apresentar para fazer o licenciamento. E a Prefeitura se negava . O empreendedor entrou com uma ação e conseguiu uma decisão judicial. Então, a Prefeitura foi obrigada a dizer o que ele deve ter que fazer para poder licenciar. Então, ele ainda precisa entrar com o processo de licenciamento. E essa certidão só saiu por decisão judicial. Não foi nenhuma decisão política, de escolha, nenhuma questão discricionária.

 

Mas o que o senhor acha do projeto?

Não é a vocação de Parelheiros ter uma aeroporto.

 

O senhor falou em ‘prefeitar’. Há um novo jeito de governar agora, pelas redes sociais. Aparece, responde, tem vídeos. É um novo estilo?

A democracia não é um ato que se exaure a cada dois anos, quando você vota. Ela exige participação e envolvimento. E a mídia social tem permitido essa aproximação entre representante e representado. Hoje, você não tem mais intermediários, o que eu acho muito  positivo. Que quanto mais próximo das pessoas, você descobre que o programa que achava que está sendo bem executado tem problemas lá na ponta. Isso só favorece a população como um todo.  E o político não aparece só de quatro em quatro anos. Está nas redes.

E as pessoas perguntam se o senhor será candidato?

(Risos). Perguntam tudo o que você pode imaginar.

Mas o senhor será candidato?

Acho que (a candidatura) é consequência. Dizer que não quero ser prefeito, não quero ser governador, não quero ser presidente, seria leviano. Agora, o que vai acontecer em 2020 é consequência do que vai acontecer em 2019.  O importante é chegar no ano que vem tendo coisa para mostrar. E aí a gente discute o que fazer.

 

E 2022? Ontem o presidente Bolsonaro apontou Doria como candidato à presidência em 2022.

(Interrompendo a pergunta) É o meu candidato.

 

Nesta sexta-feira, 25, é aniversário da cidade. O que espera de presente para São Paulo?

A história de São Paulo é a história de migrantes e imigrantes que para cá vieram em busca de oportunidade. É a terra das oportunidades. As pessoas vêm para cá e acabam se apaixonando. O principal que buscamos é melhorar a qualidade de vida das pessoas. São Paulo já tem muita coisa a ofertar, mas precisamos cada vez mais reduzir o tempo no trânsito, melhorar a qualidade no ar, reduzir o prazo para fazer exame, a fila da creche. Qualidade de vida. Esse é o principal eixo que precisamos trabalhar.

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