Primos de Bruno vão fazer acareação

Polícia quer esclarecer divergências entre os dois depoimentos que mais ajudaram na elucidação do desaparecimento de Eliza Samudio

Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2010 | 00h00

BELO HORIZONTE

A Polícia Civil mineira quer fazer uma acareação entre os primos de Bruno Fernandes, o adolescente J. e Sérgio Rosa Sales, para esclarecer divergências nas versões apresentadas pelos dois em depoimentos sobre o desaparecimento de Eliza Samudio, de 25 anos, ex-amante do goleiro.

Um pedido de transferência de J. para Belo Horizonte deverá ser feito ao juiz Marcius Ferreira, da Vara da Infância e da Juventude do Rio. O adolescente, cujo testemunho deflagrou a prisão de Bruno e sete suspeitos, foi apreendido, semana passada, na casa do goleiro, na Barra da Tijuca. Ele chegou a ser transferido para a capital mineira, mas retornou ao Rio e está internado no Instituto Padre Severino. Caso a transferência não seja autorizada, policiais de Minas deverão seguir para o Rio com Sérgio, onde poderá ser feita a acareação.

Entre as informações conflitantes nos depoimentos está a participação de Bruno no crime. J. isenta o goleiro de envolvimento com o suposto sequestro, tortura e morte de Eliza. Já o depoimento de Sérgio indica que Bruno participou do crime. Sérgio diz que questionou o goleiro sobre as implicações do homicídio.

Os delegados pretendem colher o depoimento de Bruno e outros principais suspeitos, como o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, apontado como o autor do assassinato e ocultação do cadáver, e Luiz Henrique Romão, o Macarrão.

Perícias. A expectativa é que durante a semana sejam também divulgados dados periciais importantes para a investigação. O Instituto de Criminalística (IC) da Polícia Civil procura evidências do crime analisando a movimentação da Range Rover de Bruno, por meio de dados já requisitados do GPS do veículo.

A análise do GPS indica que caminhonete de Bruno circulou por Esmeraldas, Betim, Ribeirão das Neves e Contagem, cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, no dia 9 de junho, data em que a polícia acredita que Eliza tenha sido morta.

O instituto também deverá finalizar a perícia no Citroën de Bola, onde foram encontrados vestígios de sangue, e em um Eco Sport que teria sido usado para levar o grupo ao local do assassinato. Em busca de provas, o IC analisa ainda o conteúdo do laptop utilizado por Eliza. Ontem, o "Fantástico" mostrou trechos de conversas de Eliza com amigos pela internet em que ela fala sobre as negociações com Bruno a respeito da paternidade do filho que teria tido com o goleiro.

"Programado". Bola foi identificado no ano passado pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas como um homem "programado para matar" e cujos serviços costumavam ser requisitados por policiais. Segundo o presidente da Comissão, deputado Durval Ângelo (PT), embora tenha sido excluído da corporação em maio de 1992, Bola se apresentava como policial civil e mantinha "tentáculos" entre os ex-colegas até ser preso na quinta-feira.

Nesta semana, a comissão vai cobrar formalmente agilidade da Corregedoria-Geral de Polícia Civil nas investigações que apuram a denúncia sobre a atuação de uma suposta organização de extermínio no Grupo de Resposta Especiais (GRE). O então inspetor do GRE, Júlio Monteiro, denunciou o esquema à Corregedoria em maio de 2009.

O sítio no bairro Coquerais, em Esmeraldas, onde na semana passada foram feitas buscas pelo corpo da ex-amante do goleiro Bruno, era alugado por Bola e serviu de treinamento para a equipe de elite da Polícia Civil mineira.

"Infelizmente o inquérito caminha a passos de tartaruga", disse Ângelo. "Parece estar se comprovando o que dizíamos na época, que o Bola era um cara programado para matar." Por causa das denúncias, Ângelo recebeu ameaças e três pessoas precisaram ser incluídas no Serviço de Proteção a Testemunhas.

Dois jovens e um motorista de táxi são apontados como vítimas do suposto grupo de extermínio. Segundo a denúncia, a organização utilizava um método de assassinato e ocultação de cadáver semelhante ao que foi descrito por J. em relação a Eliza.

Rodrigo Braga, advogado do ex-policial, diz que seu cliente nega qualquer envolvimento com o desaparecimento de Eliza ou com o suposto grupo de extermínio do GRE.

Próximos passos

Mais depoimentos

A polícia pretende colher o depoimento de Bruno e outros seis suspeitos, entre eles Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, Luiz Henrique Romão, o Macarrão, e de Dayanne Souza, mulher do goleiro.

Versões

A polícia vai pedir a transferência de J. para Belo Horizonte para a acareação com Sérgio Rosa Sales.

Provas

Durante a semana devem ser divulgados dados das perícias em veículos dos suspeitos e no notebook de Eliza.

Defesa

O advogado Ércio Quaresma Firpe vai entrar hoje com pedido de habeas corpus em favor de Bruno e outros cinco suspeitos

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