Primeiros acordes de uma orquestra

Nove expectadores acompanharam, na terça-feira, ensaio inicial no Teatro São Pedro, que teve trechos da abertura de 'O Guarani'

, O Estado de S.Paulo

06 Junho 2010 | 00h00

Escolha. A recém-formada Orquestra do Teatro São Pedro reúne 54 músicos profissionais, selecionados entre cerca de 660 inscritos em um ‘concurso rigorosamente anônimo’  

 

Terça-feira, dia 1.º. No palco, 54 músicos e um maestro. Na plateia, nove pessoas - incluindo a equipe do Estado. A julgar pelos números, trata-se de um imenso fracasso. Não, não é. A resposta está nos detalhes. É de manhã, enquanto a maioria dos concertos ocorre à noite. Os músicos não trajam pomposos fraques - estão todos à paisana, muitos de jeans e camiseta. E o maestro - este se lembrou de usar uma gravata - interrompe trecho a trecho a abertura da ópera O Guarani, de Carlos Gomes (1836-1896).

Mas dizíamos que a resposta está nos detalhes. E mesmo com tantos ruídos - o sono da manhã, as roupas informais dos músicos, as interrupções constantes - dá para perceber que a irrisória plateia se emociona com a música. Porque ali, com os olhos e principalmente com os ouvidos, presenciávamos o nascimento de uma orquestra - em seu primeiro ensaio.

Gênese. Com vocação para ópera, a Orquestra do Teatro São Pedro virou projeto em setembro de 2009. "Na época, estávamos rediscutindo o papel do São Pedro como espaço para óperas", conta André Sturm, coordenador da Unidade de Fomento e Difusão Cultural da Secretaria de Estado da Cultura. "Não é apenas mais uma orquestra de São Paulo", diz o secretário da Cultura, Andrea Matarazzo. "É a única focada em ópera, permanentemente preparada para atuar em sincronia à ópera."

Então foram traçados os próximos passos - ainda sem nenhum acorde, nenhuma canção. O que era ideia ganhou formatação burocrática, com planejamento de quantas pessoas seriam necessárias, quais as etapas seguintes e todo o etc da papelada. "Só aí definimos, junto com a APAA (Associação Paulista dos Amigos da Arte, organização social que administra o teatro e, por consequência, a orquestra) a contratação de dois maestros", recapitula Sturm. Em dezembro, portanto, entraram para o time Roberto Duarte - premiado e com experiência em países como Itália, Suíça e Grécia - e Emiliano Patarra.

Seleção. Ainda em dezembro, os envolvidos definiram o cronograma da temporada de 2010 com número de espetáculos e tempo de ensaios. Em janeiro, firmaram os critérios da seleção dos músicos - todos profissionais, com salários de R$ 3,4 mil a R$ 5,3 mil. "Desde o princípio determinamos que seria um concurso anônimo, deixando claro que os concorrentes estavam em igualdade", ressalta Patarra. "É a maneira de o músico ser respeitado: rigor, atenção e cuidado."

As inscrições ocorreram de 15 de março a 15 de abril. Na primeira fase, cada candidato teve de submeter ao júri de oito especialistas um CD com uma peça musical determinada pelo regulamento. O disco só poderia conter o número de controle, justamente para não permitir a identificação do concorrente. "Desclassificamos previamente cerca de 50, porque permitiam a identificação", diz Patarra.

E então foram três semanas ouvindo os 613 CDs dos aspirantes a um lugar na orquestra. A partir de 6 de maio, os 180 músicos finalistas tiveram 15 minutos cada para executar seus instrumentos no Teatro São Pedro. Uma cortina no palco impossibilitava que os especialistas da banca vissem o candidato. Uma semana depois, saiu a lista dos 54 aprovados.

Ensaio. Voltamos à última terça-feira. O maestro Duarte tem uma semana para entrosar os músicos que acabam de se conhecer. Na próxima quarta, a orquestra estreia. E suas interrupções, cheias de didáticas onomatopeias - "pá pá, tip tap" - também traz conselhos - "tem uma pausa que não está escrita, mas a gente faz"; "cuidado com a respiração" - e motivação. "O máximo que pode acontecer é errar. E todos vamos errar uma hora. Mas o melhor lugar para errar é no ensaio, e não no espetáculo", sentencia.

Aos 68 anos, o maestro tem a empolgação de um garoto ao falar da missão de conduzir o recém-formado grupo. E é voltado aos 54 músicos que ele finaliza: "Formamos uma massa. Se o concerto sair bom, todos seremos premiados. Se sair ruim, todos perderemos." A partir de quarta, haverá plateia para aplaudir.

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