Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Primeiro dia da reabertura do comércio de rua na cidade de São Paulo tem movimento intenso

Lojas apresentam filas na entrada por causa da limitação da capacidade de atendimento a 20% do público e medição de temperatura dos clientes

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2020 | 14h15

Após mais de dois meses fechado para evitar a propagação do novo coronavírus, o comércio de rua na cidade de São Paulo voltou a ter o funcionamento liberado nesta quarta-feira, 10, com movimento intenso nos principais centros de comércio popular. As lojas cumpriram as medidas preventivas, como o uso de máscaras para clientes e colaboradores, medição de temperatura e o fornecimento de álcool na gel na porta. Por outro lado, houve filas e aglomerações na entrada dos estabelecimentos.

As regras acordadas entre a prefeitura e entidades do setor de varejo que viabilizaram a reabertura do comércio mudaram a dinâmica de atendimento das lojas. Um dos pontos foi a limitação da capacidade das lojas a 20% do público. A intenção era evitar aglomeração interna. Outra exigência foi a medição de temperatura dos clientes na entrada da loja, por meio de termômetro digital, e fornecimento de álcool gel. A maioria dos estabelecimentos cumpriu as determinações. Por outro lado, longas filas se formaram na entrada de algumas lojas. Era mais demorado entrar do que fazer a compra.

Esse foi o cenário da rua 25 de março, um dos principais centros de comércio popular da cidade. A loja Armarinhos Ambar, por exemplo, destacou um funcionário para controlar a entrada de clientes. Só cinco por vez. Com a demora para as compras, com a escolha do produto e pagamento no caixa, as filas se estenderam do lado de fora. Apesar da orientação dos funcionários, as pessoas ficavam próximas umas das outras.

A dona de casa Maria Aparecida Tomazzi, de 64 anos, passou 20 minutos na fila e apenas cinco para comprar lãs para produzir agasalhos para doação. “Meu estoque de lã acabou, mas vim correndo, de carro, tomando todos os cuidados”, diz a moradora da Vila Maria, zona norte de São Paulo. “Existem mais pessoas na fila, na entrada da loja, do que dentro do estabelecimento. Mas é melhor abrir assim do que não abrir”, opina Guilherme Ambar, dono da loja, que registrou perdas de apenas 30% nas vendas durante a quarentena por causa do estímulo às vendas on-line.

Na loja Armarinhos Fernando, as filas foram ainda maiores e dobraram os quarteirões da rua Afonso Kherlakian. Ali, o controle de entrada foi feito por meio de fichas. Cada cliente recebia a sua, que tinha de ser devolvida na saída. Eram 500 ao todo. Uma delas estava com a auxiliar de escritório Bianca Ribeiro, que foi comprar material de escritório para a empresa de brindes onde trabalha na avenida Tiradentes, também na região central. Como eles não fizeram home office, o estoque acabou durante a quarentena. “Nesse primeiro dia, houve uma procura por quase tudo, de brinquedos a perfumaria”, diz Ondamar Ferreira, gerente da loja há 17 anos. “É como se estivéssemos abrindo a loja de novo”, diz.

As pequenas lojas também registraram bom movimento. A gerente Alexsandra Liana da Silva, da loja de cosméticos A&C, celebrou um início melhor do que havia projetado. Para limitar o acesso, ela bloqueou parte da entrada e também deslocou uma atendente para controlar quem entra e quem sai do espaço reduzido da loja. 

Muita gente decidiu encarar esse entra e sai das lojas logo no primeiro dia de reabertura atrás de promoções. A decoradora Mariana Diniz, moradora de Jandira, na Grande São Paulo, queria objetos para a festa junina que não encontrou pela internet. Mas não foi possível encontrá-las facilmente. Uma das recomendações da prefeitura foi o adiamento de queimas de estoque para evitar aglomerações. As promoções estavam escondidas, só no contato com o vendedor. 

O protocolo prevê que nesta fase inicial, classificada como laranja, as lojas respeitem o limite de funcionamento máximo de quatro horas por dia e se comprometeram a abrir das 11h às 15h. O horário não poderia coincidir com os horários de pico do trânsito (das 7h às 10h e das 17h às 19h). Na região do Brás, isso ficou na teoria. Muitas lojas abriram antes do prazo, como na rua Valtier, por exemplo. Horas antes da reabertura das lojas já havia filas e aglomerações. Outros lojistas tentaram disfarçar e abriram apenas meia porta. Comerciantes ambulantes, que também foram incluídas no protocolo de reabertura do comércio da rua, vendiam roupas nas calçadas e no meio das vias. Máscaras? Quase sempre na orelha ou no queixo. 

O protocolo firmado entre as lojas e o governo municipal prevê doze grupos de medidas na retomada: distanciamento social, higiene, sanitização de ambientes, orientação de clientes, orientação aos colaboradores, compromisso para testagem de colaboradores, compromisso para testagem de clientes, horários alternativos, redução de expediente, atendimento agendado, fiscalização do setor e apoio para para colaboradores afetados pelo fechamento de creches e escolas.

Para controlar o distanciamento dentro das lojas, foi preciso improviso e criatividade. Em várias lojas, foram comuns a marcação no chão com fita adesiva, nem sempre na distância padronizada, para delimitar a distância. Em um estabelecimento da 25 de março, uma barra de isolamento mantinha a distância de um metro entre o cliente e o balcão de atendimento. O vendedor informa que ainda não tinha sido possível instalar a barreira de proteção acrílica, como recomenda o protocolo da prefeitura. É praticamente um atendimento à distância, o cliente aqui e o atendente lá, atrás da barra e do balcão, mas, pelo menos, estão mantendo o distanciamento.

Embora destaquem a necessidade de retomada dos negócios, muitos lojistas se preocupam com a reabertura no momento em que o número de mortes pelo coronavírus no estado de São Paulo bateu recorde pelo segundo dia seguido nesta quarta-feira com 340 mortes registradas em 24h. É o caso da gerente de loja de fantasias Maria de Assumpção Bezerra, que trabalha há 30 anos na ladeira Porto Geral. “Quatro horas é um tempo pequeno para uma loja. Por outro lado, é um tempo enorme para todos ficarem expostos, mesmo com todos os cuidados”, diz a gestora de 59 anos.

Veja como foi o primeiro dia de reabertura do comércio na capital

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