PRF fiscaliza ônibus, examina celular e interroga passageira sobre participação em protestos

Veronica Linder, de 27 anos, diz ter tido fotos e vídeos examinados no trajeto São Paulo-Rio domingo; polícia nega orientação para rastrear manifestantes

Breno Pires e Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

17 Junho 2013 | 16h42

SÃO PAULO - Uma jovem de 27 anos afirmou que foi revistada por uma equipe da Polícia Rodoviária Federal dentro de um ônibus durante viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro no início da noite desse domingo, 16. Veronica Linder, que é jornalista, disse que policiais examinaram fotos e vídeos em seu celular e perguntaram se ela tinha participado de alguma manifestação nos últimos dias. "O meu direito à privacidade foi violado", afirmou a jovem em entrevista ao Estado.

O primeiro relato de Veronica sobre o assunto foi publicado na noite de domingo no Facebook e obteve 11 mil compartilhamentos até as 15h desta segunda-feira, 17. A denúncia acontece em meio a uma onda de protestos no Brasil. Houve confronto entre manifestantes e policiais em São Paulo, na última quinta-feira, 13, durante o quarto protesto organizado pelo Movimento Passe Livre, e no Rio de Janeiro, no domingo, 16, nos arredores do Maracanã, durante protesto contra a realização da Copa das Confederações e da Copa de 2014.

"A sensação é estranha, de insegurança total, de não-liberdade. Perguntaram se eu estive em alguma manifestação e eu falei que não. A policial olhou todas as minhas fotos e meus vídeos, olhou últimas chamadas e devolveu o telefone. Você fica acuado. Está sendo obrigado a mostrar algumas coisas. Mas é meu, você não pode olhar sem justificativa", disse Veronica Linder ao Estado, afirmando que não foi apresentado motivo para a revista.

Relato de Veronica Linder repercutiu nas redes sociais (Foto: Reprodução/Facebook)

Segundo ela, os passageiros tiveram de ficar 40 minutos fora do ônibus e, ao retornarem, encontraram as bolsas reviradas. Ela disse que outro rapaz também teve seu celular verificado e que nove policiais participaram da ação, quatro dentro e cinco fora do ônibus. "Eles não disseram por que estavam fazendo isso e ninguém se identificou. Estavam de farda, mas com um colete que encobria a identificação", disse Veronica.

A jovem disse à reportagem que publicará um vídeo resumindo o ocorrido. "Eu vi, entre os muitos compartilhamentos, que algumas pessoas não acreditavam no que estava acontecendo. Acho que é a maneira mais simples de todo mundo saber que não é mentira, saber que aconteceu", disse.

PRF nega. De acordo com o Núcleo de Comunicação da Polícia Rodoviária Federal do Rio de Janeiro, as vistorias nas viagens de ônibus interestaduais não têm objetivo de rastrear participantes de protestos, mas receberam reforço, desde 8 de junho, nos Estados que sediam a Copa das Confederações.

"Não tem nada a ver com as recentes manifestações. Os cinturões nas divisas foram organizados por causa do evento esportivo", afirma o policial rodoviário José Hélio Macedo, do Núcleo de Comunicação da PRF fluminense.

Ele explica que o questionamento sobre a participação em protestos faz parte da técnica de entrevista habitual dos policiais. "Ir a manifestações não caracteriza crime. Se perguntamos sobre imagens, mensagens de SMS ou materiais, é para detectar contradições no depoimento. Nosso interesse é descobrir traficantes de drogas, por exemplo".

Macedo ainda disse que a jovem tinha o direito de não entregar o telefone e que todos os policiais rodoviários federais são obrigados a deixar a identificação à mostra. "Se o nome estiver tampado pelo colete, a pessoa deve perguntar", afirma. Segundo a PRF, no Rio de Janeiro, já foram vistoriados mais de 5 mil veículos e 23 pessoas foram presas.

De acordo com o Núcleo de Comunicação da Polícia Rodoviária Federal do Rio de Janeiro, houve reforço de fiscalização no Distrito Federal e nos cinco Estados que sediam a Copa das Confederações.

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