'Pressão pelo fim do luto dos jovens é maior'

Em uma tragédia em que boa parte dos enlutados é jovem, é preciso cuidado para não apressar o fim do sofrimento nem recorrer à medicação sem critérios, afirma Carmen Maria Bueno Neme, professora de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisadora do luto. Em entrevista ao Estado, ela fala sobre o luto dos que sobreviveram à tragédia de Santa Maria.

Entrevista com

OCIMARA BALMANT, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2013 | 02h03

O luto do jovem é diferente?

Mortes inesperadas já favorecem um luto complicado. Quando é de jovens, favorece a aparição de transtornos sérios em quem ficou. Também é delicado pela forma como eles enxergam a morte. Todos sabemos que vamos morrer. O jovem também, mas apenas racionalmente. A morte para ele é algo distante. Tanto que ele se coloca em situações de risco, como se fosse indestrutível.

O luto se torna mais intenso?

Sim. É um misto dos sentimentos de dor e saudade com sensações próprias da idade, como a obrigação que o jovem se impõe de ser mais cuidadoso, e chega até a questão da culpa e do remorso, muito comum em quem perde um irmão.

Quanto tempo o luto demora?

Na média, dois anos. Em um primeiro momento, há incredulidade, raiva, revolta, tristeza profunda. A pessoa não dorme, não come, se isola. Depois, aos poucos, vai aceitando a realidade, embora com dor e choro. Só depois ela se sente capaz de se desfazer das coisas do ente querido e retomar a vida.

O jovem se sente pressionado a encurtar esse período?

Quando quem sofre é jovem, a pressão para que ele se restabeleça é ainda maior. As pessoas não cansam de lembrá-lo que a vida continua. E, até para homenagear quem morreu, esse jovem tem uma reação compensatória, de fugir da dor e se obrigar a aproveitar tudo o tempo todo. Isso é perigoso. O luto precisa ser vivido.

Esconder a dor é prejudicial?

Uma sociedade com menos paciência e espaço para o sofrimento transforma tristeza em depressão e, ao patologizar a dor, medica sem necessidade. O remédio não pode aliviar o luto necessário. Só em último caso, quando há transtornos prévios ou risco de suicídio.

E a questão da mudança de ambiente? É indicado aos estudantes mais fragilizados que mudem de campus, por exemplo?

Não. A tragédia coletiva é contraditória. Se, de um lado, a dor é intensa, de outro, o apoio mútuo ajuda na elaboração do luto. Não é só um que perdeu, foram muitos. E isso fortalece os vínculos.

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