Pressão de policiais derruba corregedora

Responsável por investigações que apontaram envolvimento de cerca de 200 policiais, ela foi acusada de não punir 4 delegados que despiram escrivã

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

O secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, decidiu afastar ontem a delegada Maria Inês Trefiglio Valente da direção da Corregedoria da Polícia Civil. A pressão de sindicatos foi a gota d"água para a saída da delegada.

Eles preparavam para hoje um protesto na frente da sede da Corregedoria, no centro de São Paulo. As entidades e os policiais alegavam que ela não tinha mais condição de permanecer no cargo, depois que subordinados despiram uma escrivã para apreender os R$ 200 que supostamente ela teria recebido de propina.

Integrantes do Conselho da Polícia Civil temiam que o ato se tornasse uma manifestação violenta. Um diretor da Polícia Civil convocou os subordinados para uma operação hoje cedo, para esvaziar o protesto. Doze entidades de classe da polícia planejavam a manifestação. O delegado-geral, Marcos Carneiro Lima, tentou demover os sindicatos, enquanto procurava uma saída para a crise. Maria Inês recebeu anteontem dois telefonemas de pessoas da cúpula da Segurança sugerindo que ela se demitisse. A delegada disse que não pediria para sair. No começo da tarde de ontem, ela foi chamada ao gabinete do secretário. Conversaram sobre a crise aberta pela denúncia contra a Corregedoria. Logo em seguida, o secretário anunciou que havia decidido "transferir a delegada" da corregedoria para a Delegacia Geral Adjunta da Polícia Civil. Para seu cargo, o secretário resolveu pôr, interinamente, o delegado Délio Marcos Montresor, atual diretor da Divisão de Processos Administrativos da Corregedoria.

Montresor mantém uma boa relação com o delegado-geral e é professor da Academia da Polícia Civil. Seu perfil é administrativo - ele nunca dirigiu um departamento operacional importante da corregedoria. "Foi uma decisão do secretário. Estou deixando a Corregedoria", disse ontem Maria Inês.

O caso que iniciou a crise que levou à sua queda havia ocorrido em 2009, mas só agora o vídeo da revista da ex-escrivã, gravado pelos corregedores, foi divulgado. A então escrivã acabou demitida em 2010. Ela ainda responde ao processo criminal e se diz vítima de abuso.

Integrantes da cúpula viam por trás da divulgação do vídeo a ação de policiais corruptos interessados em desestabilizar a Corregedoria. Mas afirmavam que o órgão devia ser dirigido por alguém com legitimidade para punir. No caso de Maria Inês, eles consideravam que a diretora não havia punido administrativamente os policiais da revista - o inquérito criminal foi arquivado pela promotoria. Com a saída de Maria Inês, a expectativa é de que a manifestação dos policias se esvazie, pois não haveria mais motivos para o ato.

Corruptos. Maria Inês assumiu o cargo em 2009. No tempo em que ocupou o cargo, a Corregedoria concluiu investigações sobre achaques contra traficantes colombianos e fraudes no Departamento Estadual de Trânsito (Detran). As investigações apontaram o envolvimento de cerca de 200 policiais em crimes como extorsão, sequestro, formação de quadrilha, fraude em licitação e contratos. Antes de ela assumir, denúncias de corrupção envolviam até mesmo policiais corregedores. Agora a delegada deve tirar férias e, depois, ocupar uma divisão administrativa.

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