Presos fazem famílias reféns por 26h em SE

Todos os 476 detentos de presídio de segurança máxima se rebelaram, mas só conseguiram que maus-tratos sejam apurados

ANGELA LACERDA / RECIFE, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2012 | 03h04

Foram 26 horas de tensão. O desfecho, negociado, envolveu a liberação de 131 pessoas feitas reféns e a entrega de armas retiradas do presídio de segurança máxima Complexo Penitenciário Advogado Antonio Jacinto Filho (Compajaf), em Aracaju (SE), durante a rebelião que teve início às 14 horas de anteontem e terminou só às 16 horas de ontem. Ninguém ficou ferido.

Todos os 476 presos participaram da rebelião, deflagrada durante a visita de familiares. Os presidiários fizeram reféns três agentes penitenciários e 128 parentes - incluindo crianças. Eles denunciaram maus-tratos que teriam sofrido, como espancamentos, reclamaram da revista a que são submetidos os familiares - que afirmam ser vexatória e constrangedora - e da demora nos processos e audiências do Poder Judiciário. Queriam a mudança da direção do presídio, assim como da empresa que fornece alimentação e faz a limpeza do local.

Pouco depois de deflagrada a rebelião, foi cortado o fornecimento de energia e de água e em seguida tiveram início as negociações. Ontem pela manhã, já com a energia regularizada, os rebelados liberaram um agente penitenciário e 27 parentes, em troca de garrafas de água mineral.

Algumas horas depois, já somavam 49 as pessoas que puderam deixar o presídio. No início da tarde, eles entregaram duas escopetas calibre 12, duas pistolas Taser (de choque elétrico), 25 munições e dois carregadores de pistola que haviam sido retirados de uma sala de armamentos do presídio.

O secretário estadual de Segurança Pública, João Eloy, integrante do núcleo de negociação, garantiu que as denúncias de maus-tratos serão apuradas. Ele vai encaminhar outras reivindicações pertinentes ao Poder Judiciário, a exemplo de mais agilidade nos processos judiciais. Os pedidos de mudança da direção e da empresa que presta serviços ao presídio não foram atendidos. Para o coronel da PM Nílson Aragão, que participou das negociações, a maior dificuldade é que não havia lideranças preestabelecidas entre os presos para negociar.

Foi a primeira rebelião ocorrida neste presídio, inaugurado em 2009. Um balanço preliminar da vistoria realizada depois da rebelião indicou muita destruição - da cozinha às celas e banheiros. Dois cães de guarda do presídio foram mortos. Antes de deixar o local, todos os reféns passaram por triagem, para evitar que algum preso se infiltrasse entre eles para fugir.

PCC. Entre faixas e lençóis expostos na laje do presídio pelos rebelados, alguns traziam escrito Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). A Assessoria de Comunicação da Secretaria de Segurança chegou até a dizer que o PCC liderava a rebelião, mas, posteriormente, não foi confirmada a participação de nenhum líder da facção no motim. Cinco dos supostos líderes foram transferidos para unidades prisionais de Sergipe.

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