Presos brasileiros que matavam para a máfia japonesa

Dupla que fugiu para o País atuou em crime que chocou o Japão; em um processo raro, ambos foram presos e serão julgados em SP

FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2011 | 03h02

A Polícia Federal prendeu dois homens acusados de assassinato em Tóquio, a mando da Yakuza, a temida máfia japonesa. Eles estavam foragidos havia dez anos. Foram capturados terça-feira por agentes que atuam na Interpol (Polícia Internacional).

Cristiano Ito, o Javali, de 35 anos, foi localizado em Mogi das Cruzes; Marcelo Cristian Gomes Fukuda, de 31, em Campinas. Uma tatuagem azulada, marca da Yakuza, segundo a PF, cobre a nuca e parte da cabeça de um dos suspeitos, Javali.

O crime a eles atribuído aconteceu às 2h10 de 4 de junho de 2001. A acusação diz que eles mataram a tiros de pistola o comerciante Yoshitaka Kawakami e tentaram eliminar a mulher dele, Naomi Kawakami, asfixiada e espancada na cabeça com a coronha de uma arma.

As vítimas dormiam no andar térreo de sua residência quando os assassinos entraram. O assassinato chocou o Japão pela violência dos matadores.

O mandante do crime, informa a polícia do Japão, foi Ikebe Tetsuo, irmão gêmeo de Yoshitaka. Ele contratou a Yakuza, a famosa associação criminosa fundada nos idos de 1.600 e mundialmente conhecida por seus métodos sangrentos. "Adotado pelos avós, ele (Tetsuo) nutria ódio incontido por Yoshitaka desde tenra idade, razão pela qual resolveu assassiná-lo", aponta o relatório oficial.

Os dois acusados são cidadãos brasileiros, descendentes de japoneses. Cada um teria recebido 3 milhões de ienes, ou cerca de R$ 71 mil. A PF prendeu Javali e Marcelo Fukuda amparada em ordem do 5.º Tribunal do Júri da Capital. A operação foi conduzida pelo delegado Marcelo Sabadin e por um grupo de agentes da Interpol/SP.

A polícia de Tóquio individualizou a participação de cada um no crime - Marcelo Fukuda fez os disparos contra Yoshitaka Kawakami. Javali agrediu a mulher. A polícia japonesa formou "volumoso expediente" sobre o assassinato e concluiu que a Yakuza "procurou terceiros" para a execução e a eles repassou instruções para a empreitada.

Ânimo homicida. Segundo a investigação, Marcelo e Javali "agindo de comum acordo com outros envolvidos (são citados mais sete nomes), com ânimo homicida mediante pagamento e com emprego de meio cruel" mataram Yoshitaka e espancaram Naomi. Dois dias depois do crime, a Yakuza embarcou os pistoleiros em um voo para o Brasil. A polícia de Tóquio identificou nove envolvidos na trama, entre eles intermediários da Yakuza. O mandante foi condenado a 20 anos de prisão.

A Justiça japonesa pediu auxílio às autoridades brasileiras. Não existe tratado de extradição entre o Brasil e o Japão. Por isso, o Consulado japonês em São Paulo encaminhou ao Tribunal de Justiça pedido formal do Judiciário de Tóquio para que os acusados sejam processados aqui.

Javali e Marcelo serão processados em São Paulo por um crime cometido no Japão. O procedimento é incomum. Os autos da investigação da polícia de Tóquio foram traduzidos para o português e integram a ação. Os mandados de prisão foram expedidos pelos juízes Suzana Jorge de Mattia Ihara e Emanuel Brandão Filho. O Ministério Público enquadrou os acusados por homicídio duplamente qualificado e tentativa de homicídio.

Prisões. Na terça feira, o delegado Marcelo Sabadin, que dirige a Interpol em São Paulo, reuniu seus agentes para o cerco aos suspeitos. O primeiro endereço visitado foi em Suzano (SP). Lá, a PF foi informada que Javali estava trabalhando em uma marcenaria em Mogi das Cruzes. Ele foi preso quando fazia entrega a um cliente. Eram 15h. Os federais se deslocaram até Campinas, onde capturaram Marcelo Fukuda, às 20 horas.

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