Clayton de Souza/Estadão - 14/08/2015
Henry Maksoud Neto, presidente do Maksoud Plaza; tradicional hotel paulistano fechou nesta terça, 7 Clayton de Souza/Estadão - 14/08/2015

Presidente do Maksoud Plaza fala em possibilidade de novo endereço e reabertura do Frank Bar

Henry Maksoud Neto diz estar em ‘negociações avançadas’ com incorporadoras para levar marca de hotelaria para novo espaço em São Paulo

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 17h58

O fechamento do hotel Maksoud Plaza após 42 anos pode não ser o fim definitivo do ícone paulistano de hotelaria. O presidente da marca, Henry Maksoud Neto, de 46 anos, diz estar em "negociações avançadas" com incorporadoras e construtoras parceiras para a reabertura em um novo endereço.

Ao Estadão, Maksoud Neto afirma que o premiado Frank Bar também está nos planos de reinauguração. O acervo de obras de arte e mobiliário do hotel será preservado. Ele costuma destacar que trabalhou no hotel desde os 15 anos, décadas antes de assumir a presidência, após a morte do avô Henry Maksoud, idealizador do espaço, em 2014. Nos últimos anos, o hotel foi alvo de disputas judiciais variadas. Uma delas culminou no leilão do tradicional endereço, arrematado pelos empresários Fernando Simões e Jussara Elaine Simões, cujos planos para o edifício ainda não foram divulgados.

Aberto em 1979, o hotel foi um dos mais luxuosos do País, com auge nos anos anos 1980 e 1990, quando recebeu astros da música, autoridades e celebridades em geral, de Frank Sinatra aos Rolling Stones, de Margaret Thatcher a Kofi Annan. Veja a entrevista a seguir:

No comunicado do fechamento, é citado que a marca Maksoud Plaza será mantida. Há planos de reabrir o hotel em outro espaço?

O hotel encerrou hoje (nesta terça) as suas atividades em seu endereço histórico, mas as atividades da empresa que o administrava, a HM Hotéis, prosseguem. Fizemos pesquisas e sabemos que temos mercado para a nossa marca em empreendimentos hoteleiros e imobiliários, dos quais poderemos ser sócios, gestores de projeto de engenharia e arquitetura (área onde atuou por muitos anos, a nossa controladora, a Hidroservice) e gestores hoteleiros. Retornamos, portanto, às nossas origens, que é a prestação de serviços. Temos o Frank Bar, referência internacional na arte da coquetelaria. Todo esse know-how segue conosco. Estamos com algumas negociações avançadas e, em breve, vamos anunciar essas parcerias, que serão importantes para nos manter gerando empregos e honrando com os compromissos que ainda restaram na RJ (recuperação judicial).

Como se deu a venda do endereço atual do hotel? Foi um acordo com os empresários que arremataram em 2011? Como os recursos serão empregados?

Foi um acordo para validar o arremate do prédio, ocorrido em 2011, mas que vinha sendo discutido em diversos recursos judiciais. Esse tema era fundamental para o sucesso de nossa recuperação judicial. Tanto que o próprio juiz que cuidava da nossa RJ (recuperação judicial) abriu um incidente dentro do processo determinando uma mediação entre as partes. Era um processo que se arrastava na Justiça, com recursos de ambos os lados, há mais de 10 anos. Os Simões (Fernando Simões e Jussara Elaine Simões) alegavam que participaram de boa-fé do leilão, o que é verdade. E o nosso ponto é que a Justiça do Trabalho teria de ter cancelado a validade do leilão (o que chegou a fazer, em uma primeira decisão), já que ele foi motivado por uma dívida que foi paga por nós dentro do prazo. Mas não havia garantia para nós de que iríamos vencer. Poderíamos perder o prédio do hotel de qualquer forma, ao final do processo. Além disso, a nossa RJ prevê uma série de leilões de imóveis que compõem o patrimônio do grupo, fundamentais para a redução das dívidas. Esta disputa judicial com os Simões colocava em risco esses negócios, já que muita gente não quer negociar com quem tem uma pendência desse tamanho. Portanto, por esses motivos, resolvemos fazer um acordo, encerrar a disputa e focar no nosso processo de reestruturação e eliminação de dívidas, no que o pagamento feito pelos Simões, atualizado para valores de hoje vai ajudar bastante. O prédio havia sido arrematado por R$ 70 milhões, valor que atualizado atinge R$ 132 milhões. Os recursos serão utilizados para cumprir nossos compromissos com os credores na recuperação judicial e também para nossos investimentos futuros.

O que será do acervo de peças de arte, móveis e outros bens icônicos do hotel?

Vamos preservar o acervo do hotel, é claro. Espero que em breve ele esteja em nosso novo endereço.

Como está a situação das dívidas? Ainda restará um passivo?

As dívidas não eram do hotel, mas herdadas de outras empresas do grupo que não estão mais operando, como a Hidroservice, que chegou a ser a maior empresa de projetos de obras de infraestrutura de grande porte (como a Usina de Itaipu), mas que encerrou suas atividades em função da crise fiscal, que secou os recursos públicos para este tipo de obra. Existiam vários tipos de dívidas. As dívidas que estavam no processo de recuperação judicial eram de R$ 110 milhões. Graças aos dispositivos legais da Lei de Recuperação Judicial, conseguimos reduzir esta parte da dívida para R$ 60 milhões, a serem pagos em 23 anos, com exceção da parte trabalhista, que será paga em 12 meses, três parcelas já foram pagas. Havia também R$ 420 milhões em dívidas tributárias, que foram reduzidas, após negociação com a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional e com a Prefeitura de São Paulo, para R$ 170 milhões, a serem pagos em dez anos. Havia mais R$ 315 milhões em dívidas em disputa na Justiça, mas a maioria está prescrita e devemos pagar apenas R$ 70 milhões, em caso de perda de todas as ações. Ou seja, no total devíamos R$ 845 milhões, mas conseguimos reduzir para R$ 300 milhões. Mas o grupo tem imóveis – fora o Hotel, que foi arrematado por R$ 132 milhões – avaliados em R$ 191 milhões, que serão vendidos para abater a dívida restante.

Há planos de reabrir o Frank Bar em outro endereço?

Sim, o Frank Bar é uma marca e um know-how nosso. No nosso novo endereço, ele com certeza estará presente.

Quantos funcionários trabalhavam no hotel?

São 170 colaboradores, que seguem trabalhando até o dia 31 de dezembro. Esperamos aproveitar boa parte deles em nossos novos empreendimentos.

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Maksoud Plaza, hotel ícone de SP, fecha as portas nesta terça após 40 anos de atividade

Espaço recebeu celebridades nacionais e internacionais, como Frank Sinatra; presidente do hotel tem planos de reabertura em novo endereço

Priscila Mengue e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 09h48

Um dos ícones da hotelaria de São Paulo, o Maksoud Plaza anunciou o encerramento das atividades nesta terça-feira, 7, aos 42 anos. O espaço — que esteve no auge nos anos 1980 e 1990 e recebeu celebridades nacionais e internacionais, como Frank Sinatra — continuará a existir enquanto marca e há planos de reabertura em um novo endereço.

Em crise, o hotel estava em recuperação judicial desde 2020. Em nota assinada pela administradora (HM Hotéis) e a controladora (Hidroservice Engenharia), o fechamento é atribuído à “crise da covid-19” e ao “plano de reestruturação do Grupo Hidroservice”. Uma reportagem publicada pelo Estadão em 2020 também apontou que o espaço era alvo de uma longa disputa familiar

Ao Estadão, o presidente do hotel, Henry Maksoud Neto disse que está em "negociações avançadas" com incorporadoras para reabrir o espaço em novo endereço. O atual edifício foi a leilão judicial em 2011 (por causa de dívidas trabalhistas), no qual foi arrematado por R$ 70 milhões pelos empresários Fernando Simões e Jussara Elaine Simões (ligados à JSL Logística), porém a venda foi questionada por anos na Justiça. O espaço deve ser entregue até o fim do mês aos donos, mediante o pagamento do valor atualizado de R$ 132 milhões.

"Todo esse know-how segue conosco. Estamos com algumas negociações avançadas e, em breve, vamos anunciar essas parcerias, que serão importantes para nos manter gerando empregos e honrando com os compromissos que ainda restaram na RJ (recuperação judicial)", afirmou Maksoud Neto. Segundo ele, as dívidas do grupo que inclui o Maksoud Plaza estão em cerca de R$ 300 milhões, mas poderão ser sanadas com as vendas de outros imóveis. 

Em nota, os proprietários do imóvel destacaram que a "arrematação se restringe ao imóvel, não envolvendo, portanto, nenhuma das atividades antes exercidas no local", sem informar detalhes sobre os planos para o uso do espaço. O endereço — na Rua São Carlos do Pinhal, região da Avenida Paulista — tornou-se uma referência pela fachada colorida, os elevadores panorâmicos, amplo átrio com jardins suspensos e a vista do centro expandido paulistano.

O comunicado do hotel ainda lembra os mais de 3 milhões de pessoas que se hospedaram em seus 416 quartos. Segundo ele, os clientes com reservas agendadas serão “imediatamente” reembolsados. No local, também havia um centro de eventos, teatro, algumas lojas, restaurante e bares, incluindo o premiado Frank Bar, que está nos planos de reabertura no novo endereço.

Nesta terça-feira, o acesso ao local estava fechado com gradis. Na parte interna, os 170 funcionários continuam trabalhando, mas agora eles desmontam e embalam os móveis. Eles foram avisados sobre o fechamento pela manhã por Maksoud Neto — extraoficialmente, a notícia já circulava ao menos desde segunda-feira, 6.

O Estadão tentou ouvir alguns funcionários. A equipe de comunicação do hotel informou que estão emocionados — boa parte tem 20, 30 anos de trabalho no hotel — e não conseguiriam falar.

Bartender à frente do Frank Bar, localizado no lobby do hotel, Rafael Pires comenta que havia rumores sobre o fechamento. “A notícia foi chocante, ficamos bem tristes. Ficamos tristes por todas as famílias que receberam essa notícia do fim de suas rendas, nesse período tão incerto economicamente falando.”

Nos últimos sete anos, o bar atraía frequentadores que em grande parte não se hospedavam no local. “O Frank Bar sempre foi o diamante da coroa, era uma coisa à parte do que acontecia dentro do hotel. Mesmo com todas as notícias ruins e rumores dos últimos anos, o Frank Bar sempre se manteve com público, lucrativo, premiado e com um equipe de causar inveja a muitos bares”, comenta. “Sempre fomos uma vitrine para o hotel, o maior atrativo, sempre evoluindo e lançando tendências na coquetelaria brasileira." 

Fechamento surpreende vizinhos e frequentadores do hotel

A surpresa com o fechamento do hotel icônico também estava nas calçadas. Aos seguranças que garantiam a restrição do acesso, pessoas têm parado e perguntado sobre o destino do hotel. "Já perdi a conta de quantas pessoas perguntaram só hoje de manhã", diz um dos seguranças, debaixo do guarda-chuva. 

A assistente de contabilidade Juliana Alcantara, de 32 anos, conseguiu, contudo, uma autorização para se aproximar e tirar uma foto da entrada. Ela diz ter duvidado do fechamento e, por isso, resolveu ir até a frente do local, onde se casou há 10 anos com Fernando Vieira Alcântara, analista de TI. Foi a primeira vez que voltou ao local. "Esse lugar faz parte da minha história", comentou, emocionada. 

O casamento havia sido um desejo da mãe, Maria Inês, já falecida, que era fascinada pelo endereço cheio de glamour nas últimas décadas. Juliana conta que precisou parcelar o pagamento da festa para 150 convidados, mas conta que valeu a pena. Ela afirma que não se recorda do valor da festa. "Esse lugar é lindo, inesquecível para mim. Espero que ainda tenha chance para ele continuar, mas sei que é difícil", diz a moradora da zona norte da cidade. 

Estabelecimentos vizinhos reconhecem o baque comercial que a região vai sofrer. A marca Maksoud Plaza é uma referência. Restaurantes localizados em frente ao hotel, na rua São Carlos do Pinhal, calculam que o movimento deva cair cerca de 20% sem os hóspedes e os eventos realizados no hotel.

"Justo agora que estávamos saindo da pandemia", lamenta Genésia Castro, proprietária do restaurante e padaria Pão de Ló. "Nós tínhamos uma sinergia grande com o hotel. O movimento era grande. Nosso café é mais gostoso e mais barato", brinca a empresária, que ocupa o local há nove anos.  

Na porta ao lado, o gerente Junior Rodrigues, do Casinha Mineira, afirma que muitos clientes procuravam o restaurante por indicação de funcionários e hóspedes do hotel - o prato mais vendido é a vaca atolada (R$ 52,5) para duas pessoas. "O impacto vai ser grande por causa dos eventos", explica o gerente. 

O pesar é ainda maior para Elisângela, dona da floricultura Solo Verde, que fica localizada exatamente na entrada do hotel, há um ano e quatro meses. Ela também evita o contato com o Estadão - os funcionários dizem que ela também está bastante emocionada. 

Últimos hóspedes acabaram expulsos

Os últimos hóspedes do hotel Maksoud Plaza, o casal de namorados Marina Gryczynki, de 26 anos, e Eduardo Gomes, de 34, afirmam que não foram avisados do fechamento do hotel e acabaram expulsos. Na noite da segunda-feira, 6, eles encontraram as malas já na recepção feitas pelos próprios funcionários e um aviso do encerramento das atividades. 

O casal narrou o episódio nas redes sociais. “Passamos o dia passeando e, quando voltamos ao hotel, o segurança barrou a gente. Tinha uma movimentação estranha e não vi ninguém. Aí, nos entendemos que o hotel estava fechado e éramos os últimos hóspedes e eles estavam aguardando a nossa chegada”, conta Mariana.  Eles reconhecem que o hotel tentou entrar em contato, mas diz que não havia nenhum aviso sobre o encerramento das atividades. “A gente não viu as ligações. Estávamos passeando. Foi uma situação que estressou a gente”, diz Mariana, filha de empresários do setor hoteleiro e estudante de pós-graduação.  

De acordo com o casal, o maior problema foi a falta de comunicação. Quando fizeram a reserva por um site de viagens, eles escolheram o dia 7 como encerramento da estadia.  Na noite de segunda, o casal se transferiu para outro hotel em São Paulo. Apesar do desconforto, o casal reagiu com tom de ironia por terem sido os últimos hóspedes do icônico hotel paulistano. “O fato legal foi ter conhecido o Maksoud ao 45 do segundo tempo”, diz Mariana. “Nós entramos para a história do Maksoud”, diz Eduardo, que é arquiteto.  

O Maksoud Plaza informa que avisou todos os hóspedes por carta e também por ligação telefônica sobre a necessidade do check-out ser feito até segunda pela manhã, antes do encerramento das atividades. Ainda segundo a administração, o hotel interrompeu a realização de reservas na última semana considerando o encerramento das atividades na segunda-feira.

Hotel recebeu celebridades internacionais e se tornou marco de São Paulo

Com 42,2 mil metros quadrados, o hotel foi fundado em 9 de setembro de 1979 após três anos de obras no terreno, onde antes funcionava uma abadia de monjas beneditinas. Naquele momento, a Avenida Paulista era o centro financeiro de São Paulo. 

Nas décadas seguintes, atraiu empresários, celebridades e autoridades. O espaço tornou-se um dos mais luxuosos espaços de hotelaria no País e referência em luxo e hospedagem cinco estrelas, liderado durante a maior parte de sua história por seu idealizador, o engenheiro Henry Maksoud, morto em 2014. 

O edifício em que funcionava também é uma referência na paisagem da região da Avenida Paulista, pela mistura de cores da fachada, com projeto arquitetônico de Paulo Lucio de Brito, então funcionário da Hidroservice. No interior, o grande átrio era a maior marca do hotel e foi inspiração para outros estabelecimentos pelo País, pelo grande vão vertical que vai do lobby até o último andar, cercado por corredores avarandados e com jardins suspensos e elevadores panorâmicos.

A iluminação natural por meio de um teto de vidro, a piscina com fios de ouro, o espelho d'água e outros detalhes também chamam a atenção no espaço, assim como a presença de obras de artistas como Maria Bonomi, Yutaka Toyota e Tomie Ohtake. Embora tenha passado por modernizações ao longo das décadas, a maioria dos quartos e outros espaços do hotel mantinham o estilo dos tempos áureos, com móveis em madeira e interfones antigos.

Um de seus momentos mais marcantes foi um show de Frank Sinatra, em 1981, no salão nobre do hotel.  Entre os espaços icônicos que abriu, estão o restaurante La Cuisine du Soleil, de 1889, concebido por Roger Vergé (então considerado um dos melhores chefs do mundo) e o 150 Night Club, boate e clube de jazz que recebeu nomes como Buddy Guy, Julio Iglesias, Tom Jobim, Tim Maia, Gonzaguinha e Dorival Caymmi.

Nas primeiras décadas, hospedou nomes conhecidos nacional e internacionalmente, como Margareth Thatcher, integrantes dos Rolling Stones, Ray Charles, Catherine Deneuve e Pedro Almodóvar, dentre outros. Mais recentemente, já não tinha o glamour das primeiras décadas e oferecia hospedagens a preços mais acessíveis à classe média.

Na década passada, chamou a atenção por dois empreendimentos abertos em 2010. Um deles era a balada PamAm, aberta no rooftop do edifício e que atraiu um público jovem por anos. O segundo foi o Frank Bar, premiado internacionalmente e localizado no lobby. 

O hotel era parte do imaginário do luxo paulistano. Esteve presentes em produções televisivas, por exemplo, como a primeira versão da novela Ti-Ti-Ti e Torre de Babel.

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