Presidente da CPI não garante sigilo de dados de caixas-pretas

Comissão recebe na próxima semana em reunião secreta dados do vôo 3054

Luciana Nunes Leal e Tânia Monteiro,

27 de julho de 2007 | 20h47

Os dados das duas caixas-pretas do Airbus A320 da TAM que chegaram nesta Sexta-feira ao Brasil serão entregues à CPI do Apagão Aéreo na Câmara em sessão secreta, por oficiais do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). A sessão ainda não foi marcada, mas poderá ocorrer na terça-feira ou quarta-feira da próxima semana. "A Aeronáutica enviará o mais rápido possível. Mais importante do que receber os dados brutos será receber as informações analisadas pelos técnicos. "Queremos saber se o freio funcionou, se omanete estava no lugar, se o reverso do avião deveria estar acionado", disse o presidente da CPI, Marcelo Castro (PMDB-PI), de volta ao Brasil depois de passar dez dias de férias na Rússia. O deputado disse que não tem meios para garantir o sigilo absoluto do conteúdo das caixas-pretas, como pediu o chefe do Cenipa, brigadeiro Jorge Kersul Filho, em depoimento à CPI na última quinta-feira. "Posso falar por mim e manterei o sigilo. Mas não posso responder por todos os deputados da CPI. Minha expectativa é que se mantenha o mesmo sigilo na CPI que aconteceu nas investigações do acidente com o avião da Gol", afirmou Castro. O presidente da CPI disse que "as hipóteses mais prováveis são a falta de freios e as manetes em posição inadequada". Manetes são uma espécie de marcha que deve ficar em ponto morto quando o piloto desliga o sistema de aceleração, no momento do pouso. Segundo Castro, se for confirmado que o manete estava na posição errada, as investigações tentarão apontar se houve falha humana e no sistema computadorizado do Airbus. Em entrevista no Cenipa, o brigadeiro Kersul reforçou que a posição do manete é mesmo um dos fatores que está sendo investigado com mais atenção. É preciso fazer um cruzamento de informações, disse o brigadeiro, para ter a certeza de que a posição em que ela se encontrava no momento do acidente correspondia ao sinal eletrônico do computador de bordo da aeronave. "Dizer que o manete estava na posição errada e que isso levou o avião a reagir daquela maneira quando saiu da pista é uma hipótese, é uma suspeita", advertiu o brigadeiro, acrescentando que é preciso analisar todos os dados em conjunto e nunca isoladamente. "O freio não ter funcionado adequadamente também é uma hipótese já que o avião não conseguiu parar", afirmou ele, ao relacionar que, no momento do pouso, três pontos precisam funcionar seqüencialmente, neste caso: se os reversos foram eficientes, as superfícies aerodinâmicas que ajudam a parar na hora do toque do avião no chão e os freios aerodinâmicos. E insistiu: "Com certeza um fator sozinho não vai levar a um acidente porque, um fator sozinho poderia ser corrigido. Por isso, um acidente sempre ocorre por vários fatores". Segundo Kersul, as caixas-pretas do Airbus-A320 da TAM registraram de forma muito clara os 30 minutos finais de diálogos dos pilotos da aeronave, assim como seus dados técnicos. Mas ele considera que os 15 minutos finais das conversas entre os pilotos serão suficientes para descobrir o que se passou na cabine nos momentos que antecederam a tragédia, antes de o avião atingir o prédio da TAM Express. Ele informou que somente as pessoas que estavam nos Estados Unidos tiveram acesso ao gravador de vozes da caixa preta. Disse ainda que um piloto da TAM, que conhecia os dois comandantes que estavam na aeronave, também ouviu a fita, ainda nos EUA, para ajudar na identificação da vozes dos dois pilotos. Além do material que está em Brasília e em São Paulo, há ainda outras peças da investigação em São José dos Campos (SP). Filipinas O brigadeiro Kersul informou ainda que o Cenipa pediu ao órgão de investigação das Filipinas, onde houve um acidente com características semelhantes para fazer análise comparativa dos dados e que espera receber estes dados ainda na semana que vem. Kersul disse ainda que desconhece que a recomendação da airbus para que os pilotos estejam atentos ao uso dos manetes em caso de inoperância do reversa da turbina, tenha sido em decorrência de dados obtidos com as caixas pretas do vôo 3054, que caiu no dia 17, em Congonhas, matando mais de 200 pessoas. Mas salientou que "qualquer procedimento sugerido pelo fabricante pode ser um fator contribuinte e isso será observado". Acidente da Gol Somente nesta sexta-feira, dez meses após o acidente da Gol, Marcelo Castro recebeu da Aeronáutica o conteúdo das caixas-pretas do Boeing que caiu em Mato Grosso. "Não tem novidade nenhuma, já tínhamos visto toda a reconstituição do acidente, em sessão secreta. Mesmo assim, o sigilo deve ser mantido", afirmou o deputado. "O tráfego aéreo brasileiro tem problemas, mas parece que este acidente da TAM não está ligado a isso. Se foi o freio, o manete, não é uma questão do tráfego aéreo. A pista sozinha do aeroporto de Congonhas não justificaria esse tipo de acidente", disse Marcelo Castro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.