Presente de avô biólogo

Minhas mãos queriam o presente, mas antes tive que ouvir a história no colo de meu avô. Os deuses se divertem observando a Terra, começou ele. Milhões de anos atrás, se espantaram ao observar nossos ancestrais abandonarem o rabo, descerem das árvores e começarem a perambular pela planície.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2014 | 02h01

O tempo passou e, aos poucos, o quadrúpede deixou de apoiar as patas dianteiras no chão. As patas agora pareciam inúteis, balançando gentilmente ao longo do corpo. Que destino teriam os braços daquele macaco desajeitado? Pássaros transformaram patas em asas, baleias em nadadeiras. Mesmo quadrúpedes fervorosos, como o leão, correm sobre quatro patas, mas, na hora do bote, arregaçam a unha e agarram a presa.

Meu avô parou, pediu para eu trocar de perna. Deuses não influenciam a evolução dos seres vivos, só observam. Minha avó não concordaria. O presente estava ao lado da cadeira. Não insisti.

Aquele macaco estranho não utilizava suas patas dianteiras para uma única finalidade. Os braços eram um instrumento multiuso. Um dos dedos se modificou, ficou em posição oposta aos outros quatro. Isto permitiu ao macaco manipular objetos pequenos e delicados. Os ombros se tornaram móveis e o braço passou a fazer praticamente qualquer movimento.

Ao longo de milênios, o animal começou a encontrar novas utilidades para seu braço articulável e seus dedos sensíveis, delicados e precisos. Começou a usar pauzinhos para cutucar buracos, descascar frutas, amassar barro e fazer potes, acender fogueiras e carregar bugigangas nas caminhadas. Aprenderam a usar as mãos para produzir lanças e machados, aumentando a eficiência da atividade de caça e se defendendo com facilidade dos predadores. Foram tão bem sucedidos que já não passavam fome. Seu número aumentou e se espalharam pela África. Com anzóis e armadilhas e se espalharam pelas praias de todo o planeta.

A capacidade de colher e plantar sementes com a mão diminuiu o tempo dedicado a obter alimento, surgiu o tempo ocioso. E, no tempo ocioso, a mão passou a escrever, produzir joias, pinturas e mapas celestes. Escolas e bibliotecas são consequências indiretas da postura ereta.

Mas as possibilidades criadas pela liberação da mão também tornaram o homem arrogante e dominador. Nenhuma animal era páreo para suas armas e espécies inteiras foram dizimadas, florestas arrasadas pela agricultura. Os dedos passaram a operar gatilhos de armas de fogo, guerras enormes se tornaram rotina. A Terra e seus habitantes estavam em perigo.

Convencidos que precisavam fazer alguma coisa, os deuses coçavam a cabeça imaginando uma maneira de fazer o homem relembrar seu passado, a época em que não dispunha de uma mão multiuso. Sem a mão talvez voltasse a ser sensato, talvez relembrasse o passado e contivesse seu ímpeto destrutivo.

Talvez a solução fosse retirar os braços dos seres humanos. Em um passe de mágica, a humanidade perderia este apêndice e com ele a arrogância. A vida voltaria a ser difícil, mas o custo seria alto. Muito seria perdido. Como jogar basquete, como acariciar um neto ou ordenhar uma vaca?

Deuses não são vingativos - explicou meu avô - e decidiram por uma medida mais branda que a remoção dos braços. Conferi preocupado, meus braços ainda estavam lá.

A solução foi incutir na mente de cada ser humano uma nova paixão. Algo que forçasse os seres humanos a viver por algumas horas como seus ancestrais, sem poder usar a mão. Talvez, por meio dessa experiência, o homem viria a redescobrir seu lado primitivo, impotente e fraco. Talvez recordasse que também tem pernas. O valor da mão seria diminuído.

Dito e feito, com um passe de mágica os deuses colocaram na mente de cada ser humano essa nova paixão. Uma paixão pela mais improvável das atividades humanas, aquela que desrespeita nossa anatomia e o funcionamento de nosso corpo, um amor por fazer o impossível. E foi assim, por força dos deuses, e não por iniciativa dos homens, que esta paixão desenfreada se espalhou pelo planeta.

Incapaz de imaginar a natureza da paixão, olhei meu avô. Essa paixão é o futebol - disse ele - uma das poucas atividades humanas onde não se pode usar as mãos. No pacote estava uma bola de couro.

É BIÓLOGO

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