Prepare-se para a volta do Capitão Nascimento

Continuação de 'Tropa de Elite' estreia nesta semana em cinemas e livrarias do País

Márcia Vieira, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2010 | 00h00

 

Poder paralelo. A trama de 'Tropa de Elite 2' mergulha no que há de pior na polícia do Rio: as milícias. Foto: Alexandre Lima/Divulgação

 

 

A guerra agora é outra. Se o primeiro Elite da Tropa, o livro que inspirou o filme Tropa de Elite, revelava os bastidores do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) no combate ao tráfico de drogas e à corrupção na Polícia Militar, a continuação mergulha no que há de pior na polícia do Rio: as milícias. Ninguém é poupado - policiais, políticos e a cúpula do governo, de um modo ou outro, estão comprometidos com o poder paralelo.

O livro, que chega às livrarias nesta semana junto com a estreia do filme Tropa de Elite 2, na sexta-feira, é um retrato dos bastidores da segurança pública no Rio nos primeiros anos do século 21. Narrado por um inspetor da Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado (Draco), Elite da Tropa 2 tem tantas histórias semelhantes a fatos reais e recentes na crônica da violência carioca que o leitor logo se pergunta se é tudo verdade.

"Noventa por cento dos fatos são verdadeiros", esclarece Luiz Eduardo Soares, um dos autores do livro. "Os personagens são sínteses de várias histórias, mas o suporte de todas elas é verdadeiro", garante o ex-secretário nacional de Segurança Pública. Para que não haja dúvidas de que a atual administração da Segurança Pública tenha algo a ver com as milícias, logo na primeira página há uma homenagem ao atual secretário, José Mariano Beltrame.

O defensor dos direitos humanos no livro, Marcelo Freitas, é na verdade o deputado Marcelo Freixo, que comandou a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa. Se no filme Elite da Tropa 2, de José Padilha, o Capitão Nascimento (Wagner Moura) continua sendo o condutor da história, no livro o narrador é um inspetor da Polícia Civil, uma espécie de alter-ego de Cláudio Ferraz, o titular da Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado. Foram as investigações da Draco que levaram à cadeia o ex-deputado estadual Natalino Guimarães e seu irmão, o ex-vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho.

Ferraz se juntou aos autores do primeiro livro, Luiz Eduardo, Rodrigo Pimentel (ex-capitão do Bope) e André Batista, que continua na PM, para contar sobre a repressão às milícias no Rio. Mais do que autor, Ferraz é peça-chave na história.

"Nós queríamos falar sobre milícias, a máfia oriunda da polícia. Mas não tínhamos informações para uma aventura desse tipo. Por isso, o Cláudio é um personagem central. Ele é quem mais entende de milícia, que hoje é a maior ameaça à segurança pública do Rio", diz Luiz Eduardo.

Com 17 anos de polícia, há três anos e meio no comando da Draco, Ferraz acha que não há nada pior no Rio, hoje, do que as milícias. "Elas reúnem a banda podre da polícia", acredita. O livro narra as principais ações da Draco na gestão de Beltrame e revela que a milícia pode ser ainda mais assustadora para a sociedade do que o tráfico. Os milicianos não só controlam o território, como ganham dinheiro com a exploração de vans, venda de gás e ligação clandestina de TV a cabo. E, o que é pior, assassinam quem se opõe e ainda conseguem se eleger para cargos políticos.

"Quem determina a intensidade da insegurança no Rio é essa banda podre. O miliciano extorque dinheiro do traficante, avisa quando a polícia vai fazer operação, vende informação. É a banda podre que toca o piano", diz Ferraz.

Luiz Eduardo, antropólogo, Ferraz e Batista, policiais, concordam que só uma profunda mudança na essência da polícia vai vencer as milícias. "O combate depende muito do entusiasmo de um delegado e da sua equipe", acredita Batista. "Só se controla o crime quando a sociedade levar dignidade e profissionalização para a atividade policial. É preciso lutar pelo fortalecimento da própria polícia", prega Cláudio Ferraz. "A atividade policial é fundamental à democracia. E sem respeito aos policiais, em todos os sentidos, isso não se resolve", diz Luiz Eduardo.

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