Prenderam um inocente, diz advogado de piloto detido pela PF

De acordo com o defensor, Milton Helfenstens não sabia que avião que pilotava estava carregado de drogas

José Maria Tomazela, do Estadão,

22 de agosto de 2007 | 20h25

O advogado José Luiz de Oliveira, que defende o piloto Milton Helfenstens, preso na segunda-feira, 20, em São Roque, pela Polícia Federal durante uma operação de combate ao narcotráfico, disse nesta quarta que seu cliente é um exemplo de que esse tipo de ação pode atingir pessoas inocentes. "Posso garantir que meu cliente é inocente e nunca teve envolvimento com esse tipo de coisa." Helfenstens passou a ser investigado por ter pilotado um avião que estaria a serviço da quadrilha do traficante colombiano Juan Carlos Abadia, preso recentemente em São Paulo. Ele é instrutor de vôo no Aeroclube de São Paulo e presta serviços como piloto freelancer. Oliveira, que visitou seu cliente na sede da PF, assumiu a defesa do piloto também na condição de presidente da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção de São Paulo. Helfenstens é evangélico. "Ele nunca atendeu diretamente esse pessoal e nem conhece o Abadia. Essa ligação simplesmente não existe." Oliveira explicou que empresários e executivos, quando precisam de alguém para pilotar aviões próprios ou alugados, entram em contato com o Aeroclube que indica os pilotos disponíveis. "Helfenstens é um piloto experiente e poliglota, por isso sempre foi muito requisitado." Numa das viagens, este ano, segundo o advogado, soube-se depois que o avião estava a serviço de um dos envolvidos com a quadrilha. "Foi uma fatalidade. Ele era apenas o piloto, acertou o preço e fez a viagem. Querer envolvê-lo por isso em matéria penal tão pesada, aí é demais." O advogado comparou o caso ao de um motorista de táxi que pega alguém no aeroporto e, no caminho do hotel, a polícia pára e descobre droga na mala do passageiro. "A culpa é do motorista? Ele tem de ir preso?" Oliveira negou a informação da PF de que Helfenstens teria pilotado o avião de Abadia que caiu após a decolagem, em Curitiba, em 2005. "Isso não existiu, tanto que estou pedindo à Polícia Federal que investigue de forma cabal a conduta dele a fim de fazer prova de sua inocência." Ele esperava a libertação do piloto "a qualquer momento". Em São Roque, a família de Halfenstens, muito conhecida na cidade, recebia nesta quarta a solidariedade de amigos. "Estou há dois dias sem dormir, não por receio de que aconteça alguma coisa com ele, mas por causa da injustiça", disse o cunhado, Esequiel Abib. Ele contou que Helfenstens era militar da Aeronáutica e trabalhou como controlador de vôo. "Durante todo tempo de vida militar, nunca recebeu uma repreensão, ao contrário, foi homenageado muitas vezes." Ele disse que o cunhado foi para a reserva depois de um grave problema de saúde. "Como trabalhava exposto ao sol, adquiriu um câncer de pele muito complicado." Por causa da doença, foi obrigado a passar por várias cirurgias de recomposição da face. "Hoje está recuperado, mas é um sobrevivente." Descendente de alemães, de família numerosa, Helfenstens trabalha desde os 12 anos, conta o cunhado. Nos últimos anos, dedicou a vida ao aeroclube paulistano. Voou para clientes ilustres, como a família do empresário Antonio Ermírio de Moraes, diretores da Amil e dos donos da Nestlé. Também trabalhou como piloto numa das campanhas do presidente Lula. "Ele é muito técnico e organizado, mantêm as cadernetas de bordo com todos os vôos registrados." De acordo com Abib, a família não é rica, mas sempre viveu bem graças ao trabalho do piloto e à loja de roupas dos familiares. "O padrão de vida foi sempre o mesmo. Somos muito religiosos e sabemos que tudo o que acontece é por permissão de Deus." A esposa do piloto, Ruth Helfenstens, conta que em 23 anos de casada - o casal tem um filho universitário - foram poucas as viagens de férias. "Ele trabalhava até nos fins de semana. O aeroclube é a vida dele." Na cidade, quem conhece o piloto não duvida da sua inocência. "É um cara pacato, boa gente", disse o comerciante João Carlos Pensa. "Quem se mete com essas coisas não leva a vida modesta que ele tem."

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