Prêmio Santander divulga vencedor

Ana Carolina Neira, de 22 anos, é a ganhadora da 8.ª edição do concurso, realizado em conjunto com a Semana Estado

O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2013 | 02h10

Aluna do 8º período da Faculdade Cásper Líbero, Ana Carolina Neira, de 22 anos, foi escolhida ontem como vencedora do 8º Prêmio Santander Jovem Jornalista, realizado em conjunto com a Semana Estado de Jornalismo. Por sua reportagem - Um Pedacinho do Paraguai na Zona Oeste de São Paulo -, a jovem ganhou uma bolsa de estudos de seis meses na Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, na Espanha, em 2014.

"Eu tinha expectativas, mas sempre há aquela insegurança", diz Ana Carolina. "Fiquei muito feliz. Agora é fazer planos e sonhar como será a minha vida em Navarra."

A Semana Estado, evento que dá direito a concorrer ao prêmio, recebeu em outubro 250 estudantes de jornalismo vindos de todo o País. Cento e cinco universitários inscreveram reportagens e seis foram considerados finalistas do projeto. A escolha da vencedora ocorreu ontem, após rodada de entrevistas. Ana Carolina recebeu o prêmio de Ricardo Gandour, diretor de Conteúdo do Grupo Estado, Marcos Madureira, vice-presidente executivo do Santander, e Roberto Gazzi, diretor de Desenvolvimento Editorial do Grupo Estado.

A jovem e os finalistas também receberam laptops. São eles: Allan Ribeiro da Silva (Unitau), Caio Felipe Ferreira Carvalho (UniToledo), Érica Bettoni Hayashibara (Unitau), Gabriela Pinhal de Araujo (Faat) e José Raimundo de Carvalho Junior (Metodista). Leia os textos abaixo:

Um pedacinho do Paraguai na zona oeste de São Paulo

Ana Carolina Neira, Especial para o Estado

A cena se repete todo fim de tarde, especialmente aos sábados e domingos: um grupo de homens se reúne para jogar bola na Praça Nicolau de Morais Barros, enquanto crianças se divertem brincando.

Localizado na Rua do Bosque, no bairro da Barra Funda, zona oeste de São Paulo, o lugar também é conhecido como a praça dos paraguaios. De fato, eles são maioria no entorno da pracinha, revitalizada em 2010 graças aos esforços dos imigrantes. Antes, o espaço estava abandonado e repleto de mato. Agora, se consolidou como ponto de encontro de pessoas que se unem em um país diferente em busca de apoio e, claro, tentam matar um pouco as saudades de casa.

Um dos primeiros a chegar foi Humberto Jara, que mora em São Paulo há 40 anos. Ele decidiu se mudar para evitar os rigores da ditadura militar paraguaia. "Vim por razões políticas e fiquei. Depois de anos passando dificuldades, decidi que não quero deixar os paraguaios passarem pelo o que eu passei: os problemas com documentação e emprego, por exemplo." Assim nasceu a Associação de Integração Paraguai-Brasil Japayke ("despertar", em guarani), que há dois anos auxilia imigrantes e faz uma ponte entre as necessidades deles e as autoridades brasileiras, além das centrais sindicais que apoiam o movimento.

Segundo dados do Ministério da Justiça, o Brasil tem hoje mais de 20 mil imigrantes paraguaios regularizados. Nos últimos anos, esse número cresceu 50%, de acordo com os registros da Polícia Federal - 348.704 pessoas vindas do Paraguai entraram no País em 2010.

Responsável pela Anistia Migratória, a Lei n.º 11.961/2009 foi outro fator importante para esse aumento, pois acertou a vida de cerca de 45 mil imigrantes que estavam em situação irregular no Brasil. Promulgada em 2009, ela dava direito aos estrangeiros que haviam entrado no País até fevereiro daquele ano a se tornarem cidadãos brasileiros.

Leo Ramirez veio para São Paulo em 2004, aos 18 anos. Como todo jovem, trazia na bagagem uma série de sonhos. Entre eles, fazer uma faculdade. "Um dia, jogando bola com uns amigos, ouvi um deles falar sobre um primo que estava vivendo aqui e conseguindo se virar. Conversei com ele e vim." Foi por meio de outros imigrantes que conheceu Jara e passou a ajudar na associação.

"O maior problema do imigrante paraguaio é estar em uma cidade grande, vindo de um país pequeno. A segunda dificuldade é o idioma e, depois, a documentação, que é a mais grave", afirma Jara.

A assistente social Carla Aparecida Silva Aguilar é gerente da Casa do Migrante. Para ela, a lei brasileira que protege imigrantes tem uma falha, pois leva em consideração apenas os aparatos legais da situação. "O governo considera tudo, mas não pensa onde essas pessoas vão ficar. Dão uma carteira de trabalho, mas não dão um lugar para morar. Como alguém vai procurar um emprego se não tem nem onde morar? Imagine para uma família viver num albergue."

Pesquisador do Centro de Estudos Migratórios da Casa do Migrante, Dirceu Cutti afirma que uma pessoa acaba atraindo a outra e, assim, formam uma rede. "Em todo lugar, os primeiros a saírem do país não são os mais pobres, são pessoas que apenas querem tentar a vida em outro lugar e têm condições para isso. A partir do momento que se estabelecem bem aqui, os mais pobres também querem vir e montam a rede", explica.

Para o futuro, a Japayke quer ter sede própria e firmar parcerias com o governo brasileiro, ajudando paraguaios que chegam e melhorando a vida dos que já estão na cidade. A Praça Nicolau de Morais Barros foi apenas o começo.

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Aparecida mostra potencial do turismo religioso a outras cidades brasileiras

Allan Ribeiro Silva, Especial para o Estado

Nos fins de semana, já nas primeiras horas da manhã, Celso Fernandes, de 60 anos, vê do alto do morro a paisagem se modificar em Aparecida, a 167 quilômetros da capital paulista. Os veículos, vindos de toda parte, começam a preencher as 6 mil vagas no pátio do Santuário Nacional. É um sinal de que o dia será árduo. Como guia turístico há sete anos, Celso da Santa, como é conhecido, tem o trabalho de narrar a história da maior imagem de Nossa Senhora Aparecida do mundo, que mede 17,6 metros, no topo de uma colina ali perto. Os olhares de fiéis esperançosos na estátua garantem o pão de sua família.

A fé levou mais de 11 milhões de visitantes no último ano à cidade de 35 mil habitantes no Vale do Paraíba. Os peregrinos movimentam a indústria da fé, responsável por 80% do PIB de Aparecida, uma das integrantes do circuito turístico religioso do Vale do Paraíba, ao lado de Cachoeira Paulista, Canas, Guaratinguetá e Lorena.

O presidente do Sindicato de Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares de Aparecida, Ernesto Elache, diz que muitos dos turistas que conhecem a cidade querem retornar. "A característica do turismo aqui, diferente dos demais, é a fidelização desses visitantes, que voltam todo ano."

Estimativas do Departamento de Estudos e Pesquisas do Ministério do Turismo revelam que existem pelo menos 15 milhões de brasileiros interessados em destinos religiosos no País. A visita do papa Francisco ao Brasil, em julho, mostrou o potencial do setor. Após o evento, 92,1% dos estrangeiros demonstraram o desejo de retornar. "A religião é destaque no segmento, não apenas pela fé, mas pela busca por manifestações culturais, arquitetura e museus sacros", avalia o economista Edson Trajano, professor da Universidade de Taubaté. Ele diz que há muito a ser explorado nas cidades com vocação turística religiosa.

Em 2017, o papa retorna a Aparecida para o jubileu de 300 anos do encontro da imagem da santa nas águas do Rio Paraíba do Sul. "Que ele traga mais peregrinos e ajude as pessoas que vivem do turismo na cidade", espera Celso da Santa. O guia, que conta já ter visto milagres no local, não perde a esperança de poder contar ao ilustre visitante argentino a história daquela estátua de concreto, finalizada em 2006, após uma promessa alcançada por uma mulher que sofria de câncer.

Casado e pai de três filhos, o guia turístico mostra as marcas de uma bala perdida que atingiu seu abdome. Devoto da santa, acredita que ela intercedeu para que o tiro não fosse fatal e diz que o trabalho também é uma questão de fé. "O dinheiro me ajuda, mas não estou aqui apenas por isso. Trabalho também pelo apego a essa gente que acredita na santa."

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Em Diadema, floricultura empresta endereço a 500 famílias

Júnior Carvalho, Especial para o Estado

Avenida dos Pereiras, número 702, bairro Eldorado. O que era para ser um endereço comercial comum serve como caixa postal para mais de 500 famílias que moram no Sítio Joaninha, uma das áreas mais precárias de Diadema, no ABC. Por lá não existem saneamento básico ou energia elétrica. Nem ruas com nome oficial.

Como sem endereço não é possível receber correspondência, a floricultura-bar de Cleonice Rodrigues, ou Nice, como ela prefere ser chamada, virou uma espécie de agência dos Correios para quem mora ali. O "empréstimo" de CEP teve início há mais de 15 anos. "No começo, eram apenas duas pessoas que pegavam cartas aqui", lembra a comerciante. "Esse número foi aumentando sem eu perceber. Quando vi, já estava recebendo carta até de quem eu não conheço."

Nice conta que, ao longo desses anos, não foram só simples correspondências que chegaram à sua porta. "O pessoal manda entregar geladeira, fogão, todo tipo de móvel. Mas eu recebo, no máximo, encomendas de cosméticos." Ela diz não se incomodar em dividir seu endereço.

Na tentativa de por tanta correspondência em ordem, a comerciante separa as cartas conforme vão chegando e as coloca em uma caixinha, na entrada da floricultura. Tudo para que os envelopes sejam identificados e cheguem aos donos sem demora. "Ficou aí mais de 15 dias eu devolvo para o carteiro."

Em meio à entrevista, pausa para receber mais uma carta. Dessa vez, no nome de Maria de Lourdes. "É tanta Maria nesse mundo", brinca. Para ajudar a refrescar a memória, Nice conta com uma lista de cerca de 30 nomes, mas quase sempre o dono da carta não está anotado ali.

"A nossa sorte é que podemos vir buscar as cartas aqui. Moro aqui há cinco anos e sempre foi assim. Só temos água quando chega o carro-pipa da prefeitura e nunca tivemos endereço certo", comentou o motorista Elio José, de 49 anos. Também morador do Joaninha, o ajudante Elias Sousa Mota, de 51, concorda. "É difícil mesmo. Estou desempregado e sempre que vou a uma entrevista preciso explicar que não há identificação onde eu moro."

Condições subnormais. Assim como os moradores do Sítio Joaninha, aproximadamente 88 mil moradores de Diadema (mais que um estádio do Maracanã cheio) não contam com serviços básicos, como abastecimento de água, coleta de esgoto e endereço. São os chamados aglomerados subnormais. No Estado de São Paulo, esse número chega a 2,7 milhões de pessoas, segundo dados do Censo 2010, divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Para o coordenador da Cátedra Gestão de Cidades da Universidade Metodista de São Paulo, Luiz Silvério Silva, a ausência de direitos essenciais se deu pelo inchaço populacional e pela precariedade urbana. O especialista afirma que o problema precisa ser enfrentado a médio e longo prazos por governantes e pela própria sociedade. "Não se trata apenas da falta de endereço. É uma questão socioeconômica", analisa. "Houve um inchaço, mais que um crescimento desorganizado da população. E tudo isso faz as famílias morarem em áreas de risco. Mas ninguém está ali porque quer."

A Prefeitura de Diadema informou que tem um plano para urbanizar o Sítio Joaninha e regularizar as moradias. Mas como o local está em área de manancial, às margens da Represa Billings, o município diz aguardar, sem previsão, uma licença ambiental da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para iniciar as intervenções.

Por meio de nota, a Cetesb informou que o caso do Sítio Joaninha ainda está em análise e o processo será avaliado até o fim do mês. A Companhia, no entanto, não garantiu que a permissão será concedida. Segundo a Cetesb, a Prefeitura de Diadema entregou os últimos documentos necessários para a emissão da licença no último dia 7.

Ferido na reintegração do Pinheirinho vive recomeço

Érica Bettoni, Especial para o Estado

As pernas que sustentam David Washington Castor Furtado, de 32 anos, já não têm a agilidade de antes. Ele era pedreiro e morava na ocupação irregular conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos, a 94 quilômetros da capital paulista. Na desocupação do local, em janeiro de 2012, foi atingido por um tiro de arma de fogo na região lombar e ainda se recupera do ferimento.

Furtado vivia na área da falida empresa Selecta S/A, na zona sul da cidade, ocupada em 2004 por trabalhadores sem-teto. Na época da reintegração de posse, quase 1.800 famílias moravam no terreno de propriedade de Naji Najas, onde haviam feito loteamentos, ruas e praças, além de empreendimentos comerciais.

Após a desocupação, os ex-moradores do Pinheirinho passaram a receber, por meio do governo estadual, um aluguel social no valor de R$ 500, para que pudessem alugar uma casa e reconstruir suas vidas. Gisela Menezes de Lima é corretora de imóveis e auxiliou muitos a conseguir moradia. "Foi um pouco complicado, por eles não terem como comprovar renda, nem conseguirem fiador, além de ter sido uma época em que a cidade tinha poucos imóveis a oferecer."

De acordo com o Secretário de Habitação, Miguel Sampaio Jr., atualmente São José dos Campos contabiliza 160 bairros irregulares e mais de 5 mil famílias vivendo em condições subumanas. Um desafio grande quando se é preciso também reabsorver os que tiveram de sair do Pinheirinho. A assistente social Michele Suave conta que vários ainda enfrentam problemas. "Alguns precisam morar com outras famílias para poder manter uma casa ou em bairros de culturas muito diferentes das suas."

O ex-pedreiro está entre os que conseguiram uma casa para alugar, com auxílio do defensor público Jairo Salvador e do advogado dos moradores da ocupação, Antonio Donizete. Aos poucos, Furtado reconstrói sua vida. Sem poder fazer esforço e realizar seu antigo ofício, conseguir um emprego foi tarefa árdua. "Passei pela humilhação de chegar ao lugar e a pessoa fechar as portas para mim, porque não tinha qualificação", conta o ex-pedreiro. "Ninguém quer contratar uma pessoa sem formação e com deficiência."

Há um ano, o horizonte de Furtado começou a mudar. Ele voltou a estudar e cursa o Ensino Médio e o curso técnico em Administração, com apoio do Programa de Aprendizagem para Pessoa com Deficiência (PcD) da Embraer, em parceria com o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE). Ao mesmo tempo, está fazendo um estágio que o capacitará a exercer suas futuras funções na empresa. Está reaprendendo a caminhar no mercado de trabalho.

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Entulho de hospital demolido é aproveitado como cascalho

Caio Felipe Ferreira Carvalho, Especial para o Estado

As ruínas de um prédio histórico estão ajudando a pavimentar estradas rurais e ruas sem asfalto de Araçatuba, a 530 quilômetros de São Paulo. Com a estrutura abalada após 30 anos de abandono, o Hospital Modelo, que ficava na Avenida Brasília, foi demolido em 12 de outubro, deixando para trás 9 mil metros cúbicos de resíduos. É exatamente esse cascalho que, triturado, vem sendo usado na cidade, em uma prova de viabilidade econômica e ambiental do aproveitamento do entulho.

A intenção é dar prioridade a pontos críticos. "O ideal seria comprar pedra britada, mas exige um investimento alto, daí veio essa alternativa com um material nobre", afirma o secretário de Obras, Sandro Botelho Cubas. O uso dos resíduos foi aprovado após testes, feitos ainda antes da implosão, que verificaram as condições do material. O cascalho é utilizado para melhorar o estado de vicinais, reduzindo transtornos a proprietários rurais, principalmente em épocas de chuva. Na área urbana, ruas ainda sem asfalto também recebem o pavimento de forma provisória.

A reciclagem é uma alternativa para um grande desafio às cidades. Restos de materiais de construção acabam descartados em terrenos baldios, às margens de rodovias e até em encostas de rios. Um descaso que não significa apenas o acúmulo de sujeira, mas também provoca consequências ambientais.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, sancionada em 2010, traz às construtoras a responsabilidade pela destinação correta dos resíduos de obras e demolições. A legislação ainda obriga os municípios a estarem atentos ao manejo desses materiais. O prazo para a adequação é agosto do ano que vem.

O setor incentiva ações para a geração de menos entulhos, com sistemas pré-moldados, por exemplo. "Destinar resíduos é caro", explica a engenheira Lilian Sarrouf, do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo. Para ela, no entanto, seriam necessárias exigências também para pequenas reformas. Mas a questão ainda depende de áreas de transbordo e triagem do material nos municípios.

No País, existem cerca de 300 empresas recicladoras. A maior parte é de usinas particulares. Nesse cenário, a meta estipulada pelo governo para a adequação não deverá ser alcançada, acredita Gilberto Meirelles, presidente da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil. De acordo com ele, o poder público precisa apoiar a utilização dos produtos.

Além da pavimentação, fim dado ao antigo hospital estadual, o material pode ser usado na produção de guias, sarjetas, blocos, bancos e mesas de praças a um custo mais baixo. A qualidade do material empregado só não permite a utilização em pilares de sustentação de um prédio, alerta o professor Antonio Anderson da Silva Segantini, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Ilha Solteira. Novas aplicações, segundo ele, requerem estudos em laboratórios.

*A reportagem de Gabriela Pinhal de Araújo não está no portal do Grupo Estado porque, apesar de ter sido realizada para o prêmio, foi incluída em um blog jornalístico no dia da divulgação dos finalistas. Pelo regulamento, a matéria precisa ser inédita para a publicação.

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