Alex Silva/Estadão
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Prefeitura estima que SP já teve 1,3 milhão de casos de covid; número é 7 vezes maior que oficial

Levantamento da cidade de São Paulo aponta aumento de casos na população idosa; prevalência é maior em desempregados e pessoas que trabalham de forma presencial

Priscila Mengue e Marina Aragão, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2020 | 12h52

Novos resultados do inquérito sorológico realizado pela Prefeitura de São Paulo apontam que ao menos 11,1% dos moradores da cidade contraíram o novo coronavírus, o que representa 1,32 milhão de pessoas com mais de 18 anos. Os dados da fase 2 do levantamento foram divulgados na manhã desta terça-feira, 28, pelo prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), em coletiva de imprensa.

Oficialmente, segundo dados do Governo do Estado, a cidade tem 182.027 casos confirmados da doença, número que é mais de sete vezes menor do que o estimado pelo inquérito. "A proporção estimada de indivíduos assintomáticos entre aqueles que apresentaram positivo é de 39,7%. Esse é um número bastante expressivo de pessoas que testaram positivo e declararam que não tiveram nenhum sintoma da doença", justificou o secretário municipal da Saúde, Edson Aparecido.

De acordo com a Prefeitura, o exame sorológico usado na pesquisa avalia a presença de anticorpos para a covid-19 em moradores sorteados aleatoriamente a partir da base de dados do IPTU de 2020, dos hidrômetros de 2017 e do programa Estratégia Saúde da Família (ESF). São selecionados 12 indivíduos com mais de 18 anos para cada área de abrangências das 472 UBS da cidade. A amostra é coletada em domicílio. 

Ao todo, foram sorteados 5.760 domicílios, nos quais foram feitas 2.328 coletas até 20 de julho. "O objetivo do inquérito é conhecer a situação sorológica da população e direcionar as estratégias para os casos suscetíveis", destacou o secretário.

Diferentemente das duas etapas anteriores (0 e 1), desta vez a prevalência dos casos foi na população com mais de 64 anos, com 13,9% dos casos, seguido das pessoas de 18 a 34 anos, com 12,6%, e de 35 a 49, com 12,3%. Na fase 1, os idosos representavam 5,1% dos casos.

"Isso vai requerer uma estratégia específica em relação aos idosos. O que pode apontar que membros da família que saíram de casa possam ter se contaminado e trazido a doença para os idosos que ficaram em casa", declarou Aparecido. O aumento também foi destacado por Covas: "É um dado perigoso, é um dado que mostra que é preciso reforçar a atenção com a nossa população mais idosa, que é quem tem mais chance de óbito quando pega o coronavírus."

A etapa anterior do estudo, com dados até 6 de  julho, apontava contaminação de 9,8% dos moradores da população. Os principais fatores associados à doença seguem relacionados à pobreza e vulnerabilidade social, como baixa escolaridade, menor renda e maior número de moradores em um mesmo domicílio.

"O vírus está jogando luz sobre a desigualdade que nós temos na cidade de São Paulo. É quatro vezes maior a incidência do coronavírus na classe D do que na classe A. Quem é mais pobre tem mais chance de pegar o vírus. É mais do que o dobro a incidência do vírus sobre quem tem somente ensino fundamental quando comparado a quem tem ensino superior. E a questão da desigualdade racial. Quem é da cor preta ou parda tem 60% mais chance de pegar o vírus na cidade do que quem é de cor branca", destacou Covas.

Segundo o inquérito, a prevalência é em pessoas com o ensino fundamental completo (16,4%), da cor parda e preta (14,1%), da classe E (17,7%), que moram com ao menos outros quatro indivíduos (11,7%)  e que não fazem distanciamento social (25,2%). A prevalência em quem fez isolamento social é de 8,5%. 

A maior proporção de casos é entre desempregados (15,1%) e pessoas que trabalham de forma presencial (14,3%). Além disso, constatou-se que 39,7% são assintomáticos, enquanto 60,3% apresentaram sintomas da covid-19. A prevalência de casos também é maior entre pessoas que utilizam máscara em locais públicos "de vez em quando" (30,5%), enquanto é menor em quem usa na "maioria das vezes" (21,8%) e "sempre" (9%).

Entre as regiões da cidade, os casos são mais comuns na zona sul, com 16,1% da população, seguida das zonas leste, 13,3%, sudeste, 9,3%, norte, 8,2%, e centro-oeste, 3,7%.

Ao todo, o inquérito sorológico terá 9 fases (da fase 0 até a 8), sendo cada fase realizada a cada 15 dias, sempre com um mesmo número de indivíduos sorteados. Em paralelo à fase 4, também será realizado um inquérito específico para crianças e adolescentes. "Em relação aos domicílios, agora (na prevalência) aparecem pessoas que moram em domicílios com mais de 5 pessoas, por isso essa solicitação de que a gente possa fazer essa testagem de crianças e adolescentes", justificou Aparecido.

Questionado sobre São Paulo se encaminhar para uma eventual imunidade de rebanho, o secretário ressaltou que os estudos ainda não são conclusivos sobre qual seria o percentual para a covid-19. Segundo a OMS, as estimativas são que ocorra em locais em que de 50 a 80% da população teve contato com a covid-19. 

"Há estudos feitos em outros países que apontam que a imunidade de rebanho seja menor do que realmente o apontado para outras pandemias. Se isso se confirmar na prática, significa que a gente pode alcançar números bastante expressivos. Nós esperamos que se os estudos se comprovarem, a cidade de São Paulo poderia alcançar a imunidade mais rapidamente", disse.

A secretária-adjunta de Saúde, Edjane Torreão, ressaltou que implantar ações de saúde é o mais recomendado neste momento epidêmico. "O inquérito aponta os caminhos que a cidade vem trazendo, a imunidade vem crescendo de forma lenta e gradual, sem pressão em cima do sistema de saúde. Nós estamos optando em acompanhar, monitorar, prevenir novos casos, controlar a disseminação do vírus, dessa forma a gente fortalece a quarentena e acolhe essa população de forma lenta e gradual. Esperar a imunidade de rebanho talvez não seja esse o caminho. Talvez não seja hora de aguardar a imunidade de rebanho e sim implantar ações."

Em coletiva no Palácio dos Bandeirantes, o secretário-executivo do Centro de Contingência, João Gabbardo, estimou que percentual semelhante da população paulista já teve a doença. "Os inquéritos mostram que, de maneira geral, temos em torno de sete a dez pessoas que tiveram contato com o vírus e que não foram contabilizadas nesses casos confirmados. Podemos prever que, tendo 1% de casos confirmados, temos 10% da população que já teve contato com o vírus ou que já tem imunidade ao vírus. Esses números podem ter diferenças regionais, mas podemos avaliar isso. Que temos 1% de casos confirmados e 7% a 10% das pessoas no Estado de São Paulo que já são imunizadas."/COLABOROU PALOMA COTES

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