Prefeitura derruba seis imóveis na cracolândia

Demolição e emparedamento de 26 prédios são questionados pelo Ministério Público

DIEGO ZANCHETTA, ARTUR RODRIGUES, FELIPE FRAZÃO, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2012 | 03h03

A Prefeitura de São Paulo demoliu ontem seis imóveis nas Ruas Helvétia e Dino Bueno, na cracolândia. Os locais costumavam ser ocupados por viciados em crack, e a interligação entre as edificações foi apelidada de "labirinto". A ação aconteceu um dia após 32 imóveis serem "emparedados" e será investigada pelo Ministério Público Estadual.

O subprefeito da Sé, Nevoral Alves Bucheroni, afirmou que as demolições ocorreram por questão de segurança. "Havia muito lixo, que ficou compactado nas paredes. O risco era tirar esse lixo e ruir tudo", disse. Segundo Bucheroni, os imóveis eram "inabitáveis e irrecuperáveis". O custo das demolições será repassado aos proprietários.

Bucheroni afirmou que a intenção da ação não é colocar "famílias na rua". "Temos quatro locais para 'emparedar', mas, como estão abrigando famílias com crianças, estamos cadastrando essas pessoas, colocando em programas sociais", disse. Ontem, a Guarda Civil Metropolitana deteve dois homens que quebravam os blocos usados em bar recém-lacrado, no Largo Coração de Jesus.

O Ministério Público abriu inquérito para investigar a legalidade dos emparedamentos e das demolições. "Não se viram documentos, perícias ou ordens judiciais que atestem essas demolições repentinas. Mais à frente vamos descobrir no inquérito aberto hoje (ontem) se essas ações da Prefeitura tiveram a intenção na verdade de retirar as famílias de baixa renda da área para o favorecimento da especulação imobiliária", disse o promotor de Urbanismo Maurício Ribeiro Lopes.

Acusações. Vereadores de oposição a Gilberto Kassab (PSD) também acusaram a Prefeitura de retirar moradores de cortiços e pensões sem argumentar. "Idosos e pessoas doentes estão sendo expulsos. A maior parte dos moradores não é usuária de drogas, não existe fundamento legal para emparedamentos", disse Juliana Cardoso (PT).

O Estado consultou o Plano Diretor de 2002 e constatou que a maior parte da área onde ocorre a operação da Polícia Militar e da Prefeitura, entre a Avenida Duque de Caxias e a Alameda Eduardo Prado, é uma Zona Especial de Interesse (Zei) 3, cuja ocupação deve obedecer à proporção de 40% para habitações de interesse social (para famílias com renda de até 5 salários mínimos) e de 40% de imóveis de "mercado popular", para famílias com renda de até 16 salários. Só 20% da área fica de uso livre.

"O parlamento vai acompanhar essas ações de emparedamento. O zoneamento que define a ocupação para a região precisa ser respeitado, independentemente de qualquer ação policial", afirmou o presidente da Câmara, José Police Neto (PSD).

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