Prefeitura de SP retira moradores de favela no Parque D. Pedro

Prefeitura de SP retira moradores de favela no Parque D. Pedro

De forma pacífica, cerca de 190 moradores de barracos foram transferidos para hotéis alugados pela administração municipal

Marco Antônio Carvalho, Especial para o Estado

11 Setembro 2014 | 10h29

Atualizada às 17h27

SÃO PAULO - A Prefeitura de São Paulo desocupou nesta quinta-feira, 11, a área do Parque Dom Pedro, no centro, que havia se transformado em favela nos últimos dois anos. Cerca de 190 pessoas que moravam no local foram transferidas para hotéis alugados pela administração municipal. Essa é a primeira experiência do programa Autonomia em Foco, que visa a abrigar pessoas com problemas de moradia e oferecer uma série de serviços, desde atendimentos psicológicos a cursos profissionalizantes.

A desocupação ocorreu na manhã desta quarta e contou com o apoio da Guarda Civil Municipal. A retirada dos barracos e a saída das famílias aconteceu de forma pacífica. Há pelo menos sete meses, equipes da Secretaria de Assistência Social dialogavam com moradores em busca de um acordo para a liberação da área. Por mês, a Prefeitura pagará R$ 216 mil pelos alugueis dos dois hotéis e por um convênio de prestação de serviço.

O programa se diferencia por acolher famílias, em vez de apenas homens solteiros, como a maioria dos abrigos públicos. Segundo a Secretaria de Assistência Social, a proposta é criar um espaço que não é uma solução habitacional definitiva, mas também não é um acolhimento regular da Prefeitura. "É um espaço de construção de autonomia maior para essas famílias", disse a secretária da assistência social, Luciana Temer.

As famílias do local apresentaram boa receptividade ao novo programa, mas concentraram críticas a dois aspectos da proposta. O primeiro é que parte dos pertences tiveram de ser abandonados para remoção da Prefeitura. Fogão e geladeira, por exemplo, não podem ser levados pelos moradores aos hotéis, que fornece área comunitária de cozinha. O segundo aspecto é a aparente incerteza quanto ao tempo de "hospedagem" nos hotéis.

Luciana informou que não há prazo determinado para cada família continuar sendo atendida pelo programa e que isso dependerá de avaliação. "Não tem um prazo certo. Nós vamos acompanhar caso a caso.  A ideia é fortalecer essas pessoas até que elas possam sair da rede de assistência", disse a secretária. 

Crianças serão direcionadas a creches e escolas e adultos poderão participar de capacitação do Pronatec. A favela no Parque Dom Pedro foi a primeira a ser atendida pelo programa, que ainda não tem planejamento claro para recepção de outras comunidades e pessoas. "Nós temos certeza que a cidade tem uma demanda imensa por esse tipo de serviço", disse Luciana.

Revitalização. Estava previsto para esta quinta-feira, 11, o início do processo de revitalização da praça onde antes estava a favela. O local passará por limpeza, aplicação de grama e retirada da tenda que há no local e das grades que o cercam. A Subprefeitura da Sé estimou que em um mês as mudanças de revitalização poderão estar concluídas.  Uma inspetoria da Guarda Civil Municipal poderá ser instalada na área.

Transferência. No final da manhã desta quarta, as famílias começaram a chegar aos hotéis, localizados no centro. O maior deles, na Luz, recebia os ajustes finais para acomodar 119 moradores. O outro, na Sé, receberá 67 pessoas.

O tapeceiro Edmundo Neves de Almeida, 59, demonstrava otimismo com a mudança de casa. Morando há um ano no Parque Dom Pedro, o homem preparava a mala para se mudar da favela com a mulher e ir para o hotel. "Vai ser bom. Aqui, não é nada nosso e a gente não sabia até quando ia durar. Lá, a gente tem oportunidade", disse.

Encostada no tapume de madeira que é a porta da frente do seu barraco, Landelina Reis da Silva, 47, integrava o time dos insatisfeitos. "Somos sujeira jogada para debaixo do tapete", disse. Ela reclamava de ter de se desfazer de alguns pertences que não seriam permitidos no novo abrigo. "O meu barraco é a melhor coisa que tive na vida", disse.

A mulher também demonstrava preocupação com o funcionamento da cozinha comunitária. "Que horas eu vou poder cozinhar para o meu filho? Lavar minha roupa?", questionava. Landelina definiu como "prisão condicional" o novo local de moradia. Isso porque, em um momento inicial, a Prefeitura vetou a visita de familiares até que se organize o local. "Você pode sair, mas não sabe a hora que pode voltar", reclamou sobre as regras da acomodação.

A adesão dos moradores ao programa não foi total. A Prefeitura estimou que 90% das pessoas na favela concordaram em seguir a proposta do programa. Mas, diante da desocupação da área, alguns resolveram retornar às ruas, sem certeza de onde vão morar. Um deles é Dorival Ferreira da Silva, 57. No momento em que agentes da Prefeitura destruíam barracos, ele sofria para equilibrar seu carrinho abarrotado de objetos. Ele aproveitou a saída de algumas famílias para comprar parte de móveis e objetos de uso doméstico.

"A gente dá uma moedinha e consegue, né?", disse sobre a estratégia de compra adotada na comunidade. Silva relatou morar no local desde o início da ocupação e disse que ia sair sem destino. "Não tenho paradeiro. Mas dá pra sobreviver. Faço frete quando o pessoal pede", disse. Após derrubar duas vezes parte dos objetos do carrinho, conseguiu sair do local com sucesso. E com Pingo, um cachorro preto e branco que, segundo Silva, foi doado por algum morador da favela. 

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