Werther Santana/Estadão
Áreas degradadas poderão ganhar corredor verde Werther Santana/Estadão

Prefeitura de SP planeja ‘corredores verdes’ em 113 km de vias do centro

Ideia é interligar vias arborizadas com praças e parques de distritos como Sé, República, Brás e Bom Retiro; proposta, que integra Projeto de Intervenção Urbana (PIU) Setor Central, está em consulta pública

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2019 | 05h00

SÃO PAULO - O cinza tão associado a São Paulo fica mais evidente em algumas regiões da cidade, como o centro. Entre calçadões, muros e alguns dos maiores edifícios da capital, parques e praças estão quase isolados do restante da paisagem de raras árvores e plantas em distritos como Sé, República e Brás.

Um projeto da Prefeitura quer mudar essa situação, criando corredores verdes em 113 quilômetros da região central. A ideia é implementar ao menos um projeto-piloto – no Brás ou na Santa Ifigênia – ainda na gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB), que pretende concorrer à reeleição em 2020. Também são previstas melhorias em espaços já existentes, como o Parque D. Pedro II, o Largo da Concórdia e a Praça Roosevelt.

A ideia faz parte do Projeto de Intervenção Urbana (PIU) Setor Central, que estabelece diretrizes para o desenvolvimento imobiliário, ambiental e urbano dos distritos Brás, Pari, Bom Retiro, Belém, República e Sé. O texto está em fase de audiência e consulta públicas e, na versão final, será enviado como projeto de lei para a Câmara Municipal, em março. Um dos objetivos principais é levar 300 mil novos moradores para a região.

O projeto Caminhos Verdes abrange dezenas de calçadas, incluindo algumas nas vias mais movimentadas do centro, como as Avenidas do Estado, Rangel Pestana, Bom Jardim e Celso Garcia, e áreas mais degradadas, como o entorno da Cracolândia. Inclui ainda quatro novas praças, duas nas proximidades da Marginal do Tietê, uma perto do Jardim da Luz e outra na Liberdade.

Segundo a Prefeitura, o custo estimado é de R$ 72 milhões, incluindo alargamento de calçadas, rebaixamento de guias e sinalização. A previsão é de 48 meses para a elaboração do projeto executivo e entrega das obras, ou seja, parte da execução deve ficar para a próxima gestão.

Um mapeamento dos locais de grande circulação de pedestres e que interligam pontos de interesse, como estações de Metrô, foi utilizado para escolher as vias, segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Fernando Chucre. “Foram identificadas ruas e avenidas com largura suficiente para, além de fazer o alargamento da calçada, ter uma área de respiro.”

Segundo ele, um dos principais objetivos do Caminhos Verdes é melhorar a experiência dos pedestres, com mais sombra e redução na temperatura pela presença de árvores. A mudança também dialoga com a intenção de adensar áreas mais subutilizadas e degradadas, como o próprio entorno do Parque D. Pedro II, que pode ganhar uma Parceria Público-Privada (PPP) para prédios habitacionais.

Em relação a pedestres e ciclistas, o PIU Setor Central prevê também a criação de cinco ciclopassarelas sobre o Rio Tietê, interligando as regiões central e norte. Há também a previsão de projetos especiais para cinco áreas no entorno de espaços conhecidos do centro, como o Estádio Canindé, o Teatro Oficina e a Estação Júlio Prestes. “Esses territórios merecem uma discussão mais profunda”, afirma o secretário.

Em 2019, a Municipalidade plantou uma média de 3,2 mil árvores por mês (com total de 32,2 mil até outubro), estando um pouco acima da média do ano anterior (de 2,9 mil). O ritmo permite atender a meta prevista para os dois últimos anos da gestão, que é plantar 50 mil árvores, mas está aquém do prometido em 2017, de 200 mil em quatro anos.

Boston e Medellín são exemplos internacionais de corredores verdes

O conceito de corredor verde ganhou espaço no planejamento urbano no fim do século 19, em Boston (EUA), interligando as “parkways” com áreas arborizadas de tamanhos diversos, diz Matheus Casimiro, urbanista e ex-diretor técnico da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. Exemplo internacional mais recente vem de Medellín, na Colômbia, que implementou o Green Corridor em 18 ruas e 12 hidrovias. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a iniciativa reduziu a temperatura em mais de 2ºC em certos pontos.

“Quanto mais o verde for integrado aos espaços públicos, melhor para todos”, diz Casimiro. “Com os parques lineares, definidos no Plano Diretor de 2002, pela primeira vez uma legislação falou em plano de arborização para avenidas e ruas. Na prática, poucas vias de fato conseguiram implementar.”

O último Plano Diretor, de 2014, prevê elaborar o Plano Municipal de Arborização, que está em desenvolvimento e definirá planejamento, implementação e manejo da arborização.

Casimiro diz que criar corredor verde não é, em si, uma dificuldade. O desafio é articular vários atores, como secretarias, concessionárias de energia, órgãos de patrimônio histórico e proprietários. “Tem a questão da fiação, do tipo de pavimento, precisa ver o mobiliário com a CET (o que inclui, por exemplo, placas de sinalização).”

Árvores podem ajudar no controle da temperatura e da poluição

A criação de corredores verdes também é uma alternativa para o centro por ser uma área com pouca oferta de lotes de maior porte, comenta Leandro Tavares, professor de Ecologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ele afirma que a arborização tem efeitos no conforto do pedestre, na temperatura e na poluição. 

“Traz maior proteção do sol. A temperatura, no geral, tende a reduzir um pouco, pelo menos em relação à sensação térmica. Quando se fala em uma área maior, também consegue reduzir de 2ºC a 3ºC, mas, na linha da calçada, é mais difícil chegar a tanto (a diferença)”, aponta. “Uma parte da poluição química, a árvore não consegue absorver, mas a fuligem fica retida nas folhagens, por ter bastante superfície de contato.”

Os efeitos também chegam à fauna, especialmente insetos e aves, e quando as espécies plantadas são nativas. “Consegue ter uma movimentação um pouco mais confortável para a biodiversidade nesses caminhos, como o Parque da Luz, que conseguiria ter um fluxo melhorado”, afirma. 

Três perguntas para Valter Caldana, professor de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie

1. Projetos como o Caminhos Verdes, com início no último ano de mandato e execução programada para depois, podem soar eleitoreiros?

Projetos no último ano de mandato podem carregar essa pecha e despertar desconfiança. Às vezes, são recebidos com menosprezo. Mas é preciso deixar claro que planejar e criar corredores verdes é necessário. 

2. Como os políticos, em geral, têm tratado questões como essas?

Muitos tratam como “maquiagem”. A cidade precisa de um projeto que seja estrutural. É preciso ir fundo na questão urbanística: é preciso falar em alargamento de calçadas, rebaixamento de guias e muito mais. O que me parece é que esse projeto vai nesse sentido.

3. Como fazer que o projeto avance se a execução ficar com outro prefeito? 

Setores da sociedade estão mais conscientes e aptos para reagir se outra gestão bloquear recursos. Veja a Paulista Aberta (programa da Prefeitura que restringe a circulação de veículos na avenida aos domingos para atividades de lazer). Houve tentativa de interrupção, mas a sociedade reagiu. Outro ponto importante: questões urbanísticas precisam ser debatidas no âmbito da cidade e de suas questões práticas. Nacionalizar o debate e contaminá-lo com posições ideológicas pode prejudicar a execução de políticas públicas como essa. /COLABOROU GILBERTO AMENDOLA

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Garagem de bondes e fábrica Orion podem ter uso público no Brás

Prefeitura de São Paulo estuda novo uso para espaços, hoje subutilizados; imóveis são do início do século 20

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2019 | 05h00

SÃO PAULO - O centro expandido de São Paulo é como um museu a céu aberto de casas, edifícios, fábricas e outros bens marcantes para a cidade – mesmo que, por vezes, não conservados. Além de discutir incentivos para proprietários de imóveis tombados, o novo plano urbanístico da Prefeitura para a região prevê a recuperação de dois marcos do período industrial: a garagem de bondes da Light e a centenária fábrica Orion, ambos no Brás.

Datados do início do século 20, eles estão hoje subutilizados, com ao menos parte da estrutura fechada. A ideia do plano municipal é restaurar os dois imóveis e transformá-los em equipamento público para atender o aumento populacional previsto para a região. Uma das possibilidades de uso em estudo é integrar a antiga garagem ao sistema de VLT ou BRT previsto para o centro.

A proposta, parte do Projeto de Intervenção Urbana (PIU) Setor Central, está em fase de audiência e consulta públicas e precisa ser aprovada pelos vereadores. O plano deve ser enviado em formato de projeto de lei para a Câmara em março.

Como a antiga fábrica é de um proprietário particular, o plano prevê também a aquisição pela Prefeitura. “Vamos fazer a desapropriação no momento certo, quando tiver recursos. Um decreto de desapropriação tem validade de dois anos”, afirma o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Fernando Chucre.

História

Na Avenida Celso Garcia, a garagem é tombada nas esferas municipal e estadual e considerada último remanescente da rede de apoio à operação dos bondes. Foi erguida há mais de cem anos, atendendo aos serviços da The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited – a Light –, que sucedeu a rede de bondes por tração animal. Hoje é de responsabilidade da SPTrans.

Já a centenária fábrica da Orion fica na Rua Behring e tem a preservação das características externas prevista em âmbito municipal. Localizado em um grande lote de esquina, o imóvel tem quatro pavimentos e mantém dois grandes letreiros com o nome da empresa, especializada principalmente na produção de borracha.

Desde a construção da antiga hospedaria (hoje Museu da Imigração), em 1886, a trajetória do Brás está ligada ao desenvolvimento industrial de São Paulo. A região se tornou, nas décadas seguintes, um dos caminhos para a escoamento de produtos para o Rio ou o Porto de Santos. “O bairro mudou, tomou características industriais. A chaminé se tornou presente no bairro como um todo”, diz Ewerton de Moraes, pesquisador de patrimônio industrial e doutorando da Universidade Federal do ABC.

O pesquisador comenta que capital ainda mantém “bons espaços” do período industrial, que ficaram para trás quando muitas empresas se mudaram para o interior ou passaram a ocupar áreas menores (motivadas pelas mudanças tecnológicas). “Nesse processo, grandes áreas ficaram paradas, tendo os tijolos impregnados de história”, comenta.

Como geralmente envolvem grande áreas, a aquisição e a recuperação de imóveis desse período exigem investimento significativo. Moraes ressalta que, por outro lado, essa característica geralmente está associada a construções amplas e com poucas subdivisões, o que facilita a adaptação da estrutura para diferentes usos. 

A zona oeste de São Paulo, por exemplo, apresenta equipamentos culturais ou de uso público em remanescentes industriais, como o Sesc Pompeia, a Junta Comercial (na antiga Estação Ciência, da Lapa), a Casa Melhoramentos, na Vila Romana, e a Casa das Caldeiras, na Água Branca, dentre outros. 

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