Reprodução/Facebook
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Prefeitura de Monte Mor manda moradores de rua para cidades vizinhas; Boituva aciona MP

Grupo diz que foi forçado a entrar em van; prefeito pediu que população não desse marmita para os sem-teto

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2021 | 00h52

SOROCABA — A prefeitura de Boituva, no interior de São Paulo, registrou boletim de ocorrência por violação de direitos humanos, após uma van desembarcar na periferia da cidade com dez moradores de rua transportados de Monte Mor, cidade distante 86 quilômetros, na região de Campinas. Boituva acionou também o Ministério Público estadual. 

Os sem-teto foram abordados pela Guarda Civil Municipal na praça da rodoviária na última terça. Eles foram levados para passar a noite no Ginásio de Esportes.

Aos profissionais do Serviço de Obras Sociais, eles disseram que foram forçados a entrar na van por funcionários da prefeitura de Monte Mor. Segundo ele, outros moradores de rua foram levados para outras cidades do interior e para a capital. 

“Os serviços de acolhimento da Secretaria de Desenvolvimento Social, Cidadania e Inclusão e o Serviço de Obras Sociais, que fizeram o acolhimento dessas pessoas, apuraram através de seus relatos e de contato com a assistência social da cidade de Monte Mor que esta foi uma iniciativa da prefeitura de lá”, informou a prefeitura.

Em vídeo divulgado em redes sociais, o prefeito de Monte Mor, Edivaldo Brischi (PTB), afirma que as vans da prefeitura fizeram seis viagens para levar pessoas em situação de rua para outras cidades. “Foram embora para Rio das Pedras, Bauru, Campinas, São Paulo, Orquídeas (bairro de São Bernardo do Campo)”, disse. 

O vídeo, em forma de live, foi veiculado em seu perfil no Facebook às 7 horas do dia 14. Na gravação o prefeito pede à população que não dê marmitas para moradores de rua porque eles jogam fora e pede que levem doações à assistência social. “Preciso cuidar da minha cidade. Pessoas do bem, me ajudem, me apoiem nessa ação.”

Em outro trecho, ele afirma que a maioria da população fica sustentando “esse povo” com marmita. “Quem vai trabalhar se tem a pinga deles, a marmita deles?”, perguntou. "Não posso ver minha cidade virar um lixo. A partir de hoje, moçada, eu vou começar a mostrar como se governa uma cidade. Fiquem bravos comigo. Pode ficar bravo. Mas agora tem prefeito essa cidade (sic). Sei que muita gente vai xingar eu (sic), mas estou fazendo o certo. Querem ajudar alguém, ajude um pai de família”, disse. 

No vídeo, ele justifica a expulsão das pessoas em situação de rua alegando que o entorno da rodoviária está sendo revitalizado e que a cidade limpa e organizada atrai investimento de empresários.

A live do prefeito gerou repercussão em redes sociais. “Não pode ver sua cidade virar lixo, prefeito? Que tal dar condições de moradia a todos, oferecer abrigo aos desabrigados, alimento aos famintos... Varrer pessoas como se elas fossem lixo mostra o tipo de pessoa que você é. Lamentável”, postou um internauta na página do prefeito no Facebook. 

A Associação dos Geógrafos Brasileiros - Seção Campinas, reproduziu a live e repudiou as ações e declarações do prefeito. O prefeito foi procurado pela reportagem, mas a assessoria informou que ele estava em agenda externa e impossibilitado de atender.

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