Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Prefeitura avalia proposta de faixa exclusiva para táxi em São Paulo

Medida foi apresentada pelo urbanista Jaime Lerner em reunião de conselho de transporte; secretário diz que mecanismo pode valer também para fretados

Caio do Valle, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2013 | 14h13

SÃO PAULO - No futuro, a cidade de São Paulo poderá ganhar faixas exclusivas para táxis. A proposta foi apresentada na manhã desta quinta-feira, 19, pelo arquiteto e urbanista Jaime Lerner, um dos pioneiros na criação de corredores exclusivos para ônibus no mundo, durante a quarta reunião do Conselho Municipal de Trânsito e Transporte, na região central. O secretário municipal dos Transportes, Jilmar Tatto, disse que simpatizou com a ideia, explicando que ela poderia ser estendida para outros veículos, como ônibus fretados.

"É uma coisa que me ocorreu no momento, precisa ser conferida", afirmou Lerner, responsável pela criação, enquanto prefeito de Curitiba, do sistema de BRT ("bus rapid transit", na sigla em inglês) da capital paranaense, em 1974, que se tornou referência internacional. O modelo, segundo ele, foi replicado em 126 cidades em diversos países, entre as quais Istambul, na Turquia, e Bogotá, na Colômbia.

Contudo, a alternativa de ceder as faixas apenas para os táxis só seria colocada em prática depois da construção de corredores para ônibus à esquerda nas vias onde já existem as faixas, que ficam à direita. Assim, essas faixas, que hoje são utilizadas só pelos coletivos, poderiam ter o uso transferido para os táxis. Atualmente, os taxistas não podem usar as faixas à direita, somente os corredores. Neste ano, a Prefeitura entregou 291 quilômetros de faixas exclusivas para os ônibus na cidade, que tem 34 mil táxis.

"É uma ideia. Eu fiquei simpático, inclusive, com essa ideia. Mas, veja, ao mesmo tempo surpreso, porque é um avanço você usar (as faixas para) o táxi ou para quem tem mais de uma pessoa no carro ou o fretamento", afirmou Tatto. Ele destacou ainda que será preciso analisar o viário para ver se comporta esse tipo de concepção.

Polêmica. A medida entra em discussão na semana em que o Ministério Público Estadual (MPE) deu um prazo de 45 dias para que a Prefeitura proíba a circulação de táxis nos corredores de ônibus. Uma recente pesquisa do próprio governo municipal indica que esses veículos prejudicam o deslocamento dos ônibus, deixando-os 25% mais lentos, em média. Com isso, agravam-se problemas de superlotação e demora para a passagem dos coletivos nas paradas dos corredores.

Os taxistas, porém, não querem perder o direito de transportar seus passageiros pelos corredores, alegando que isso impactaria em perda de clientela. Se a gestão Fernando Haddad (PT) seguir a recomendação da Promotoria, os sindicatos do setor podem promover carreatas como a da segunda-feira, 16, que rumou até a sede da Prefeitura, no centro.

Entretanto, caso a Prefeitura não acolha o que sugeriu o MPE após o prazo de 45 dias, a Promotoria de Habitação e Urbanismo entrará com uma ação civil pública contra a administração municipal.

Uma nova reunião do Conselho de Trânsito e Transporte foi agendada para o dia 15 de janeiro para discutir especificamente a questão da circulação dos táxis nos corredores de ônibus. Nesta quinta-feira, o taxista Jorge Spínola, da Associação das Rádio Táxis de São Paulo (Artasp), defendeu que a Prefeitura adote um meio-termo, caso haja proibição aos táxis. "Poderiam permitir a circulação nos corredores fora dos horários de pico, por exemplo."

Tatto defendeu o transporte coletivo. "Andar de ônibus na cidade de São Paulo é uma coisa boa, faz bem", disse, acrescentando que pega coletivos "quase todos os dias". Ele declarou ainda que, como secretário, gostaria de poder andar nas faixas de ônibus, com o carro oficial. "Mas não pode, gente. Se perguntarem para mim se é melhor entrar na faixa ou ficar fora, é melhor entrar na faixa. Mas esse é o problema, se eu quiser andar dentro da faixa eu tenho que pegar ônibus."

Corredores. O secretário Tatto também declarou que outra ideia de Lerner será colocada em prática pela Prefeitura. Trata-se de uma operação controlada no sistema de ônibus, para que os passageiros possam saber a hora exata em que os coletivos passarão nos pontos de ônibus de algumas faixas e corredores. Ainda não foi definido quais vias serão contempladas.

Lerner também participará da concepção do primeiro novo corredor de ônibus na cidade de São Paulo, propondo ajustes e melhorias que serão adotadas nos demais. A gestão Haddad promete começar a construir 150 km de canaletas exclusivas para ônibus (à esquerda da pista, coladas no canteiro central das avenidas) no primeiro semestre de 2014. Vias como Radial Leste, Aricanduva, Celso Garcia, 23 de Maio e Bandeirantes estão entre as que ganharão corredores exclusivos.

O urbanista, que além de prefeito de Curitiba foi governador do Paraná, foi contratado pelo Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo (SP Urbanuss) para desenvolver um estudo sobre a ampliação dos corredores de ônibus na cidade. O material foi apresentado durante a reunião do conselho de transporte. No projeto, Lerner defende a criação de três corredores circulares e dois radiais, ou seja, rumo à região central. Um deles ligaria a Avenida Paulista ao Aeroporto de Congonhas, na zona sul, em 15 minutos, contra os cerca de 60 minutos feitos pelos carros.

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