PREFEITO MANTÉM 'DINASTIA' LIBANESA

Assim como Haddad, que anda com foto do avô na carteira, Maluf e Kassab têm origem árabe

BRUNO PAES MANSO - O Estado de S.Paulo

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A figura que mais influenciou a personalidade e os valores do prefeito eleito, Fernando Haddad, foi seu avô Cury Habib Haddad, que morreu dois anos antes de ele nascer. Engajado na luta nacionalista libanesa, virou sacerdote da Igreja Ortodoxa após ficar viúvo e morreu no Brasil em 1961. Seus restos mortais estão enterrados na cripta da Igreja Ortodoxa da Rua Vergueiro, a mesma em que o futuro prefeito seria batizado. Até hoje, ele leva na carteira uma foto do avô, que costuma mostrar a interlocutores. "Se você olhar para ele, vai ser influenciado. Na minha família, meu avô é hors-concours. Manda em todo mundo, mesmo tendo morrido há 50 anos. Seus valores éticos, culturais, políticos são referências", diz Haddad.

Preservando a influência da dinastia libanesa em São Paulo, no dia 1.º de janeiro Haddad vai suceder outro patrício, Gilberto Kassab (PSD), cujo avô veio do Líbano no começo do século passado. Assim como os Haddads, a história dos Kassabs também é ligada à religião. O tio-avô do prefeito, Nimatullah Al-Hardini Kassab, nascido no norte do Líbano em 1808, foi monge maronita e acabou canonizado pelo papa João Paulo II em 2004. "São dois santos na família. Ele e eu", brinca Kassab.

Em 20 anos, Haddad será o terceiro prefeito de origem libanesa à frente da cidade, que já foi administrada por Paulo Maluf (PP) entre 1993 e 1996. Os familiares de Maluf começaram a chegar de Abedet, no Líbano, ainda no século 19. "Os valores sírio-libaneses estão relacionados ao trabalho. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) vai a Brasília pedir semana de trabalho de 40 horas. Acho que tem de ter 60 horas, porque eu trabalho 65 por semana", diz Maluf.

Haddad, Maluf e Kassab são a evidência de que os sírio-libaneses podem assumir ideologias em diferentes espectros políticos. Hoje, no entanto, os patrícios, que já foram adversários ferrenhos, estão bastante próximos. "Quando eu o encontrei no Monte Líbano, me dirigi a ele em árabe e perguntei como estava a saúde dele. Haddad respondeu que não sabia falar árabe, mas foi muito bem votado entre os sírio-libaneses", conta Maluf sobre o novo prefeito.

Antigo rival do PT em São Paulo, Maluf se aliou a Haddad nesta eleição municipal. O atual secretário de Desenvolvimento Urbano da gestão Kassab, Miguel Bucalem, que frequentava o Clube Sírio com Haddad, também segue na futura administração como integrante da SP Urbanismo.

Durante a campanha, uma das pessoas que acompanharam Haddad nas visitas ao Clube Monte Líbano para pedir votos foi o advogado Rezkalla Tuma, de 84 anos, irmão mais velho do falecido senador Romeu Tuma. "Todos ficaram impressionados com a simplicidade do prefeito", diz Tuma. Apesar de não ter afinidades com o PT, Tuma diz que votou em Haddad "pela pessoa".

'Turcos'. Incentivada depois de uma visita do imperador d. Pedro II a Beirute no século 19, a imigração sírio-libanesa no Brasil se concentrou nos centros urbanos, principalmente São Paulo. Síria e Líbano pertenciam ao Império Turco-Otomano. Dominados pelos muçulmanos, os imigrantes buscavam mais oportunidade e liberdade em países católicos.

No Brasil, eram chamados de turcos, apelido considerado ofensivo, uma vez que fazia referência aos seus dominadores. Com o passar dos anos, filhos e netos deixaram o varejo e o trabalho de mascate, partindo para a indústria, as atividades liberais e a política. A Medicina foi um dos caminhos preferenciais e deu origem, entre outros feitos, ao Hospital Sírio-Libanês.

A política atraiu os patrícios. "Acho que o sucesso na política se deve à capacidade de se adaptar ao Brasil e de se integrar. Há patrícios até como presidentes de clube de futebol e escolas de samba", diz o professor Oswaldo Truzzi, autor do livro Patrícios - Sírios e Libaneses em São Paulo.