Alex Silva/Estadão
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Prédios tombados no centro de SP abrigam ocupações

A tragédia do Largo do Paiçandu levou à criação de uma lista com 67 imóveis invadidos que terão visita técnica. Do total, ao menos 13 são tombados, 1 está em processo de tombamento e 14 são áreas no entorno de bens registrados no Conpresp

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2018 | 23h57

Um “cortiço”, com pessoas vivendo até no vão do elevador, é como a arquiteta Nadia Somekh lembra do Edifício Martinelli nos anos 1970. Se o imóvel e outros espaços do centro foram revitalizados anos depois, outros tantos prédios marcantes da história da cidade de São Paulo permanecem em condições de moradia precárias.

É o que ocorre, por exemplo, no entorno da Cracolândia e também em trechos menos valorizados da área central, caso do Edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou na terça-feira, após um incêndio. A tragédia do Largo do Paiçandu expôs essa realidade, resultando na criação de uma lista com 67 imóveis ocupados que passarão por vistorias. Do total, ao menos 13 são tombados, um está em processo de tombamento e 14 são áreas no entorno de bens protegidos pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo. 

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Desse total, três ocupações chegaram a ser consideradas em um programa habitacional da cidade em 2016, mas foram descartadas, dentre outros motivos pelo suposto alto investimento necessário. Elas são o Edifício Nazareth, na Praça da Sé, o prédio da Rua Xavier de Toledo, 150, e o antigo Hotel Columbia, todos no centro.

Na mesma rua em que desabou o Wilton Paes de Almeida na terça-feira há outro imóvel tombado sob ocupação – no caso, na Rua Antônio de Godói, 23 e 27. O roteiro das invasões em edifícios que fazem parte da história da cidade passa ainda por endereços da Avenida São João e das Ruas Conselheiro Crispiniano, 7 de Abril, Marconi, José Bonifácio, Glete, Conselheiro Ramalho. Há prédios tombados, ocupados e sob necessidade de vistoria técnica até na Praça da Sé, marco zero da capital.

Até a história dos desabrigados pela tragédia do Paiçandu resvala na história paulistana. Acampam na frente da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída em 1725, que trouxe mais público para o centro e obrigou a abertura de mais vias na área.

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Resgate. O desafio é dar novos usos a esses espaços. Conselheira no Conpresp pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Marianna Al Assal aponta que, embora ocorra “nem sempre de maneira fácil”, a habitação em bens desse tipo une dois pontos complementares: o direito à cidade e o direito à memória. “O tombamento não significa um fim, mas uma possibilidade de pensar alternativas de uso”, aponta.

Para o professor de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) Lucio Gomes Machado, a recuperação desses imóveis é vantajosa e permite modificações internas. “O restauro é mais difícil de fazer, precisa de um bom projeto, só que a conta no final é mais barata”, garante.

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‘Deselitização’ do centro levou ao abandono de edificações

Prédios tombados e sob ocupação são legado de uma época em que a vida paulistana girava em torno do Anhangabaú

Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

05 Maio 2018 | 00h00

Um dos primeiros “pele de vidro” de São Paulo, o Edifício Wilton Paes de Almeida era o precursor do que se tornaria a marca registrada dos prédios de grandes centros econômicos da cidade de São Paulo, como as Avenidas Berrini e Faria Lima. Destruído pelo incêndio seguido de desabamento na terça-feira, era um dos 293 bens tombados em âmbito municipal dentro da área do Vale do Anhangabaú desde 1992.

Representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) no conselho municipal de patrimônio cultural, Marianna Al Assal considera o tombamento do Anhangabaú exemplar por preservar uma época. “Não é o tombamento de um imóvel isolado, mas da paisagem composta pelas construções que marcam, identificam espaços da cidade”, comenta.

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Como explica a arquiteta Nadia Somekh, o eixo de escritórios saiu do centro para a Avenida Paulista, nos anos 1970, e seguiu para a Avenida Faria Lima, nos anos 1980. Atualmente, está no entorno da Avenida Berrini, na zona sul. “Houve ao longo do século 20, uma ‘deselitização’ do centro”, aponta a autora de A Cidade Vertical e o Urbanismo Modernizador

Novos recursos, como metrô e vias expressas, contudo, podem revalorizar esses locais. Ex-coordenador do programa federal Monumenta, Pedro Taddei Neto aponta que, no caso do centro, há alguma permanência urbanística por ter uma configuração mais flexível do que seus antecessores, da época colonial, por exemplo.

A estrutura de escritórios de prédios do centro não abarca as necessidades de muitas empresas hoje, que preferem grandes espaços abertos, modificáveis com mais facilidade, ele aponta. Para Nadia, contudo, a estrutura se encaixa mais nas necessidades de pequenos profissionais liberais, como advogados, ou produtores culturais – além de poderem ser adaptados para a habitação.

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