Gabriela Bilo/Estadão
Sobrados construídos em 1898 pelo coronel Antonio Mendes da Costa na Barão de Piracicaba Gabriela Bilo/Estadão

Prédios tombados na Cracolândia expõem declínio de Campos Elísios

Apenas no quadrilátero da Cracolândia original, 17 endereços são tombados pelo Condephaat desde 2013

Edison Veiga, Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2017 | 18h31

SÃO PAULO - O processo que acabou transferindo a chamada Cracolândia de um ponto a outro da região central de São Paulo escancarou, além de cicatrizes sociais e humanas, faces escondidas do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade. Apenas no quadrilátero da Cracolândia original - entre a Rua Helvétia e as Alamedas Cleveland, Glete e Barão do Piracicaba, no bairro dos Campos Elísios -, 17 endereços são tombados, desde 2013, pelo Condephaat, o órgão estadual de proteção ao patrimônio, e os mesmos imóveis constam de processo em tramitação no Conpresp, o correlato órgão municipal.

A lista contempla prédios erguidos até os anos 1930. "Apesar do processo de estagnação e modificação sofrido pelo bairro após aquela década, um significativo conjunto de edificações e espaços urbanos conserva-se como testemunho inestimável do período de formação e desenvolvimento dos Campos Elísios", diz o texto que justifica o tombamento. O próprio nome do bairro, aliás, alude a esses tempos áureos. Na mitologia grega, era para os Campos Elísios que iam "os heróis e os bons homens após a morte", como pontua o jornalista Levino Ponciano em seu livro Bairros Paulistanos de A a Z. "Também remete aos lindos Champs Elysées, de Paris", complementa o autor. 

O primeiro loteamento planejado da capital surgiu ali, nas proximidades dos trilhos da The São Paulo Railway Co. "Como outros, esse bairro resulta do loteamento de chácaras. Em 1878, época da grande imigração, Frederico Glette e Victro Nothmann desenharam um bairro com perfil residencial de elite", diz Ponciano. 

Logo, a região se converteria em ponto estratégico para os barões do café, então o motor da economia paulista - a proximidade da estação de trem podia levá-los facilmente para suas fazendas no interior ou para Santos, porto de saída das exportações. 

Mas a mesma Estação Júlio Prestes que atraiu os ricos também trouxe os pobres. "Com a estação vieram pessoas, muitas pessoas, táxis e cargas. Surgiram hotéis, pensões e cortiços", diz Ponciano, lembrando que famílias com mais de dez pessoas moravam em pequenos cômodos. "Os ricos partiram e o bairro entrou em decadência. Hoje é um monte de lojas de carros chamado de 'boca'... Além, é claro, de prédios lindos que morrem devagar."

Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, o historiador e arquiteto Paulo Rezzutti conta que a pujança do bairro era tanta na primeira metade do século 20 que "a concentração de renda lá já foi uma das maiores da América do Sul". "O tio e o pai da atual rainha da Inglaterra foram recebidos lá pela d. Olívia Guedes Penteado, em 1931, em sua casa que ficava na Conselheiro Nébias", exemplifica. 

'Maldição'. "A planície paulista é uma maldição", comenta ele. "Nossa cidade foi ocupando novos lugares, se espraiando por onde o benevolente relevo permitiu, deixando locais necrosados para trás, como é o caso dos Campos Elísios."

Ex-diretor do Museu da Língua Portuguesa - e, portanto, conhecedor da região -, Antonio Carlos de Moraes Sartini lembra que nas últimas décadas a região se tornou referência por abrigar "importantes espaços culturais de renome internacional que podem ser frequentados por todos, de todas as camadas sociais". 

"Com tanta história, tradição, movimento e diversidade, qualquer coisa que afete a região, afeta a identidade da cidade e de sua população", analisa Sartini. "É uma região que requer cuidados e bom senso no trato, caso contrário nossa grande cidade perde mais um tanto de sua história e referências."

Ex-presidente do Conpresp, a arquiteta Nadia Somekh demonstra preocupação com o futuro patrimonial da região, no embalo das recentes intervenções e do que ainda pode ocorrer. "Não adianta fazer grandes investimentos sem ter uma visão global", defende. "É preciso articular programas sociais e desenvolvimento imobiliário. Não é possível resolver um projeto urbanístico em quatro anos. Isso pode ser devastador para a memória da cidade."

O arquiteto Milton Nishida, autor do projeto de restauro do Castelinho da Rua Apa, contextualiza o bairro como, no passado, "a vitrine do bem morar na América do Sul". "Hoje, tristemente, vem sendo reduzida àquela 'poeira' que se quer varrer para debaixo do tapete. Representa um esquecimento, às costas viradas de quem mira e vislumbra para o lado oposto da cidade", compara. "É preciso preservar e resgatar o patrimônio histórico, mas, sobretudo com o devido acompanhamento das demais áreas que envolvem a sociedade no meio urbano, especialmente o ser humano."

É um lamento recorrente na categoria. "É uma pena ver o estado de degradação ao qual chegou a região. Fosse em país desenvolvido, seria uma região equivalente aos famosos quarteirões dos museus. Temos ali uma grande estação de trem, museus, a mais bela sala de concertos de São Paulo, um parque com esculturas importantes, comércio tradicional", afirma o arquiteto Henrique de Carvalho, do ateliê Tanta. "Infelizmente, o planejamento da cidade parece sempre pensar somente do lote para dentro, deixando as atrações ilhadas com um território hostil e negligenciado entre elas."

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