Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Prédios e baladas mudam cara do Baixo Augusta

Antigo reduto de garotas de programa dá, em alta velocidade, lugar a bares arrumadinhos e edifícios de metro quadrado estratosférico

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

Desgostoso com a queda de 70% no movimento de sua boate, na Rua Augusta, o empresário goiano Henrique José Toledo, de 39 anos, investiu R$ 80 mil no velho sobrado e transformou a casa de garotas de programa em clube GLS. Pretende inaugurá-lo na quinta-feira.

Em dois meses, Toledo foi do forró ao techno e entrou na onda dos empresários que aproveitam a reinvenção do trecho conhecido agora como Baixo Augusta, na parte da rua mais próxima do centro de São Paulo, para fazer dinheiro.

Integram esse rol proprietários de imóveis antigos, incorporadores de novos, investidores e comerciantes. A área de oportunidades se estende pelas vizinhas Ruas Frei Caneca, Bela Cintra e transversais. Seus entusiastas acrescentam que a região vai ganhar ainda com a prometida recuperação da Praça Roosevelt, no centro, e a reabertura do Teatro Cultura Artística. Para conjugar um com o outro, a Prefeitura deve desapropriar uma série de inferninhos naquele pedaço.

Ecletismo. Tudo começou com a renovação da frequência na região - e sua divulgação na mídia. A paisagem antes restrita a botecos encardidos, night clubs de garotas de programas e carros com motores envenenados tornou-se tão eclética que hoje as casas noturnas promovem festas especiais para roqueiros, artistas plásticos, emos, performáticos, metaleiros, gays, cinéfilos e lésbicas (assim mesmo, tudo separado).

"O problema, no meu caso, foi que os gays passaram a frequentar um bar que fica colado à boate, e o meu cliente se sentiu constrangido em entrar", diz Toledo. Ele deixa claro que não é "G" nem "L" mas, por força das circunstâncias, tornou-se "S" - ou simpatizante. No lugar onde antes estavam os quartos reservados para atendimentos das garotas, ele adaptou dois darkrooms - dedicados à pegação.

A menos de 200 metros dali, o empresário Raimundo Cândido da Silva, de 53 anos, há 12 no mesmo ponto, investiu R$ 190 mil em pastilhas de vidro, luminárias de aço escovado e escotilhas e vai reabrir seu bar no formato de restaurante moderninho. "Vamos ter isolamento acústico e convênio com estacionamentos", empolga-se.

Para alguns sujinhos remanescentes, foi possível sobreviver sem mexer um tijolo. Caso do Eclético"s, um boteco escuro e frio, com antigas máquinas de fliperama pelos cantos, agora frequentado por uma clientela supostamente desencanada. "Vinha muito homem atrás de garota de programa, só dava confusão", diz Cristina Santos, gerente há 17 anos.

Lamúrias. Em uma caminhada entre as Ruas Peixoto Gomide e Caio Prado, no pedaço da Augusta mais perto do centro, ouvem-se muitas lamúrias de quem não embarcou na mudança conceitual da área.

Por causa do visível êxodo das garotas de programa, cujo público de jovens arruaceiros foi solapado pela horda de baladeiros, os negócios dedicados a elas estão falindo. "O movimento do salão não chega a 20% do que era há três anos. Eu não tinha tempo nem para tomar um café", lembra o cabeleireiro Vércio Matos, de 52 anos, que trabalha até as 3h - para atender as garotas entre um programa e outro.

Vércio explica que "o emo já vem com o cabelo feito, o artista não penteia, e a namorada dele, muito menos". "O gay e a patricinha frequentam salões caros nos Jardins", acha.

Patrícia Medeiros, da loja de roupas Stilo Rave, diz que nem tudo está perdido. "O fluxo de garotas de programa diminuiu mais de 60%, e elas eram ótimas porque pagavam em cash, com o dinheiro do programa. Em compensação, agora tem o público GLS, que compra até mais."

Especulação. Enquanto isso, nos estandes imobiliários, corretores dos lançamentos em série da região chegam a cobrar astronômicos R$ 9 mil pelo m², vendendo vantagens como a proximidade do centro da cidade, de estações do metrô, universidades e shoppings. "Esse valor vai duplicar antes do fim da construção", prometem os encarregados de vender empreendimentos como o Ca"d"Oro SP, na esquina com a Rua Caio Prado; Zoom, na Paim, e Capital Augusta, na Antônia de Queiroz, lançado na quinta. Especialistas acreditam que, cobrando tanto pelo metro quadrado, os especuladores aproximam-se perigosamente do limite da demanda. "Puxando o preço tão para cima, eles correm o risco de ver o produto encalhado", diz Luiz Paulo Pompeia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp). A incorporadora Esser, do Capital Augusta, não se intimida. Uma pesquisa encomendada por eles revela que, das 4.054 unidades lançadas nos últimos três anos no centro, Bela Vista, Consolação, Liberdade e Santa Cecília, 3.892 estão vendidas.

Os produtos em geral medem entre 40m² e 80m² e são "ideais" para solteiros, recém-casados e para o promissor "público GLS" - do qual já se fala abertamente como alvo. Na Frei Caneca, conhecida pela frequência gay, são cobrados R$ 2.100 de aluguel por um apartamento de 56 m².

"A glamourização da Augusta é evidente, mas nós não investimos apenas com base na observação", diz Ricardo Lahan, diretor de incorporação da Brookfield (Ca"d"Oro SP), que aposta também nos esforços do poder público. Ele diz que a Operação Urbana Centro tornou a área "potencialmente atrativa". "A lei autoriza que se construam ali prédios com coeficiente de aproveitamento de seis vezes o tamanho do terreno, contra, por exemplo, quatro no Brooklin (zona sul)."

Mesmo na Rua Paim, que até há pouco tempo era desvalorizada por causa da vizinhança considerada barra-pesada, já são sete empreendimentos com os mesmos patamares de preço. O estoque de construção adicional permitido pela Prefeitura naquela região, que pertence ao distrito da Bela Vista, já foi utilizado. Dos 50 mil m², 49.973m² estão comprometidos. Isso, dizem os famigerados corretores, vai aumentar ainda mais o preço dos futuros empreendimentos.

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