Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

Prédios de SP aderem à Street Biennale

Até 23 de outubro, 7 artistas vão expor 14 obras inéditas em praças e ruas do centro

Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2010 | 00h00

Olhando para os prédios do centro velho de São Paulo, o artista plástico franco-argelino Mohamed Bourouissa exclama: "Adoro pichação!" A também artista chinesa Ko Siu Lan fotografa as pichações e pergunta: "Como eles conseguem subir lá no alto?" Eles fazem parte do grupo de artistas da Street Biennale, a bienal de rua de São Paulo, que começa amanhã.

 

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Com curadoria do francês Jeremy Planchon - que já fez um evento parecido na orla do Rio, em 2009 -, a bienal de rua pretende instalar em 14 edifícios do centro obras de sete artistas brasileiros e estrangeiros. Cada um terá direito a duas instalações e uma parte dos trabalhos já está à mostra no circuito que começa na Rua Conselheiro Crispiniano, segue pela Avenida São João e termina na Avenida Rio Branco, todas no centro.

As obras, claro, vão coexistir com tudo que há na região - sujeira, degradação e a própria pichação. Mohamed Bourouissa está tentando encontrar algum grafiteiro para intervir na sua obra Gato, inspirada nas ligações elétricas ilegais que ele viu principalmente nas periferias de São Paulo e do Rio. "Gosto de brincar com a ideia de liberdade e prisão. Essas atitudes ilegais são o que cristalizam o espírito de uma cidade", afirma.

É a primeira vez que o paraibano Fabiano Gonper vai expor fora de uma galeria e para um público tão grande - os 12 milhões de moradores da cidade de São Paulo. "Eu gosto porque a gente acaba atingindo um público diferenciado nas ruas, levantando a outros debates", conta Gonper, que participa com dois desenhos da série Manipuladores. Os painéis estão na São João e mostram figuras de políticos e executivos engravatados e sem rosto.

Recém-chegada de Hong Kong especialmente para a mostra, Ko Siu Lan encantou-se com a paisagem urbana de São Paulo. "É tudo muito denso, cheio de formas. Na China e na Europa os prédios são todos parecidos; aqui, não. Porém, para a obra se destacar é preciso pegar mais leve, fazer algo mais neutro."

Autorização. Quem já viu os desenhos dos artistas expostos deve estar se perguntando: e a Lei Cidade Limpa? Jeremy Planchon, naturalmente, pediu permissão à São Paulo Urbanismo (SP Urbanismo) antes de começar. Mas não foi fácil.

"Levou cerca de seis meses para sair a autorização", diz. Ko Siu Lan também teve dificuldades. "Durante a montagem, toda hora vinha alguém dizendo que não podia fazer."

Uma das obras de Lan teve de mudar de lugar porque o dono do prédio - um hotel na Avenida São João - voltou atrás e não concordou em participar do projeto. Um outro edifício na mesma avenida foi multado em R$ 506 mil pela Subprefeitura da Sé - o fiscal pensou que a instalação Veja Bem, de Paulo Climachauska, fosse publicitária. O dono do prédio ainda pode recorrer.

O projeto é financiado pela Biennale de Paris - não há patrocínio local. No fim da exposição, marcado para o dia 23 de outubro, todas as instalações serão retiradas e as fachadas dos prédios, pintadas e "devolvidas" aos donos do mesmo jeito que eram antes.

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