Sérgio Neves/Estadão - 08/07/2009
Sérgio Neves/Estadão - 08/07/2009

Prédio que desabou em São Paulo era importante exemplar modernista

Edifício Wilton Paes de Almeida era tombado desde 1992 e foi um dos primeiros da cidade a ter fachada com esquadrias

Marcelo Lima, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2018 | 23h00

Quase irreconhecível nas últimas décadas, o Edifício Wilton Paes de Almeida, projeto do arquiteto francês Roger Zmekhol, foi inaugurado em 1968 e era considerado um dos mais importantes exemplares da arquitetura moderna em São Paulo. Tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Conpresp) em 1992, o prédio não podia sofrer alterações em sua configuração externa.

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Com 24 pavimentos, planta livre, estrutura de concreto armado e com privilégio do aço em sua construção, o edifício foi um dos primeiros da cidade a exibir uma fachada formada inteiramente por esquadrias preenchidas com vidro – uma condição propiciada pela ideia de concentrar as áreas de serviço, bem como a infraestrutura hidráulica e elétrica, no miolo do edifício.

Em seu meio século de vida, abrigou, entre 1980 e 2003, a Polícia Federal e o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). Pertencia à União, mas havia sido cedido à Prefeitura.

"Em um raio de 15 quilômetros ao redor do Largo do Paiçandu existem muitas outras construções tão icônicas quanto o Wilton Paes de Almeida, muitas delas tombadas, mas igualmente afetadas pelo abandono, pela falta de manutenção e por sucessivas ocupações", afirma José Roberto Geraldine Junior, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU-SP). 

Para Geraldine Junior, antes que novas tragédias aconteçam, é preciso investir em uma política urbana mais articulada e eficaz. "Sem se entender, o poder público, nas suas diversas esferas e gestões, permitiu que o cenário fosse se agravando, adiando a recuperação ou mesmo uma nova destinação ao edifício, até para amenizar a precária situação habitacional no centro", diz o arquiteto.

Igreja sob escombros. As dimensões relativamente modestas da Igreja Luterana de São Paulo, na Avenida Rio Branco, contrastam com sua relevância histórica e arquitetônica para a cidade. Em especial agora, quando se estima que ao menos 90% de sua construção tenha sido destruída pelos escombros do desabamento ocorrido nesta terça-feira. Foi um dos cinco prédios afetados pelo desabamento.

"Pelas imagens que vi, sobraram só a torre e parte do altar", afirma o pastor luterano Frederico Carlos Ludwig, responsável pela paróquia. "Há tempos tínhamos notado que o prédio parecia se inclinar em direção à rua. Tentamos denunciar a situação aos órgãos competentes, mas sem sucesso", diz o pastor.

Primeiro templo em estilo neogótico construído na capital, primeira paróquia luterana e marco da colonização alemã, a igreja era tombada e não podia ser modificada. Projetado pelo arquiteto alemão Guilherme Von Eÿe e inaugurada em dezembro de 1908, contava com um único pavimento – de 465 m² de área construída –, além de uma torre com acesso frontal por meio de uma porta de madeira . Seus interiores exibiam vitrais da célebre Casa Conrado. E havia outra preciosidade guardada a sete chaves: um órgão musical construído originalmente pela Casa Walcker alemã com 620 tubos. "O prejuízo é incalculável", lamenta o religioso.

CRONOLOGIA

Venda não teve interessados

1968

Edifício Wilton Paes de Almeida, projetado pelo arquiteto Roger Zmekhol, é inaugurado.

1980

Passa a abrigar a sede da Polícia Federal.

1992

É tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (Compresp).

2003

PF deixa o prédio e muda para seu atual endereço, na Lapa, zona oeste.

2014

Em setembro, dois meses após ter sido desocupado por meio de reintegração de posse, edifício é novamente invadido.

2015

Governo federal realiza uma licitação para venda do prédio de 24 andares – o preço mínimo de venda é R$ 21,5 milhões. Negócio não atrai interessados. 

2017

Prefeitura de São Paulo assina termo de autorização de guarda provisória do prédio – o espaço seria usado pelas Secretarias Municipais de Educação e de Cultura.

 

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