Prédio ocupado no centro tem até escola

Quatro dias após invasão, edifício também já conta com refeitório e portaria 24 horas

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2010 | 00h00

Quatro dias após ser invadido por cerca de 1.200 pessoas, o edifício de 15 andares no número 925 da Avenida Ipiranga já tem escola, refeitório e funcionários que se revezam na portaria durante 24 horas. Outros três prédios no centro de São Paulo estão ocupados desde segunda-feira.

As 2.200 pessoas ligadas à Frente de Luta por Moradias (FLM) que participaram das invasões prometem resistir por tempo indeterminado. Ontem, 550 delas, que estão em um prédio na Avenida Nove de Julho, recusaram proposta de atendimento habitacional da Prefeitura para 139 famílias.

Mesmo sem água, o prédio da Avenida Ipiranga concentra o maior número de famílias e já começa a ter rotina de um condomínio. As 43 suítes do hotel que funcionou no local até a década de 1980, antes de o espaço ser transformado em um bingo, estão ocupadas por pelo menos nove pessoas cada uma, quase sempre da mesma família.

Refeitório. Organizados, os moradores saem o tempo todo para buscar mantimentos e montaram um refeitório, com cinco horários diários para refeições. A maior parte das cerca de 150 crianças e bebês que estão no prédio, alguns recém-nascidos, é levada para tomar banho na tenda para moradores de rua instalada pela Prefeitura no Parque Dom Pedro. No banheiro da Igreja do Largo do Paiçandu, os ocupantes fazem filas com escovas de dente em mãos logo pela manhã.

"Os comerciantes já não estão deixando a gente usar os banheiros", conta Maria do Planalto, de 52 anos, a líder da ocupação no prédio da Ipiranga. Na escola improvisada em duas suítes do segundo andar, as crianças têm aulas pela manhã de português e matemática com um professor voluntário da FLM e brincadeiras e jogos na parte da tarde, com outro monitor. A portaria do prédio é vigiada por três funcionários, que se revezam em turnos de oito horas, para evitar a entrada de quem não é associado da FLM. Para entrar, é preciso mostrar uma carteirinha.

Bolsa-aluguel. A maioria dos invasores vem da zona leste. Eles tiveram de deixar um terreno invadido no bairro Alto Alegre e reclamam que a Prefeitura suspendeu os R$ 300 mensais de bolsa-aluguel que eram pagos até março às famílias. O prédio da Ipiranga pertence ao grupo Camargo Corrêa, que estuda pedir a reintegração de posse do imóvel. A Prefeitura afirma que pretende voltar a negociar com os moradores e informou que cabe apenas ao proprietário ir à Justiça para tirar os invasores do prédio.

PARA LEMBRAR

As invasões dos quatro prédios no centro da capital ocorreram na madrugada de segunda-feira passada. A Frente de Luta Pela Moradia (FLM), que organizou as ocupações, reivindica a desapropriação dos imóveis para acomodar as famílias. Dois dos imóveis ocupados fazem parte das reivindicações históricas dos movimentos sociais: o prédio do INSS na Avenida 9 de Julho e o Edifício Prestes Maia, na região da Luz. Além deles, os sem-teto estão no prédio do antigo Hotel Columbia Palace, na Avenida São João.

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