Wilton Junior/AE
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Preconceito faz presos 'migrarem' de bairro no Rio

Com medo de repercussão negativa na Justiça e dentro da cadeia, condenados dizem ser de regiões vizinhas a grandes complexos

MARCELO GOMES, O Estado de S.Paulo

17 Março 2013 | 02h05

RIO - Robson Borges da Silva tem 34 anos e vive desde os 3 no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio. Começou a trabalhar aos 10 anos em uma borracharia. Com a mesma idade, experimentou cocaína pela primeira vez. Aos 13, participou do primeiro assalto. Foi preso três vezes por crimes como porte de arma, assalto, extorsão, formação de quadrilha e sequestro. Em todas as vezes que foi para a cadeia, Silva (que hoje trabalha em uma cooperativa de reciclagem de lixo, chamada Eu Quero Liberdade) informou à Justiça a rua e o número corretos de sua residência, mas preferiu dizer que morava em Bonsucesso, bairro vizinho ao complexo de favelas que, até a pacificação, em 2010, tinha o estigma de ser o quartel-general do Comando Vermelho.

Atitudes como essa fazem com que Bonsucesso seja o bairro carioca que registra a maior taxa de residentes presos em relação à sua população: são 15,93 detentos para cada mil habitantes. O índice é mais que o dobro da taxa dos Estados Unidos (país com a maior população prisional do mundo, 7,16 por mil habitantes, segundo o International Centre for Prison Studies).

"Quando você diz que mora na favela, já tem 50% de chance de ser condenado", explica Silva. "Além disso, ao omitir que mora em uma favela, você 'se neutraliza' na cadeia. Se eu dissesse que era do Alemão, um cara que é de Acari, por exemplo, já me vê como um inimigo, pois são comunidades controladas por facções diferentes."

Com o objetivo de descobrir de onde vem a maioria das pessoas condenadas por crimes no Rio, o Estado cruzou os endereços de residência informados à Justiça pelos presos com os bairros cariocas. Atrás de Bonsucesso estão os bairros Saúde (taxa de 14,19) e Jacaré (9,7).

O levantamento feito pelo Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) a pedido do Estado mostra que havia 22.157 presos cumprindo pena em todo o Estado em agosto de 2012. Desses, 8.569 (39%) moravam na capital. "A importância deste levantamento é apontar onde o Estado tem de investir no processo social", diz o juiz Carlos Eduardo Figueiredo, da Vara de Execuções Penais do TJ-RJ.

Estigma. Diretor da ONG Observatório de Favelas, o doutor em Sociologia e professor de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Jailson de Souza e Silva diz que a sub-representação de favelas no topo do ranking deve-se à intenção dos moradores de fugir do estigma. "O endereço que o morador de uma comunidade informa vai depender da situação. Se for para procurar por apoio social, como bolsa em uma faculdade, eles dizem que moram na favela. Por outro lado, na hora de procurar um emprego ou de fornecer o endereço à Justiça depois de preso, a tendência é que a favela seja escamoteada."

Segundo ele, o fato de o Complexo do Alemão, Maré e Jacarezinho - três bairros da zona norte com alto grau de favelização - registrarem oficialmente taxas de presos bem inferiores a bairros próximos, como Bonsucesso, Penha e Jacaré, reflete comportamentos como o de Robson Silva, citado no início do texto.

Para o coronel da Polícia Militar e presidente do Instituto de Segurança Pública (ISP), Paulo Teixeira, é preciso também lembrar a questão de identificação pessoal de cada morador. "O cara pode residir no lugar A, mas estuda, trabalha e conhece pessoas de um lugar B e acaba se sentindo morador desta segunda região que é diferente da representação oficial."

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