Preço das fantasias no Rio intimida os foliões

Roupas tiveram alta de 25% neste ano; na última década, valores dispararam 112%

Antonio Pita, de O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2013 | 02h03

  

 

A escalada vertiginosa de preços no Rio chegou também à maior vitrine da cidade: o carnaval das escolas de samba. A duas semanas dos desfiles na Sapucaí, o preço das fantasias à venda nos barracões está, em média, 25% mais caro em relação ao ano passado. O valor das roupas está em torno de R$ 800, mas nas agremiações mais famosas o preço pode até passar de R$ 1.100 por pessoa para as alas comuns.

Para sair na escola que defende o título do carnaval, a Unidos da Tijuca, o folião terá de desembolsar, no mínimo, R$ 1 mil pelas últimas fantasias disponíveis. Na Portela, no Salgueiro e na Mangueira, os valores ficam entre R$ 800 e R$ 1.000. Entre as escolas mais em conta, a Grande Rio tem fantasias por R$ 700.

Nos últimos dez anos, o carnaval do Rio encareceu 112% no bolso dos foliões, de acordo com levantamento feito pelo Estado. O valor se refere à média de preço das fantasias para o desfile. Em 2003, ele era de R$ 400. A alta de preços é superior à inflação acumulada no período, que, segundo o IBGE, ficou em 76,61%.

Para o diretor de Carnaval da Grande Rio, Tavinho Novello, as fantasias estão com mais qualidade e mais luxuosas, com materiais mais caros. "É difícil manter o preço, pois temos um custo inflacionário além das doações à comunidade. Apenas 10% das nossas fantasias são vendidas", afirma Novello, que estima em 3.600 o total de roupas e adereços criados para este desfile.

Responsável pelas vendas em uma ala com cem foliões na Imperatriz Leopoldinense, Sandra Borges afirma que só restam quatro fantasias, ao custo de R$ 750. Ela diz que, apesar da elevação, os preços não cobrem os custos das fantasias. "Você vê as fantasias, o tipo de material usado, e percebe que o valor não paga nem a mão de obra", diz Sandra. "Não somos mercenários."

Mesmo mais altos, os preços não desanimam os foliões. Os mais experientes aproveitam os últimos dias de vendas para conseguir descontos no valor das fantasias para grupos. Ricardo Almeida, de Belém, passou a última semana pesquisando preços para a compra de 20 fantasias para um grupo de amigos. "Queremos muito ir ao desfile para acompanhar a homenagem da Imperatriz ao nosso Estado. Os preços estão altos, sim, mas acho que vale a pena pelo espetáculo", diz o folião.

Rainhas. Outro setor que sentiu a inflação do carnaval no Rio foi o mercado de destaques das escolas de samba, formado pelos postos de rainhas, princesas e musas de bateria. Alvo de disputa em função da grande visibilidade, esses cargos têm sido negociados pelas escolas por valores a partir de R$ 30 mil para uma musa e até R$ 300 mil para rainhas, segundo passistas que perderam a majestade.

"Nunca foi cobrado para esse cargo de musa, agora as escolas estão exigindo esses valores altos. Não temos condições de arcar, já bancamos o custo da roupa", critica a passista Andrea Martins, que há 16 anos desfila no Rio e quase ficou de fora da Sapucaí neste ano por causa dos valores. Na semana passada, com o corpo coberto apenas com pinturas, ela fez um protesto em Copacabana contra a venda dos postos. Andrea não revela o nome, mas afirma que recebeu a cobrança de duas escolas do Grupo Especial.

"Para os cargos de rainha, a gente sabe que são cobrados há muito tempo valores entre R$ 200 e R$ 250 mil, a depender da escola. Hoje, já há casos de até R$ 300 mil, mas ninguém comenta abertamente. No caso da rainha, a cobrança é porque existe um custo com a bateria", afirma Andrea.

Após o protesto, ela conseguiu um lugar em uma das alegorias da Grande Rio, sem pagar nada. "Sou uma sambista de verdade, criada na comunidade. Acho um absurdo essa cobrança."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.